Informação Alternativa

Mundo

02/05/2005

 

Vitória traída

 

Ignacio Ramonet

Radio Chango

 

No próximo domingo, 8 de Maio, celebra-se o sexagésimo aniversário da vitória aliada na segunda guerra mundial. O conflito terminou nesse dia na Europa. Mas prosseguiu na Ásia até 2 de Setembro quando, na coberta do couraçado Missouri, os representantes do Japão, sob os efeitos das primeiras bombas atómicas, assinaram a rendição do império nipónico.

 

A segunda guerra mundial foi o momento central do século XX. Constituiu sem dúvida uma das tragédias mais violentas da história. Em primeiro lugar pela sua amplitude nunca vista. Com a ampliação progressiva do conflito, o campo de batalha estendeu­‑se a todo o planeta, e afectou todos os continentes excepto o Antárctico. Em 1945, quase todos os Estados independentes se achavam embrenhados na guerra. As grandes potências tinham alistado no confronto as suas colónias africanas ou asiáticas. E todos os países da América Latina acabaram por declarar a guerra ao Eixo (Alemanha, Itália, Japão) e por fazer causa comum com os aliados (Estados Unidos, Reino Unido, União Soviética). O Brasil até enviou um corpo expedicionário para combater nas frentes de Itália. No dia em que caiu Berlim só nove Estados soberanos no mundo (Afeganistão, Dinamarca, Espanha, Irlanda, Mongólia, Nepal, Portugal, Suécia e Suíça) permaneciam, de modo oficial, neutros no conflito.

 

O número de soldados mobilizados atingiu uma cifra jamais vista. A Alemanha alinhou mais de seis milhões de homens (entre eles os espanhóis da Divisão Azul) para invadir a União soviética, a qual lhe opôs umas forças de mais de onze milhões de soldados. E os Estados Unidos, quando entraram no conflito depois de sofrer o “ataque preventivo” do Japão em Pearl Harbor em 7 de Dezembro de 1941, mobilizou mais de doze milhões de militares...

 

Foi uma guerra planetária mas também uma guerra total porque a “zona de morte” estendeu­‑se muito para lá do campo de batalha. As populações civis sofreram todo o tipo de repressões e bombardeios. Sem falar das perseguições por ódio racial; milhões de judeus e de ciganos foram deportados e exterminados nos abomináveis campos da morte.

 

O custo em vidas humanas foi o mais elevado da história. O número total de mortos estima­‑se nuns cinquenta milhões... O exército soviético perdeu uns catorze milhões de efectivos, onze nos campos de batalha (deles dois milhões nas frentes do Extremo Oriente) e três nos campos de concentração alemães. Algumas das batalhas mais sangrentas, como Estalinegrado (Setembro de 1942/Fevereiro de 1943), o desembarque da Normandia (Junho de 1944) ou a tomada de Berlim (20 de Abril/8 de Maio de 1945) causaram mais vítimas que os piores confrontos da Primeira Guerra Mundial.

 

Uma das principais causas de perdas em vidas humanas foi o confronto, no leste da Europa, entre a Whermacht alemã e o Exército Vermelho da URSS, que causou a morte de uns onze milhões de soldados e mais de vinte e cinco milhões de feridos... No entanto, pela primeira vez na história, o número de civis mortos numa guerra foi superior ao dos militares.

 

Pelas suas dimensões apocalípticas, a segunda guerra mundial não só mudou a geopolítica do planeta, mas até as mentalidades. O ser humano tinha caído num abismo de maldade, e de certo modo chegou a desumanizar­‑se. Em particular em Auschwitz. Por isso, no final da guerra, pensou­‑se que era preciso re­‑humanizar o ser humano.

 

Mas este projecto parece esquecido. Sobretudo quando constatamos que, no próximo domingo, os presidentes Putin da Rússia e Bush dos Estados Unidos presidirão às cerimónias da vitória. Dois dirigentes que – tanto na Chechénia como no Iraque – continuam a pisar os valores de respeito dos direitos humanos que triunfaram naquele 8 de Maio 1945.