|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
13/07/2005 Ignacio Ramonet Chego a Roma no dia seguinte
aos odiosos atentados de Londres. Em todas as ruas já há grandes cartazes que
proclamam: «Todos somos londrinos», «Sim à democracia, não ao terror». Tenho
hora marcada com o prefeito, Walter Veltroni, para precisar detalhes sobre um
ciclo de conferências que, sobre o tema “As novas vias alternativas”, vamos
organizar em comum em Fevereiro do próximo ano. Nele participarão alguns dos
principais intelectuais do planeta altermundialista, como Arundhati Roy,
Angela Davis, Toni Negri, Howard Zinn, João Stedile e Aminata Traoré. O encontro é no seu gabinete
da prefeitura de Roma, situada na colina do Capitólio, de onde se domina o imenso
campo de ruínas do antigo Foro romano com a impressionante massa do Coliseu
ao fundo. Veltroni chega tarde porque se prolongou uma reunião de urgência
sobre a segurança depois dos atentados de Londres na qual participaram todos
os responsáveis dos serviços de protecção. «Todos tememos – diz‑nos – que
depois de Nova York, Madrid e Londres, Roma se encontre à cabeça da lista dos
próximos objetivos dos terroristas. Ainda que não tenhamos nenhum indício,
devemos tomar medidas como se tivéssemos a certeza de que o atentado se vai
produzir. Muitos especialistas dizem‑nos agora o que alguns britânicos
afirmavam antes dos atentados de 7 de Julho: o problema não consiste em
perguntar se haverá um atentado, mas quando se produzirá. Muitos especialistas
estimam que é inevitável. Estamos a fazer todo o possível para que isso não
ocorra. Mas Roma é uma cidade que apresenta muitos objetivos simbólicos. E
também atrai não só massas de turistas, mas dezenas de milhares de
peregrinos...». Conversamos sobre os motivos
que podem conduzir alguns exaltados a cometer semelhantes crimes contra
pessoas inocentes. Coincidimos em que nenhuma causa, por justa que seja,
justifica essas barbaridades. No entanto, nesse mesmo dia, no diário romano Il
Manifesto, e em primeiro plano, o jornalista e cineasta britânico John
Pilger publica um artigo intitulado “As bombas de Blair” que arranca desta
maneira: «As bombas que causaram morte e destruição em Londres começaram a
chegar no dia em que Tony Blair se uniu a George Bush para a sangrenta
invasão e ocupação do Iraque» [1]. Pilger dá informações
pavorosas dos crimes cometidos contra a população civil pelas tropas
ocupantes no Iraque. Informações que testemunhas directas apresentaram no
Tribunal Mundial sobre o Iraque que se celebrou há uns dias em Istambul
(Turquia) e de que a imprensa internacional quase não fez menção. Nesse
tribunal, o repórter independente Dahr Jamail, libanês nacionalizado estado‑unidense,
contou o que viu indo a lugares onde não têm estado nunca os repórteres
ocidentais. E o que viu é horrível: milhares de iraquianos torturados nas
prisões, gente raptada em operações policiais de rua e submetida a tortura só
para ver se algum sabe algo.... A este propósito, em Roma, no
Palazzo Venezia, pode-se ver até ao dia 25 de Setembro uma impressionante
exposição‑denúncia do grande pintor colombiano Botero intitulada “Abu
Ghraib” na qual, com génio e coragem, o artista protesto contra as torturas
que, em nome de valores democráticos!, se aplicam aos presos iraquianos [2]. Tanta crueldade produz uma imensa fábrica de rancor e de ódio. De onde estão a sair, afirma John Pilger, novas ninhadas de terroristas dispostos a semear por sua vez, nas capitais ocidentais, dor, morte e destruição. __________ [1] John Pilger, Para que não esqueçamos: Estas foram “bombas de Blair”, 11/07/2005 (n. IA). [2] Ver Botero pinta o horror de Abu Ghraib,
Revista Diners, Abril 2005 (n. IA). |