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Mundo

21/09/2005

 

Comércio injusto

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

 

No seio da ONU, um dos organismos mais empenhados em melhorar a vida nos países pobres é o PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Possui uma rede de especialistas presentes em 166 dos 191 Estados do mundo e ajuda os governos e as populações a identificar as suas próprias soluções frente aos desafios em matéria de desenvolvimento. Nos países menos avançados, o PNUD estimula o governo democrático, a luta contra a pobreza, a prevenção dos conflitos, a reconstrução depois das guerras, o desenvolvimento dos recursos energéticos, a protecção do meio ambiente e o combate contra a propagação da SIDA.

Cada ano publica um importante Relatório mundial sobre o desenvolvimento humano, que todas as ONG e associações envolvidas em acções de solidariedade e de ajuda humanitária em favor do Terceiro Mundo conferem com enorme interesse. O relatório deste ano acaba de sair e leva por título A cooperação internacional ante uma encruzilhada. Sublinha em particular que políticas comerciais injustas comprometem as perspectivas de crescimento dos países em via de desenvolvimento.


«O comércio» - declara Kevin Watkins, autor principal do relatório – «poderia ser um motor do desenvolvimento humano bem mais poderoso do que a ajuda aos países pobres». Mas as políticas actuais, muito desiguais, impedem a milhões de cidadãos de países pobres o acesso às oportunidades comerciais. Populações inteiras ficam à margem da prosperidade.


A modo de exemplo, o relatório assinala a África subsaariana, cada vez mais marginada no mercado mundial. Com uma população de 700 milhões de pessoas, esta região representa uma parte das exportações mundiais inferior à da Bélgica, país de apenas 10 milhões de habitantes... Se a África tivesse conservado a mesma parte das exportações mundiais que tinha em 1980, o volume de suas vendas seria hoje 119.000 milhões de dólares superior. Uma soma cinco vezes mais importante que toda a ajuda dada pelos países ricos desde 2002.


Os autores do relatório guardam­‑se bem de afirmar, como o fazem em geral os neoliberais, que o comércio só tem vantagens. Citam, por exemplo, dois casos contraditórios: o do Vietname, onde o aumento das exportações se traduziu, efectivamente, numa redução espectacular da pobreza; e o do México, onde a liberalização rápida das importações agrícolas tem empobrecido mais ainda os camponeses.


Ainda que os Estados ricos não cessem de prometer a diminuição das suas tarifas aduaneiras para favorecer as importações provenientes dos países em via de desenvolvimento, e a redução das subvenções aos seus agricultores, a verdade é que essas medidas não se tomam. A esse respeito, o PNUD assinala que as ajudas concedidas pelos governos dos países ricos (onde há sobreprodução agrícola permanente) aos seus camponeses atingem a soma de mil milhões de dólares ao dia! Entretanto, a ajuda dada por esses mesmos países aos agricultores do Terceiro Mundo mal ascende a mil milhões de dólares ao ano...


Os contribuintes e os consumidores dos Estados desenvolvidos financiam assim um sistema que, no essencial, favorece sobremaneira os agricultores ricos de Europa, Estados Unidos e Japão, e causa um dano tremendo aos camponeses mais pobres do mundo.


«Por trás da retórica do mercado livre e da sua mão invisível que pretende harmonizar tudo» – diz Kevin Watkins –, esconde-se uma dura realidade: os agricultores mais pobres do planeta não competem com os camponeses do Norte, mas com os ministérios das finanças dos países industrializados que sobreprotegem o seu mundo rural. E falseiam as regras do jogo».