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07/09/2005 Ignacio Ramonet O ciclone Katrina não só
causou uma excepcional tragédia humana no Louisiana, senão que, ao destruir
também uma série de plataformas de extracção de hidrocarbonetos em alto mar,
acentuou ainda mais a crise petrolífera. O Governo dos Estados Unidos decidiu
recorrer às reservas estratégicas. E os países da OPEP aumentaram a sua
produção diária de hidrocarbonetos. Mas isso não impede os preços do barril,
que não há muito rondavam apenas os 25 dólares, de estarem já a atingir os 70
dólares. O constante aumento do preço
dos combustíveis, sobretudo desde o início de 2005, está a começar a causar
uma inquietude profunda. É agora claro para todo o mundo que semelhante
situação vai durar. E vai agravar‑se. Alguns especialistas recordam‑nos
que, ainda que astronómicos, esses preços ainda não estão ao nível atingido
em 1979 depois do triunfo da revolução islâmica no Irão. Em dólares de hoje,
o barril pagou‑se então a 80 dólares. Segundo o Fundo Monetário
Internacional (FMI), pouco suspeito de querer envenenar estas coisas, a hipótese
de um barril a 100 dólares deixou de ser descabida. Por pouco que o próximo Inverno
seja mais frio, que o caos iraquiano se mantenha e que estoure uma crise
sobre a questão nuclear com o Irão, a barreira dos 100 dólares poderia ser atingida
pelo Natal. O que poria o preço do litro de supercarburante para os
automobilistas europeus nuns dois euros. Mas as coisas não se deterão
aí. Num relatório publicado em França, dois economistas demonstram que os
preços do barril de crude poderiam atingir, dentro de dez anos, 380 dólares.
Segundo eles, em 2015, a oferta de crude no mercado será de 100 milhões de
barris, enquanto a procura (estimulada pelo contínuo esbanjamento dos Estados
Unidos e o crescimento constante de China, Índia, África do Sul...)
ultrapassará os 108 milhões de barris. E quando, em qualquer sector do
mercado, a procura excede em 8% a oferta, não há equilíbrio de preços. Estes disparam... Nas economias dos países
ocidentais, o choque petrolífero actual produz, de momento, um impacto menor
do que o causado no ano 1970. Mas em outros países – Indonésia, Honduras,
Costa Rica, Senegal, etc. – o rápido aumento da factura energética já está a
provocar crises sociais de grande amplitude. Governos de nações em vias de
desenvolvimento dispõem‑se a declarar o “estado de urgência económica”
com cortes da energia eléctrica e racionamento de gasolina. Alguns estados
pobres reclamam um gesto dos países produtores. Daí, por exemplo, a
importância do acordo marco assinado no passado mês de Junho pelo presidente
da Venezuela, Hugo Chávez, e chefes de Estado e de Governo de países do
Caribe para a criação da Petrocaribe, uma iniciativa regional mediante a qual
Caracas vende petróleo a preço barato aos países da região. O mundo consome, desde há um
decénio, bem mais petróleo que o que se descobre cada ano. Nos grandes países
consumidores não há vontade política para estimular a sério as energias de
substituição renováveis. Alguns deveriam inspirar-se no exemplo do Brasil
que, a partir da cana de açúcar e da soja, das quais é um dos primeiros
produtores mundiais, criou biocombustíveis ecológicos, como o etanol,
renováveis cem por cento. Um veículo em cada três usa uma mistura de etanol e
gasolina. Em Março passado, o Brasil começou a produzir, em série, um avião –
o Ipanema – cujo motor funciona com etanol, menos contaminante e cinco vezes menos
caro do que o querosene. Hoje o etanol já representa 25% do consumo de
energia neste país. O que esperamos para fazer como o Brasil? |