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20/04/2005 Ignacio Ramonet Dentro de pouco tempo, em
Bagdade, começará o julgamento contra o ex presidente Saddam Hussein.
Enquanto, em La Haia, continuamos a presenciar a controversa comparência ante
o Tribunal Penal Internacional para a ex Jugoslávia (TPIJ) do antigo
presidente Slobodan Milosevic, para responder por «crimes contra a
humanidade». Em quase todo o mundo, os presidentes, às vezes em exercício e
até eleitos de modo democrático, são perseguidos sem o menor respeito à sua
função, que até não há muito tempo se considerava quase sagrada. Nem sequer os “donos do mundo”
escapam ao fustigamento. Não há muito tempo, os presidentes dos sete países
mais ricos do planeta reunidos por ocasião da cimeira G-7 tiveram que
enfrentar manifestações de cólera de enorme amplitude. Dirigidas, não contra
eles pessoalmente, mas contra a globalização que encarnam. Estes dirigentes
ofereciam às suas opiniões públicas a detestável imagem de um clube de ricos
arrogantes, escondidos atrás de muralhas militarizadas, protegidos por uma
polícia em estado de guerra. Assediados por manifestantes,
os gerifaltes do G-7 limitaram‑se a repetir um só argumento em sua
defesa: «Fomos eleitos de modo democrático!» Como se isso tivesse alguma
virtude mágica. Como se isso não fosse, hoje em dia, uma obviedade! Porque ter sido eleito de
maneira democrática não autoriza de modo algum um presidente a trair as suas
promessas eleitorais. Nem a satisfazer a todo o custo as exigências das
empresas que financiaram as suas campanhas eleitorais. De resto, pelo menos
dois dos sete – George W. Bush e Silvio Berlusconi – são os representantes
dos meios financeiros dos seus países mais do que dos seus concidadãos. O acosso aos governantes afecta
sobretudo os chefes de Estado ou de governo acusados de cometer crimes contra
a humanidade. Como é o caso do general Augusto Pinochet, antigo ditador do
Chile, detido em Londres em 1998 por petição do juiz espanhol Baltasar Garzón
e devolvido em Março de 2000 ao seu país, onde voltou a ser incriminado pelo
juiz Juan Guzmán. Desde então, pudemos ver mais de um antigo responsável diante
dos juízes. Por exemplo, o general argentino Jorge Videla, autor do golpe de
Estado de 1976, foi acusado e enviado para prisão preventiva pela sua suposta
participação no plano Condor, o pacto de morte estabelecido pelas ditaduras
latino‑americanas nos anos 1970 para fazer “desaparecer” os seus
opositores. O antigo secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger,
convocado por um juiz de instrução de Paris pelo seu suposto envolvimento no
golpe de Estado contra o presidente Salvador Allende no Chile de 1973. Ou o
primeiro‑ministro israelita Ariel Sharon, obrigado a evitar a Bélgica,
onde era acusado de cumplicidade nos massacres de Sabra e Chatila perpetradas
em Beirute em 1982. Outros presidentes tiveram
que responder ante a justiça devido à sua corrupção. Assim, o presidente
argentino Carlos Ménem foi detido e submetido a prisão domiciliária sob a
acusação de venda ilegal de armas e recepção de comissões ocultas no valor de
várias dezenas de milhões de dólares durante os seus mandatos (1989-1999). E
Alberto Fujimori, ex presidente do Peru, refugiou-se no Japão em Novembro de
2000 fugindo da justiça, que o acusa de corrupção e assassinato. Como pode
ver‑se, este desejo de justiça estende‑se aos países do Sul,
como se à mundialização financeira respondesse uma mundialização da exigência
moral. |