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Maio 2005 Ignacio Ramonet Le
Monde diplomatique – edição espanhola Há 60 anos, em 8 de Maio de 1945, com o derrube do III Reich alemão, terminava a II Guerra Mundial na Europa. Prosseguiria na Ásia até 2 de Setembro de 1945, quando, sobre a ponte do couraçado estado‑unidense Missouri, os representantes do Japão, esmagados pelas primeiras bombas atómicas, assinaram a rendição do seu país. É necessário continuar a falar deste conflito, num momento em que o grande coro dos meios de comunicação nos assesta, por ocasião das múltiplas cerimónias comemorativas [1] – o desembarque da Normandia, a libertação de Paris, o resgate de Auschwitz e depois de Buchenwald, a queda de Berlim –, imagens pletóricas e comentários intermináveis sobre os seus principais episódios? A resposta é sim. Por uma razão simples: o próprio cerimonial das comemorações enterra e afoga o sentido do acontecimento. O paradoxo é que os meios de comunicação recordam... para fazer esquecer melhor. O historiador Eric Hobsbawn pôs‑nos em guarda: «Hoje» – afirma – «a história é mais do que nunca revista ou mesmo inventada por pessoas que não desejam conhecer o verdadeiro passado, mas somente um passado que esteja de acordo com os seus interesses. A nossa época é a época da grande mitologia histórica» [2]. À medida que o tempo nos afasta dos factos, as testemunhas directas desaparecem e os ensinamentos obtidos a quente dos acontecimentos desbotam‑se e confundem‑se. E os grandes meios de comunicação, que não têm o rigor dos historiadores, reconstroem, segundo as modas, um passado que muitas vezes está determinado, corrigido, rectificado... pelo presente. Um passado expurgado, depurado, lavado de tudo o que poderia, hoje, gerar desordem. Neste sentido – e este é outro paradoxo – há poucas diferenças entre esta nova “história oficial” e a censura do Estado nos países não democráticos. Em ambos os casos, o que recebem as jovens gerações é esse passado revisto. Devemos rebelar-nos contra tal distorção da história. A II Guerra Mundial foi o momento central do século XX. Um dos acontecimentos mais violentos e mais destacados da história da humanidade. Em primeiro lugar pela sua desmesura, a sua amplitude sem par. Com a extensão e a intensificação progressiva do conflito, o campo de batalha estendeu‑se a todo o planeta e afectou todos os continentes, salvo a Antárctida. Em 1945, quase todos os Estados independentes se encontravam implicados na guerra. As grandes potências imperiais tinham arrastado para o confronto, a bem ou a mal, as suas colónias de África e da Ásia. E todos os países da América Latina se tinham comprometido a favor da causa aliada [3]; o Brasil chegou inclusive a constituir um corpo expedicionário que combateu em Itália. No momento da queda do Reich hitleriano, só nove Estados do mundo (Afeganistão, Dinamarca, Espanha, Irlanda, Mongólia, Nepal, Portugal, Suécia e Suíça) continuavam a ser oficialmente neutrais. A quantidade de soldados mobilizados superou tudo o que se tinha conhecido anteriormente. Enquanto na Ásia os japoneses prosseguiam uma guerra sem fim para se apossarem da China, a Alemanha mobilizou em 1939 3 milhões de soldados da Wehrmacht para ocupar a Polónia. E cedo iria alistar 6 milhões para empreender uma “guerra preventiva” contra a União Soviética, que por sua vez iria opor forças que superavam os 11,5 milhões de homens... E, quando os Estados Unidos entraram na guerra, depois de terem sido vítimas de um “ataque preventivo” dos japoneses em Pearl Harbour em 7 de Dezembro de 1941 , mobilizou não menos de 12 milhões de soldados... Esta guerra planetária foi também uma “guerra total”, que se caracterizou pela extensão da “zona de destruição” muito além do campo de batalha propriamente dito. As populações civis de toda a Europa, da Rússia ocidental e da Ásia oriental sofreram operações militares, as consequências da proximidade com as diversas frentes, batidas e registos, e repressões e bombardeios sistemáticos. Sem falar das perseguições e massacres por motivos ideológicos ou por causa de políticas raciais das quais foram vítimas milhões de civis (em particular os judeus europeus, os ciganos, os chineses e os coreanos) por parte dos Estados do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), sobretudo na Europa oriental e na China. O custo em vidas humanas foi o mais elevado da história. Estima-se a quantidade total de mortos em redor de 50 milhões. O balanço foi mais desfavorável na Europa do que na Ásia, e muito mais no leste europeu do que no oeste. O exército soviético – o Exército Vermelho – perdeu por si só uns 14 milhões de homens: 11 milhões nos campos de batalha (dos quais 2 milhões nas frentes do Extremo Oriente) e 3 milhões nos campos alemães de prisioneiros... Algumas grandes batalhas como Estalinegrado (Setembro de 1942-Fevereiro de 1943), o desembarque da Normandia (Junho de 1944) ou a tomada de Berlim (20 de Abril-8 de Maio de 1945) resultaram ser mais mortíferas do que os piores confrontos da I Guerra Mundial. Entre os Aliados, o total de mortos em combate foi de 300.000 estado‑unidenses, 250.000 britânicos e 200.000 franceses. O Japão perdeu um milhão e meio de combatentes. Mas uma das principais causas de perdas de vidas humanas foi o confronto, no Leste da Europa, entre a Wehrmacht e o Exército Vermelho, que terminou com a morte de pelo menos 11 milhões de soldados de ambos os campos e produziu mais de 25 milhões de feridos... Pela primeira vez no curso de uma guerra, a quantidade de vítimas civis superou em muito a dos militares