Informação Alternativa

Ásia

14/06/2005

 

O perigo Coreia

 

Ignacio Ramonet

Radio Chango

 

Chama-se Dongyoung Chung e é ministro da unificação no governo da Coreia do Sul. É um homem aprumado. Durante algum tempo apresentou um programa muito popular de televisão. E diz­‑se que será o próximo presidente do país quando acabe, em 2008, o mandato do actual, Moohyun Roh. Recebeu­‑me, com meu intérprete Eunmi Cho, no seu escritório situado no centro de Seul, mega urbe com mais de vinte milhões de habitantes.

 

Dongyoung Chung regressa da Coreia do Norte num momento em que as tensões entre o regime de Pyongyang e a administração Bush dos Estados Unidos atingem um nível perigoso de intensidade. A Coreia do Norte retirou­‑se do Tratado de Não proliferação Nuclear (TNT), declara possuir «duas ou três» bombas atómicas e afirma estar a fabricar outras tantas armas nucleares. Pretende que, dessa maneira, pratica uma dissuasão que lhe evita o ataque dos Estados Unidos e um destino semelhante ao do regime de Saddam Hussein no Iraque. Para protestar contra a agressividade dos “falcões” estado­‑unidenses, Pyongyang retirou­‑se desde há um ano do “grupo dos seis” (Coreia do Sul, Coreia do Norte, Japão, China, Estados Unidos, Rússia), marco em que se desenvolviam, desde 2003, as negociações de desarmamento.

 

Pergunto ao ministro Dongyoung Chung se pensa que o Tratado de Não-proliferação Nuclear está caduco. «Desde há 35 anos – responde­‑me – o TNT foi positivo, mas existe um cartel das grandes potências que querem limitar o acesso de outros países ao conhecimento da tecnologia nuclear, tão indispensável para o futuro sobretudo na perspectiva do fim do petróleo. Estas grandes potências exigem um grande sacrifício dos países mais pequenos e não ouvem as suas demandas de acesso à energia nuclear. Em alguns casos, como no Irão, até lhes negam a possibilidade de aceder à energia nuclear civil. Enquanto noutros casos se aceita que países como Israel ou Paquistão se dotem da arma nuclear. Isso cria desordem e desobediência».

 

Pergunto-lhe se a melhoria das relações com a Coreia do Norte, sobretudo depois da visita do presidente Moohyun Rooh à capital norte­‑coreana e do seu encontro histórico com o dirigente Kim Jong Il, pode facilitar as coisas. «A nossa posição consiste em resolver os diferendos com Pyongyang de maneira directa em conversações entre nós os dois. Mas os norte­‑coreanos dizem que os Estados Unidos querem derrocar o seu regime e que, portanto, para eles, trata-se de uma questão de autodefesa que só pode resolver­‑se em negociações bilaterais com Washington. Nós dizemos a Washington e à administração Bush que devem concentrar-se na desnuclearização da Coreia do Norte e não devem procurar derrocar o regime».

 

Existe a sério um alto risco nuclear? «Sem dúvida alguma», responde-me o ministro. «Mas a nossa sociedade está a viver com muita serenidade a crise actual. Em 1994, quando vivemos a primeira ameaça nuclear da Coreia do Norte, a Bolsa de Seul caiu 30%! No entanto, desta vez, apesar da gravidade superior da ameaça, a Bolsa não se moveu. Prova de que os nossos cidadãos consideram que as boas relações entre Seul e Pyongyang são sólidas e constituem uma garantia de segurança. A nossa convicção é que há que baixar o risco nuclear mediante o diálogo e a política. Sem recorrer às armas. Nós apostamos na diplomacia. Washington deve restabelecer o contacto com Pyongyang e garantir aos norte­­‑coreanos um nível de vida decente mediante ajuda alimentícia e económica. Todo o mundo sairia a ganhar».

 

Como que ouvindo os desejos do ministro Dongyoung Chung, a Coreia do Norte anunciou no passado dia 8 de Junho o seu desejo de voltar à mesa de negociações no marco do “grupo dos seis”. Reduz­‑se assim o perigo Coreia.