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19/06/2005 Ignacio Ramonet No domingo há eleições na Bulgária. Todos os prognósticos indicam que
as ganhará o partido socialista (ex‑comunista), agora na oposição. A
consequência é que, a menos que surja uma coligação nova, ex-rei Simeão de
Saxe-Cobourg-Gotha, actual primeiro‑ministro, deverá abandonar o seu
cargo. Para conversar sobre isto recebeu‑me, na sua residência de Sófia,
o presidente Gueorgui Parvanov. É um homem jovem, de 48 anos, historiador de
formação, antigo membro do partido comunista (hoje, partido socialista),
eleito em Novembro de 2001 e que goza de uma popularidade muito grande. Na
Bulgária, o presidente não governa, é uma autoridade moral cuja missão
consiste em situar-se acima das polémicas para se preocupar com o bem-estar
dos cidadãos e o destino da nação. Prevista para durar uns 30 minutos, a entrevista prolongou‑se
mais de hora e meia. Fiz ao mesmo tempo de entrevistador e de entrevistado. O
presidente Parvanov começou por perguntar‑me as razões do “não” francês
ao referendo. Aqui, este “não” causou pânico. A Bulgária é candidata a
integrar a União Europeia em 2007 e teme‑se que isso adie a sua
integração. Parvanov, como os editorialistas da imprensa búlgara, interpreta
o “não” francês como uma manifestação de desconfiança para com os novos
membros do Leste, não desprovida de egoísmo nacional e de certa xenofobia.
Disse-lhe que esta análise é a que fizeram os perdedores na própria França,
os quais continuam sem querer entender que o que manifestaram os franceses
não tem nada a ver com a xenofobia, trata-se de uma rejeição do modelo
neoliberal da globalização. Indiquei-lhe os detalhes do escrutínio que confirmam esta vontade de
parar os pés à globalização. E recordei‑lhe que a palavra “Bulgária”
não se pronunciou uma só vez ao longo da campanha. Que não há que ser
paranóico. Repiti-lhe o meu sentimento de que tanto a Bulgária como a Roménia
integrarão a União em 2007 se cumprirem todos os requisitos reclamados (em
particular em matéria de reforma do sistema judicial demasiado condescendente
com as máfias ligadas à prostituição). Senão terão de esperar por 2008. Mas
não creio que se atrase sine die a adesão da Bulgária. Nesta instável região
dos Balcãs, este país é um elemento moderador. Parvanov acabava de regressar da Líbia. Uma viagem que os meios de
comunicação seguiram aqui com paixão. Porque o que interessa a sério neste
momento aos búlgaros é o destino de cinco enfermeiras condenadas à morte na
Líbia, acusadas de ter inoculado o vírus da SIDA em centenas de crianças, das
quais várias dezenas morreram. Pedi-lhe que me falasse do seu encontro com o coronel Kadhafi.
Parvanov disse‑me: «O homem com o qual estive a conversar durante
muitas horas não tem nada a ver com a personagem bastante estravagante que a
imprensa, em geral, apresenta. É um dirigente ponderado, reflexivo, que me surpreendeu
pela profundidade do seu pensamento». Perguntei‑lhe se acredita que as
cinco enfermeiras poderão eludir a execução. Respondeu: «Pensamos primeiro
nas vítimas e nos seus pais. A culpa tem‑na a falta de higiene nos
hospitais líbios. O julgamento não se fez em condições de serenidade: as
enfermeiras são inocentes, e contamos com todo o apoio da União Europeia. A Líbia,
que deseja integrar com plenitude a comunidade internacional, tem que rever
esse julgamento e admitir que se cometeu uma injustiça com as enfermeiras». Tudo indica que se vai nessa direcção, o Tribunal Supremo da Líbia já
decidiu analisar as condições do julgamento. E opinará no próximo Outono.
Toda a Bulgária espera que as enfermeiras se salvem. |