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Junho 2005 Ignacio Ramonet Mais uma vez, ao dizer “não” de maneira retumbante, no último dia 29
de Maio, ao projecto de tratado constitucional para a Europa, a França
rebelde honrou a sua tradição de “nação política por excelência”. Ela sacudiu
o Velho Continente, suscitando novamente a esperança dos povos e a
inquietação das elites estabelecidas. Retomou a sua “missão histórica” ao
provar, por meio da acção audaciosa dos seus cidadãos, que é possível escapar
da fatalidade e do peso dos determinismos económicos e políticos. Efectivamente, esse “não” tem um significado central: ele marca um
freio na pretensão ultraliberal de impor, em todo o mundo e a despeito dos
cidadãos, um único modelo económico – aquele definido pelo dogma da
globalização. Em meados da década de 1990, esse modelo já havia suscitado diversas
resistências. Por exemplo, durante o grande movimento social de Novembro de
1995 na França. Ou também em Seattle (1989), onde nasceu o que passou a ser
denominado depois – sobretudo após o I Fórum Social Mundial de Porto Alegre
(2001), seguido dos acontecimentos de Génova (2001) – “movimento
altermundialista”. E em diversos países, da Argentina à Índia, passando pelo
Brasil. Mas é a primeira vez que, num país do Norte e no âmbito de uma
consulta política institucional, uma sociedade tem a oportunidade de dizer
oficialmente “não” à globalização ultraliberal. Os editorialistas dos media dominantes, tais como entomologistas
debruçados sobre um insecto que acreditavam ter desaparecido, tentam
desfigurar o “não” maciço da França. Tendo na sua maioria feito uma campanha
unilateral pelo “sim”, alegando o “populismo”, a “demagogia”, a “xenofobia”,
o “masoquismo” etc. dos seus adversários, eles revelam‑se incapazes de
adaptar as suas análises à amplitude da sua derrota. Extraordinária
suficiência de notáveis que não compreendem – e muito menos suportam – que o
povo (palavra que só utilizam tapando o nariz) tenha recusado seguir as
prescrições do “círculo da razão” europeísta. Pois foi exactamente o povo que
retomou o caminho das urnas: apenas 30% de abstenções em comparação com os
57% há exactamente um ano por ocasião das eleições do Parlamento europeu. Essa mobilização, especialmente das categorias populares e também
entre os jovens, sobre um tema árido – um texto de 448 artigos, sem contar os
anexos, declarações e protocolos – constitui por si só um sucesso inesperado
para a democracia. O povo deu a sua grande guinada: diante do sentimento de
privação, expressou‑se a sua vontade de reapropriação. Desde o início em 1958, e sobretudo desde o Acto Único Europeu de
1986, a construção da comunidade exerceu uma pressão crescente sobre todas as
decisões nacionais. O Tratado de Maastricht (1992), em seguida o Pacto dito
de Estabilidade e de Crescimento (1997) retirou dos governos duas das maiores
alavancas da acção pública: a política monetária e a política orçamentária. A
terceira, a política fiscal, é cada vez menos autónoma, pois inscreve‑se
numa lógica generalizada de “concorrência livre e não falseada”. Os cidadãos compreenderam que o tratado submetido à sua aprovação
“constitucionalizava”, em escala europeia, a concorrência exacerbada não só
entre os produtores de bens e serviços, mas também entre sistemas sociais
abocanhados por uma espiral descendente. Sem dúvida, não seriam os
pouquíssimos “avanços” democráticos do tratado que poderiam compensar o
bloqueio induzido pelo modelo ultraliberal, esvaziando assim de sentido as
futuras consultas eleitorais. O voto “não” foi um voto extremamente esclarecido por milhares de
encontros, debates e leituras, tendo as obras sobre a Constituição figurado
durante meses entre os livros mais vendidos. Diante da propaganda ora do governo,
ora pela maior parte dos media, os cidadãos quiseram ter a sua própria
opinião. Foram ajudados pelo trabalho de formiga realizado na área por
múltiplos colectivos que espontaneamente se constituíram em toda a França,
particularmente os comités locais da ATTAC. Essa grande mobilização honra a
democracia... Esse voto foi nacionalista? Não, na sua maioria, ele foi pró-europeu.
Não se enganaram todos esses sindicalistas e militantes associativos de
muitos países da União Europeia que, seja por eles próprios, seja pela sua
participação na campanha em França, manifestaram a sua solidariedade com a aspiração
a uma outra Europa conduzida pelas forças vivas do “não”. Privados de
referendo, muitos europeus pediram aos franceses para emitir em seu nome um
voto por procuração! No estrangeiro, alguns interpretaram esse “não” como um
enfraquecimento da Europa em relação aos Estados Unidos, algo que deixa a
grande potência norte-americana sem contrapeso. Estão enganados: a
Constituição teria submetido ainda mais a União (particularmente no plano
militar) a Washington. Uma nova situação foi criada, permitindo uma reavaliação detalhada
dos valores e das regras da vontade de viver em comunidade na Europa. Essa
vontade de viver poderia apenas reduzir ao seu grau zero a liberdade de
circulação dos capitais, dos bens, dos serviços e até mesmo das pessoas.
Desse ponto de vista, o “não” do dia 29 de Maio não fecha nenhuma porta. Ao
contrário, ele permite todas as esperanças. |