Informação Alternativa

União Europeia

25/05/2005

 

Referendo em França

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

 

No próximo domingo, 29 de maio, os franceses pronunciar­‑se­‑ão sobre o projecto de Constituição para a Europa. Como o fez a Espanha no passado dia 20 de fevereiro, trata­‑se de um referendo. É o décimo que se organiza em França desde que se fundou a V República em 1958. Os votantes estão convidados a responder pelo “sim” ou pelo “não” a uma única pergunta: «Aprova o projecto de lei que autoriza a ratificação do tratado que estabelece uma Constituição para a Europa?».

 

Em caso de maioria positiva, França ratificará o tratado e este poderia entrar em vigor em 1 de novembro do 2006 se todos os demais países o ratificarem. Efectivamente, a entrada em vigor do projecto de Constituição requer a unanimidade dos 25 membros. Em caso de vitória dos apoiantes do “não”, a França não poderia ratificar o tratado.

 

Está estabelecido que se um só dos Estados membros, qualquer que seja, se nega a ratificar o projecto de Constituição, este fracassa. Os tratados que regem a União Europeia e a Comunidade Europeia manter­‑se­‑iam em vigor, mas na sua versão definida no Tratado de Nice. Uma declaração adjunta (artigo 30) ao tratado constitucional prevê, no entanto, que, se daqui a 29 de outubro de 2006, só quatro quintos (isto é, 20 em 25) dos Estados membros adoptarem o projecto de Constituição, «o Conselho Europeu [ou seja, os 25 chefes de Estado e de governo] reúne­‑se para estudar o problema». Mas ninguém sabe como se resolveria...

 

A incerteza é grande, e as sondagens de opinião em França continuam a indicar que a percentagem de apoiantes do “não” é muito elevada e mantém­‑se, com alguns altos e baixos, em torno dos 50%. Uma vitória dos adversários do tratado não constituiria nenhuma surpresa. É óbvio que a vitória do “não” em França provocaria, em toda a Europa, um sismo político. Porque a França é um dos seis primeiros fundadores da União Europeia, e porque – juntamente com a Alemanha, o Reino Unido e a Itália –, é um dos seus quatro “pesos pesados”. Além disso, ocupa um lugar pivot na geografia europeia (tem fronteiras, terrestres ou marítimas, com nada menos do que seis membros da União) e a sua exclusão do jogo significaria um traumatismo para os Estados que o rodeiam, em particular para aqueles, como Portugal e Espanha, que devem passar de modo obrigatório pelo seu território.

 

Depois do de França, ficarão ainda por realizar outros oito referendos na Europa: na Holanda, na República Checa, na Dinamarca, no Luxemburgo, na Polónia, em Portugal, na Irlanda e no Reino Unido (os restantes países ratificá­‑lo­‑ão por via parlamentar, como já o fizeram a Lituânia, a Grécia, a Hungria, a Itália, a Alemanha, a Áustria e a Eslovénia). É óbvio que uma vitória do “não” em França terá uma influência nos referendos seguintes, em particular no dos Países Baixos, que se leva a cabo três dias depois, na quarta­‑feira 1 de junho. Tendo em conta, ademais, que as sondagens de opinião neste país também indicam que uma vitória do “não” é possível. E não falemos do Reino Unido, onde o referendo está previsto para a primeira metade de 2006 e as sondagens assinalam, neste momento, que 86% dos britânicos estão a favor do “não”.

 

Em França, ao longo da campanha, todo o establishment (patronos, meios de comunicação, intelectuais oficiais e partidos de governo) trataram de criminalizar os apoiantes do “não”, pretendendo que a vitória destes significaria uma tragédia. Mentira. O que acontece se ganha o “não”? Pois não acontece nada. Os dirigentes da Europa sentam-se de novo em torno de uma mesa, meditam sobre a rejeição popular ao seu projecto tecnocrático e ultraliberal. E propõem­‑nos por fim outra Constituição mais social e menos favorável ao poder do dinheiro.