mortos em combate. Além disso, os civis foram frequentemente vítimas de atrocidades cometidas para aterrorizar o adversário. Desta maneira, na Ásia, o Japão, que tinha invadido o norte da China desde 1937 e ocupado Pequim, lançou o seu exército sobre Nanquim, onde tinha a sua sede o governo chinês, que decidiu resistir. Uma vez tomada Nanquim, o exército japonês entregou‑se a um verdadeiro massacre. Os 200.000 chineses que se encontravam ainda na cidade foram todos executados em condições atrozes. As mulheres foram selvagenmente violadas, os homens e crianças enterrados vivos ou torturados segundo directivas precisas. A cidade foi saqueada e depois queimada completamente. O príncipe Asakasa, primeiro responsável desta carnificina, nunca foi importunado depois da guerra. Ainda hoje alguns manuais escolares japoneses minimizam este crime. O que – com razão – põe furiosos os chineses e coreanos, como pôde ver‑se no passado mês de Abril em Pequim durante as grandes manifestações anti‑japonesas. Contrariamente à Alemanha, o Japão nunca reconheceu de maneira convincente os seus abomináveis crimes de guerra contra os civis chineses e coreanos. Em todos os lugares, a fome dizimou as populações assediadas. Assim, em Leninegrado (hoje São Petersburgo), mais de 500.000 civis pereceram pelas privações entre Novembro de 1941 e Janeiro de 1944. E também houve bombardeios intensivos das cidades. Todos os beligerantes abandonaram qualquer escrúpulo em relação às grandes aglomerações indefesas. Começando pelas forças hitlerianas que, de 10 de Setembro de 1940 até 15 de Maio de 1941, multiplicaram as incursões aéreas contra as cidades inglesas (entre as quais estava Coventry) provocando mais de 50.000 mortes civis. Como muitas outras cidades, Varsóvia foi inteiramente destruída de Novembro a Dezembro de 1944 pelas tropas alemãs em retirada. Os Aliados replicaram no dia 13 de Fevereiro de 1945 com a destruição de Dresden, gerando dezenas de milhares de vítimas civis, muitas delas refugiados. Depois, nos dias 8 e 11 de Agosto de 1945, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki foram eliminadas do mapa pelos primeiros bombardeamentos atómicos da história. Também houve êxodos ou marchas forçadas que produziram inumeráveis vítimas entre os prisioneiros de guerra, os deportados e as populações deslocadas; só no ano de 1945, por exemplo, mais de dois milhões de alemães encontraram a morte enquanto fugiam a pé, para o Ocidente, ante o avanço das forças soviéticas. E houve também, e sobretudo, o crime dos crimes, o extermínio sistemático por parte dos nazis, por razões de ódio anti‑semita, de seis dos doze milhões de judeus europeus. Pelas suas dimensões apocalípticas, e pelos furacões de violência, de crueldade e de morte que desatou sobre o mundo, a II Guerra Mundial mudou profundamente não só a geopolítica internacional, mas também as mentalidades. Para as gerações que viveram essa guerra e sobreviveram às suas violências, já nada podia ser como antes. Durante este conflito, o homem afundou‑se numa espécie de abismo do mal e, de algum modo, chegou a desumanizar‑se. Muito particularmente em Auschwitz. Por isso era necessário proceder, uma vez finda a guerra, a uma regeneração, a uma reconstrução do espírito humano. Uma re‑humanização do homem. Tal como o conhecemos hoje, o mundo continua a estar fortemente modelado pelo traumatismo causado por esta guerra. Obtiveram-se alguns ensinamentos, dois especialmente: — Em primeiro lugar, que é necessário evitar a qualquer preço um conflito da mesma natureza; o que levou a comunidade internacional a constituir, a partir de 1945, um instrumento inédito: a Organização das Nações Unidas (ONU), cujo primeiro objectivo continua a ser impedir as guerras; — Em segundo lugar, que as teorias fascista e nacional‑socialista, bem como o militarismo imperial japonês, continuam a ser culpados de terem lançado o mundo para o abismo de uma guerra tão abominável; e que os regimes políticos baseados no anti‑semitismo, no ódio racial ou na discriminação constituem perigos não só para o seu próprio povo, mas também para toda a humanidade. Esta é a razão pela qual, muito naturalmente, a II Guerra Mundial foi seguida do nascimento de Israel e do grande acordar dos povos colonizados de África e da Ásia. Mas os próprios vencedores parecem ter esquecido os ensinamentos desta guerra. Assim, por exemplo, a Rússia do presidente Vladimir Putin desonra‑se com a sua repressão cega e o seu abuso da força na Chechénia. E nos Estados Unidos, a administração do presidente George W. Bush utilizou os odiosos atentados do 11 de Setembro como pretexto para questionar o estado de direito. Washington restabeleceu o princípio da “guerra preventiva” para invadir o Iraque, criou “campos de detenção” para prisioneiros despojados dos seus direitos e tolera a prática da tortura. Estes gravíssimos desvios não impedirão de modo nenhum Putin e Bush de, no dia 8 de Maio, ocupar o primeiro lugar no centro das cerimónias em recordação da derrota do III Reich. Poucos meios de comunicação se atreverão a recordar-lhes que estão a usurpar esse lugar, por terem traído os grandes ideais da vitória de 1945. __________ [1] Dominique Vidal, “Abandonar la tribo”, Le Monde diplomatique, edição espanhola, Março de 2005. [2] Hobsbawm Eric, Años Interesantes.
Una vida en el siglo XX, Editorial Crítica, Barcelona, 2003 [3] A II Guerra Mundial
enfrentou os “Aliados” (os Estados democráticos reunidos em torno dos Estados
Unidos e do Reino Unido) mais a União Soviética, com os países do Eixo
(Alemanha, Itália e Japão). |