Informação Alternativa

Médio Oriente

20/07/2005

 

Sair de Gaza

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

 

Não vai ser fácil ao primeiro-ministro israelita, Ariel Sharon, conseguir que os colonos judeus se retirem sem violência de Gaza em meados de Agosto. E o recente e odioso atentado anti-judaico de Netanya não lhe facilita as coisas. Apesar das indemnizações consideráveis votadas pelo Parlamento de Israel para cada família de colonos em compensação pelo desagravo, e da garantia de dispor de alojamento nas suas novas localizações, muitos colonos – apoiados por extremistas vindos do exterior – estão dispostos a vender cara a sua expulsão.

 

Sharon tomou essa decisão ao comprovar que a repressão mais violenta não bastava para reduzir a resistência dos palestinianos. A morte de Arafat favoreceu uma mudança de atmosfera política na região, e a eleição de Mahmud Abbas, o novo presidente da Autoridade Palestina, consolidou um contexto favorável à negociação. De qualquer forma, as coisas não podiam continuar como seguiam. A segunda intifada tinha começado no dia 28 de Setembro de 2000, e o número de vítimas tinha ultrapassado, no final de 2004, a barreira dos 4.000 mortos (1.008 israelitas e 3.344 palestinianos). Sem contar a dezena de milhares de feridos em ambos os campos, inválidos para a vida em muitos casos.

 

Em circunstâncias dramáticas, Sharon teve de recordar as palavras pronunciadas por Isaac Rabin antes de cair sob as balas de um judeu fanático: «Nós, os soldados que voltamos do combate manchados de sangue, nós, que lutamos contra vocês, palestinianos, dizemo-vos hoje com voz forte e clara: “Basta de sangue e basta de lágrimas. Basta!”».

 

A espiral de violência parecia não ter fim. E o choque planetário do 11 de Setembro de 2001 não interrompeu o ciclo de vinganças e represálias. Antes bem pareceu relançá-lo, sobretudo depois da operação Muro de Contenção, lançada em Março e Abril de 2002 pelo exército israelita, depois de uns atentados palestinos particularmente cruéis, e que se caracterizou pela destruição de uma parte da cidade cisjordana de Jenine.

 

Barbárie quotidiana. Com apelos dos fanáticos de ambos os campos à limpeza étnica ou à segregação das populações. Regresso ao desespero dos civis palestinianos, cujas condições de vida se tornaram infernais devido aos sucessivos bloqueios das cidades. E o regresso da inquietude e do medo no seio da sociedade israelita que, traumatizada e martirizada, continuava a ser maioritariamente partidária de um acordo de paz.

 

Em Gaza, um milhão de palestinianos vivem amontoados em condições de miséria indescritíveis, enquanto uns seis mil colonos judeus, protegidos por soldados armados até aos dentes, ocupam um terço do território, constituído pelas terras melhor regadas. Convém dizer que esta atitude colonial e repressiva das autoridades repugna a numerosos cidadãos israelitas. Porque este singular Estado não se parece a nenhum outro. O de Israel surge do anti-semitismo europeu, dos pogromos russos e do genocídio nazi. Constitui o porto e o refúgio a que se acolheram milhões de perseguidos e discriminados em procura de um espaço de paz e liberdade. Por conseguinte, para todos eles, e em particular para os sobreviventes dos campos de extermínio, Israel não é só um projecto nacional, mas também moral. E esse projecto moral não quadra com a repressão constante de populações civis. A retirada de Gaza é um passo para o reconhecimento da plena soberania palestina. Ficam Cisjordânia e Jerusalém Este. Por desgraça, a paz ainda não é para manhã.