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01/06/2005 Ignacio Ramonet No avião que me leva à Coreia do Sul – um país que se projectou a
vertiginosa velocidade, e em muito pouco tempo, para um futuro de ficção
científica – releio, porque me parece oportuno, o grande clássico de Aldous
Huxley, Admirável mundo novo. Mas pergunto‑me: é conveniente
reler Admirável mundo novo hoje? Será talvez necessário retomar um
livro publicado em 1932, há mais de 70 anos, numa época tão afastada de nós
que inclusive a televisão ainda não tinha sido inventada? Será esta novela
algo mais do que uma curiosidade sociológica, um best seller ordinário
e efémero, do qual se venderam no ano da sua publicação, em inglês, mais de
um milhão de exemplares? Estas questões parecem‑me tanto mais pertinentes quanto o género
a que pertence a obra – a fábula de antecipação, a utopia científico-técnica,
a ficção científica social – possui um grau muito alto de obsolescência. Nada
envelhece com maior rapidez do que o futuro. Sobretudo em literatura. Superando estas reticências, voltei a submergir nas páginas desta
novela. E fiquei estupefacto pela sua surpreendente actualidade. Constatando
que, por uma vez, o passado prendeu o presente. Recordamos que Huxley narra
uma história que se desenvolve num futuro muito longínquo, no ano 2500, ou,
com maior precisão, «no ano 600 da era fordiana», homenagem satírica a Henry
Ford (1863-1947), pioneiro estado‑unidense da indústria automobilística
(de quem uma célebre marca de carros leva ainda o seu nome), inventor de um
método de organização do trabalho para a construção em série, e da
estandardização das peças. Método que transformou os trabalhadores em pouco
menos do que autómatos ou em robôs que repetem ao longo da jornada o mesmo
gesto. O que suscitou violentas críticas. Pensemos, por exemplo, nos filmes Metrópolis
(1926) de Fritz Lang ou Tempos modernos (1935) de Charles Chaplin. Aldous Huxley escreveu esta visão pessimista do porvir e esta crítica
feroz do culto positivista à ciência num momento em que as consequências
sociais da grande crise de 1929 afectavam em cheio as sociedades ocidentais,
e em que a credibilidade dos regimes democráticos capitalistas parecia
vacilar. Antes da chegada de Adolf Hitler ao poder, em 1933, Admirável
mundo novo denúncia a perspectiva de pesadelo de uma sociedade
totalitária fascinada pelo progresso científico e convicta de poder oferecer
uma felicidade obrigatória aos seus cidadãos. Apresenta uma visão alucinada
de uma humanidade desumanizada pelo condicionamento de Pavlov e pelo prazer
trazido por uma pílula euforizante (o soma). Nesse mundo “perfeito”, a
sociedade dissociou por completo, com fins eugénicos e produtivistas, a
sexualidade da procriação. Nesta novela, como já quase no nosso mundo de hoje, a americanização
do planeta terminou. Tudo foi estandardizado e fordizado, tanto a produção de
seres humanos, resultado de puras manipulações genético-químicas, como a
identidade das pessoas, produzida durante o sonho por hipnose auditiva, a
hipnopedia, que um personagem do livro chama «a maior força socializadora e
moralizadora de todos os tempos». Nesta novela, que é antes de mais nada um manifesto humanista, alguns
viram – de modo acertado – uma crítica vitriólica à sociedade estalinista.
Mas quando uma pessoa passeia por este planeta globalizado, também pode ver
uma sátira muito pertinente da nova sociedade delirante que se está a construir
hoje em dia em nome da modernidade neoliberal. |