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Mundo

29/06/2005

 

Kapuscinski

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

 

Tive o privilégio de estar, na sexta-feira 17 de junho, na universidade Ramon Llull de Barcelona onde foi investido doutor honoris causa o jornalista e escritor polaco Ryszard Kapuscinski. Conheço­‑o e admiro­‑o há anos. Teve a amabilidade de me convidar a assistir à cerimónia juntamente com outras personalidades que sempre defenderam a sua obra, como María Cordón, que codirigiu (com Joaquín Estefanía) a secção de opinião de El País na seu época de esplendor, ou Gervasio Sánchez, um dos melhores fotógrafos do mundo, colaborador habitual do Heraldo de Aragón.

 

Para nós que nos dedicamos a isto do jornalismo escrito, Kapuscinski resulta um indiscutível mestre. Mais: um modelo. Antes de mais nada porque as suas reportagens nos recordam sempre que, na base deste ofício impossível, está a escrita, a qualidade do estilo, a criatividade narrativa. O que nos seduz nos seus textos – hoje reunidos em livros como A guerra do futebol, Imperador, Sha, Império ou Ébano – é essa sua capacidade de dar a entender ao leitor toda uma complicada situação política, num país longínquo, mediante a descrição das suas experiências pessoais, em situações quase banais. A sua capacidade de sugestão é tal que cenas que não parecem ter uma relação directa com a problemática política acabam sendo bem mais úteis ao leitor porque o ajudam a compreender a atmosfera de uma crise.

 

Há uma cena genial, neste sentido, no seu livro Ébano. O jornalista encontra­‑se numa capital de África ocidental onde se estão a produzir desordens. E em vez de narrar, como qualquer repórter, as cenas de rua dos distúrbios, começa descrevendo a sua desenvencilhada habitação num hotel miserável de um bairro popular. E o que relata, sobretudo, é o abominável calor. Um calor pegajoso, húmido, que transforma cada gesto em insuportável esforço. E fala­‑nos dos seus vizinhos de habitação, do proprietário do hotel, das aldrabices em que estão metidos alguns dos clientes... E assim, pouco a pouco, sem que nos dêmos conta, vai surgindo todo um quadro social, feito de pobreza, de corrupção, de fastio. Em definitivo, o pano de fundo da revolta. Sem a visão do qual não podemos entender o que se passa.

 

No seu discurso académico, Ryszard Kapuscinski demonstrou que esse não é um exercício em que pode brilhar. Escolheu um tema abstracto – O encontro com o outro – que não é o que melhor se lhe adapta, para afirmar algo que ninguém com um mínimo de sentido comum contradiz: que há que ser acolhedor e compreensivo com o forasteiro... Nunca calha mal recordar esses princípios, sobretudo em épocas como a nossa em que ressurge a xenofobia, mas faltou chispa ao discurso, capacidade de surpresa, em suma, imaginação. O que demonstra que a singularidade jornalística não se traduz de modo fácil quando se muda de género. E a retórica universitária, moldada por séculos de formalismo, pouco tem em comum com as audácias da reportagem de imprensa escrita, que é o que, como ninguém, sabe fazer Kapuscinski.

 

No seu elogio dos méritos do investido, o decano Miquel Tresseras recordou que o jornalista polaco tinha coberto «vinte e sete revoluções numa dúzia de países». Talvez outros repórteres o tenham feito também, mas o que se pode afirmar é que só Ryszard Kapuscinski elevou a reportagem à categoria de obra de arte.