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23/03/2005 Ignacio Ramonet Agora estamos a inteirar‑nos
de que, além de Guantánamo e da prisão de Abu Ghraib em Bagdade, a CIA
utiliza aviões-cárcere para torturar em voo pessoas acusadas de pertencer à
rede Al Qaeda. Assim, as leis estado‑unidenses que impedem o uso da
tortura não se aplicam... Hipocrisia sem fronteiras... Esses suspeitos, de
nacionalidades diversas, são raptados por comandos especiais e transladados
nesses aviões‑cárcere a instalações onde são atormentados durante
meses. Desde há algumas semanas, a
imprensa internacional – em particular os semanários norte‑americanos Newsweek
e The New Yorker – revelou, com apavorantes detalhes, algumas
histórias de pessoas raptadas e torturadas nessas condições. Em particular, o
caso do alemão, de origem libanesa, Jalid El-Masri, vendedor de carros na
cidade de Ulm que, confundido com um homónimo (Jaled Al-Masri), foi sequestrado
por um comando norte-americano na Macedónia e transladado num dos aerocárceres
da CIA para uma prisão secreta do Afeganistão onde um dos seus verdugos
americanos lhe disse: «Ninguém sabe onde te encontras, aqui não há nem
direitos nem leis, assim o que te possa ocorrer não nos preocupa». Pôde conhecer ali outros oito
reclusos – iemenitas, sauditas, paquistaneses e tanzaneses – que também
tinham sido raptados em segredo em diversos lugares do mundo e martirizados
com sanha noutro presídio especial. «Alguns tinham sido violados – conta El-Masri
– outros pendurados do tecto durante dias inteiros, regados com água gelada e
expostos ao frio invernal; uns quantos tinham sido encerrados durante semanas
em diminutos calaboiços com música a todo o volume em permanência para
enlouquecê-los». Um dos países onde os
aviões-celas da CIA fazem escala de modo regular é Marrocos. E muitos
indícios demonstram que, na região de Kenitra, existe uma dessas prisões
secretas onde, com toda a impunidade, se submetem a suplício suspeitos
raptados em segredo através do mundo. Em Marrocos há, por desgraça, uma longa
tradição em matéria de suplícios. No princípio dos anos 1970, quando aumentou
a repressão contra as organizações de esquerda, vivia eu em Rabat e recordo
que muitos dos meus amigos “desapareciam” da noite para o dia. Alguns não
reapareciam. As autoridades negavam estar inteiradas e argumentavam, como em
certos países da América Latina, que sem dúvida essas pessoas tinham feito
uma fuga por razões sentimentais ou tinham‑se alistado em alguma
guerrilha... Hoje sabemos que a muitos aconteceu‑lhes
como a Ahmed Ben Barka, líder dos socialistas marroquinos, raptado em Paris
em 1965, torturado até à morte numa vila da periferia parisiense e cujo cadáver
foi depois transladado para uma prisão secreta de Rabat onde foi dissolvido
em ácido, sob controle de agentes estado‑unidenses, segundo uma
técnica inventada pela CIA. Alguns dirigentes de
esquerda, como o meu amigo Abraham Serfaty, também foi sequestrado em
segredo, transladado para uma casa de tortura clandestina, situada num bairro
elegante de Casablanca, e atormentado durante meses com um refinamento
apavorante. Não só o martirizaram a ele, mas raptaram do mesmo modo o seu
filho de dezoito anos e torturaram‑no da maneira mais atroz durante
dias ante os seus olhos, depois raptaram a sua irmã, meio inválida, e também
a submeteram a diabólicos suplícios diante dele. Abraham permaneceu “desaparecido”
durante anos antes de ser encarcerado e muito mais tarde libertado e expulso
do país. Com o argumento de lutar
contra o terrorismo internacional, os seus verdugos de ontem, com toda a probabilidade,
servem hoje novos amos. Atinge-se assim, da maneira mais trágica, o cúmulo
dos paradoxos. Pois em nome do Bem e dos direitos humanos, os que estão a levar
a cabo esta guerra não duvidam, sob esplêndidos pretextos, de trair do modo
mais vil os altos ideais da democracia. |