Informação Alternativa

Médio Oriente

05/06/2005

 

Silenciar um jornalista

 

Ignacio Ramonet

Radio Chango

 

Em Beirute, a sua terra natal, mataram o meu amigo Samir Kassir. Era o melhor jornalista do Líbano, o mais corajoso, o mais audaz, o mais atrevido. Por isso mesmo o executaram na quinta-feira passada. Uma bomba sob o assento do seu carro. Morto no instante. Amordaçado para sempre. O “açoite dos sírios”, chamavam-lhe. Porque não cessava de reclamar a independência verdadeira do seu país. Porque continuava a exigir toda a verdade sobre o assassinato de Rafiq Hariri, o ex-primeiro assassinado em circunstâncias análogas em 14 de Fevereiro passado. E porque Samir Kassir tinha sido um dos motores da revolução democrática que lançou centenas de milhares de libaneses à rua e conseguiu que os sírios se retirassem em finais de Abril depois de 29 anos de ocupação do país do cedro.

 

A última vez que o vi foi durante uma das minhas visitas a Beirute. Como sempre, serviu-me de anfitrião, mostrou­‑me com orgulho a sua cidade que tanto amava (tinha escrito uma deliciosa e indispensável História de Beirute) e que tinha conseguido renascer do desastre da longa guerra civil. Sentados nas ensolaradas sacadas da magnífica corniche, embriagados pelo perfume do Mediterrâneo, falamos longas horas do destino do Líbano e do Próximo Oriente. Samir era um dos melhores conhecedores destes labirínticos temas. Filho de uma refugiada palestiniana expulsa de Israel em 1948 e de um pai sírio, tinha nascido em Beirute no seio de uma família cristã de rito grego ortodoxo. Reunia na sua própria pessoa e na sua própria biografia algumas das principais dimensões do drama árabe contemporâneo.

 

Eu conheci­‑o em Paris, nos anos 80, quando preparava o seu doutoramento em Ciências Políticas e escrevia a sua tese sobre a guerra civil do Líbano que ainda não tinha terminado. Tinha então pouco mais de vinte anos mas notava­‑se que o drama do seu país tinha­‑o feito amadurecer antes de tempo, e encontrava­‑se já muito possuído pelo sentimento trágico da vida. Conversar com ele e ler as suas análises sobre o Oriente Próximo era já então um modo de entender muito melhor a complexidade de uma situação que poucos conseguiam explicar com racionalidade.

 

Ao terminar a guerra, Samir regressou a Beirute, publicou vários livros (Itinerários de Paris a Jerusalém, Considerações sobre o infortúnio árabe), começou a dar aulas no prestigioso Instituto de Ciências Políticas da universidade de Saint-Joseph e começou a escrever os editoriais de sexta-feira do diário Na­­­‑Nahar, o de maior circulação do Líbano. Em pouco tempo, os seus ferozes escritos valeram­‑lhe, pela sua liberdade de tom e pela sua independência, uma imensa popularidade entre todos aqueles que já não suportavam o peso da ocupação militar e policial da Síria. Várias vezes tentaram intimidá-lo, retiraram-lhe o passaporte, ameaçaram­­­‑no de morte tratando­‑o de «agente de influência da Autoridade Palestina». Não conseguiram amedrontá­‑lo.

 

Recordemos que 53 jornalistas morreram no exercício da sua missão em 2004 e mais de 20 no que vai do ano 2005. De todos eles, 26 encontraram a morte no Iraque, o maior cemitério de jornalistas depois da Argélia e da Colômbia. Samir Kassir era dessa raça de jornalistas que ainda acreditam na virtude da liberdade de expressão, e que estão dispostos a usar dessa liberdade, fundamento da democracia, até às suas últimas consequências. A sua morte, o seu sacrifício confirmam que a palavra livre continua a ser, em muitas partes do mundo, a arma mais temida e a mais odiada. Porque é a mais eficaz também contra as opressões.