Informação Alternativa

Mundo

24/08/2005

 

Ricos na costa

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

 

A costa é a Azul, a Riviera francesa, onde, como cada verão, passo umas semanas de descanso. Houve um tempo em que vinham aqui, a esta zona edénica do Cap d’Antibes, não só os milionários mas, sobretudo, os artistas, pintores e escritores célebres. Muitos deixaram uma recordação indelével: Maupassant, Julio Verne, Anatole France, Simenon. Mas, como se sabe, foi o novelista estado­‑unidense Scott Fitzgerald quem mais marcou o lugar, inventou nos anos 1920 a praia de Juan-les-Pins (hoje quase infrequentável pelas massas gordurosas que saturam as suas areias), e escreveu, numa vila transformada agora no hotel Belles-Rives, uma das suas novelas mais desesperadas: Tender is the night.


Também, entre muitos outros autores, residiram neste rincão do paraíso, até à sua morte, o grego Nikos Kazantzaki, que escreveu aqui O Cristo recrucificado e Carta ao Greco; o alemão Ernst Jünger, autor de Uma tarde em Antibes, e o inglês Graham Greene, que redigiu no seu pequeno andar da rua Pasteur várias das suas obras mestras: Viagens com a minha tia, O cônsul honorário e O factor humano.


Entre os pintores, imortalizaram nas suas telas as paisagens de Antibes desde Monet até Hans Hartung passando pelos principais impressionistas, bem como Léger, Braque, Chagall, Picasso e o luminoso Nicolas de Stael, de quem o museu local está a apresentar uma selecção das suas peças criadas durante os dois anos (1954­‑1955) que residiu aqui antes de se suicidar, em 16 de Março de 1955, atirando-se de um balcão do edifício Ardouin, onde vivia, frente ao doloroso mar azul.


A esses tempos de arte e criação sucedeu a era da ostentação e do esbanjamento. Agora, a imprensa e a comunidade o que comentam é a chegada dos multimilionários. Diz-me um senhor italiano que possui vila e piscina nestas paragens que «todo o mundo» está atento à chegada de Paul Allen, o cofundador – com Bill Gates – da Microsoft, e um dos homens mais endinheirados do mundo: «Saberemos que chegou – informa-me – quando virmos decolar um helicóptero de um gigantesco iate valorado em 200 milhões de euros. Possui além disso um submarino com oito homens de tripulação dispostos a levá-lo a visitar as profundezas do mar».


Este ano, por causa da morte do rei Fahd e do luto, os sauditas e sua paixão pelo fasto estão ausentes. Mas os russos ocupam o terreno quiçá com maior fanfarronice na exibição de sinais exteriores de luxo. Compram tudo e põem os preços dos andares e das casas pelas nuvens. Só se deslocam a bordo de Porsche, Ferrari, Bentley ou Maseratti... Contam-me que Boris Yeltsin, com um batalhão de guarda-costas armados, está a veranear na sua faraónica propriedade, e vejo de vez em quando passar verdadeiras caravanas presidenciais com carros de vidros negros precedidos e seguidos por veículos todo­‑o-terreno carregados de jovens atléticos com minúsculos aparelhos auditivos afundados nas orelhas.


Mas o que mais se comenta é como o multimilionário britânico Philip Green inaugurou a temporada gastando na bar­‑mitsva (comunhão hebraica) do seu filho mais de seis milhões de euros. Ao que parece, Green alugou durante três semanas 44 habitações e 9 suites (a 1.400 euros a noite) do prestigioso Grande Hotel de Cap­‑Ferrat. Mandou construir uma sala de concertos e um templo de pedra frente ao mar no meio das palmeiras. Fretou um Boeing no qual trouxe de Londres os seus duzentos convidados, para os quais alugou uma frota de carros desportivos no Mónaco.

 
Com o que foi esbanjado em tal festejo, segundo dados da ONU, podiam-se ter curado e salvado da morte por inanição, no Níger, 75.000 crianças.