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27/04/2005 Ignacio Ramonet No passado dia 22 de abril começou em Madrid o mega‑julgamento contra 24 supostos integrantes da rede Al Qaeda acusados de colaborar com a célula que atentou, em 11 de setembro de 2001, contra as Torres Gémeas em Nova Iorque e contra o Pentágono em Washington. Embora a maioria dos acusados não sejam espanhóis, e embora os crimes não se tenham cometido em Espanha, o Ministério de Justiça de Madrid considera que o terrorismo é uma praga universal. E que, portanto, os Estados democráticos devem combatê-lo julgando os terroristas qualquer que seja a razão do crime e qualquer que seja o país onde se cometeu. Não há “bom” terrorismo ou “mau” terrorismo. Nenhum pretexto justifica que se assassine civis não combatentes. E desde Albert Camus sabemos que matar um inocente para defender uma causa justa não é defender uma causa justa, mas matar um inocente. Assim o reconheceu a ONU na resolução 1373, aprovada depois dos atentados do 11 de setembro, que obriga os Estados membros, entre outras coisas a «não proporcionar nenhum apoio, activo ou passivo, a entidades ou pessoas que participem no cometimento de actos de terrorismo, e denegar refúgio aos que financiam, planificam ou cometem actos de terrorismo, ou prestam apoio a esses actos, ou proporcionam refúgios». Ao que parece, em Washington, o presidente Bush não o entende assim. Apesar de ter lançado uma «guerra infinita contra o terrorismo» – que serviu de pretexto para atentar contra os direitos humanos no centro de detenção de Guantánamo ou na prisão de Abu Ghraib –, George Bush continua a estabelecer diferenças entre um terrorismo “mau” (o islamita) e um terrorismo “bom” (o daqueles que agridem os adversários de Washington). Uma prova mais desse duplo critério é oferecida pelo caso do terrorista Luis Posada Carriles. Autor intelectual da explosão de um avião da companhia Cubana de Aviação, em 1976, que custou a vida a 73 inocentes, este anti‑castrista radical foi julgado e condenado na Venezuela. Escapou depois de uma prisão desse país. Voltou a organizar um atentado contra Fidel Castro no Panamá. Juntamente com o seu cúmplice, Orlando Bosch, foram de novo detidos, julgados e condenados. Mas, em agosto de 2004, estes terroristas reconhecidos e confessos foram indultados pela presidenta panamenha Mireya Moscoso [1]. Durante um tempo não se soube do paradeiro de Posada Carriles. Pensava‑se que estava em algum país da América Central sob protecção da CIA. Mas acaba de ser revelado que se encontra em território estado‑unidense, em Miami. Os seus cúmplices Santiago Álvarez e José Pujol, também conotados terroristas, foram os que organizaram e executaram a operação de introduzir Posada na Florida utilizando a embarcação Santrina, propriedade do primeiro, desde Isla Mujeres, no estado mexicano de Quintana Roo. O representante democrata pelo Massachusetts, William Delahunt, acaba de pedir em carta à Comissão de Relações Externas da Câmara de Representantes uma investigação sobre a presença de Posada Carriles em Miami. Para a comunidade internacional, trata-se de um facto gravíssimo. Em 26 de agosto de 2003, George W. Bush afirmou em público: «Se alguém protege um terrorista, se alguém apoia um terrorista, se alguém alimenta um terrorista, é tão culpado como os terroristas». Como podem, nesse caso, os Estados Unidos acolher o terrorista Posada Carriles e protegê‑lo sem contradizer a declaração do presidente Bush e sem violar a resolução 1373 da ONU? __________ [1] Ver Ignacio Ramonet, Terroristas soltos, 01/09/2004 (n. IA). |