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Mundo

04/04/2005

 

O pontífice do povo

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

 

Ninguém sabe se a história classificará João Paulo II como conservador ou não. Foi conservador na sua relação com a Opus Dei, nas suas admoestações sobre a moral sexual, os casais que utilizam a pílula ou o preservativo, os homossexuais, os Estados que legalizam o aborto e a eutanásia. Também foi conservador na sua obstinação em recusar o acesso das mulheres ao sacerdócio, o casamento dos padres, no perfil dos bispos que nomeou, ou na sua atitude hostil para com os teólogos modernistas e em particular para com os apoiantes latino­‑americanos da teologia da libertação.

 

Mas teve outros aspectos desconcertantes: o seu compromisso em favor do diálogo inter­‑religioso com os protestantes, os judeus e os muçulmanos; os seus apelos repetidos para a anulação da dívida dos países pobres e os seus convites para construir um mundo mais solidário. Também há que recordar as suas denúncias repetidas da guerra do Iraque, bem como o seu desejo de ver a Igreja e as organizações católicas participar de modo massivo nas manifestações populares de protesto contra essa guerra.

 

Alguns surpreenderam­‑se com essa atitude tão anti­‑belicista do defunto Papa. Esqueciam que João Paulo II preveniu muito cedo de que a invasão do Iraque, em Março do 2003, podia ser interpretada em muitos países do Sul como um conflito entre ricos e pobres, ou como um confronto de civilizações.

 

Oporndo‑se a essa guerra, o Papa falecido conseguiu evitar que os muçulmanos do mundo a interpretassem como um choque entre cristãos e muçulmanos.

 

E também, dessa maneira, João Paulo II quis sublinhar que o cristianismo já não é redutível a Ocidente. Se, há cinquenta anos, as três primeiras nações católicas do mundo eram a França, a Itália e a Alemanha, hoje são o Brasil, o México e as Filipinas. A maioria dos católicos vivem agora no Sul. O catolicismo converteu­‑se numa religião do terceiro mundo, numa fé dos pobres. Por isso, entre as especulações que circulam sobre a identidade do próximo Papa, muitos apostam sobre a possibilidade de que o sucessor de João Paulo II seja, pela primeira vez na história milenar da Igreja, um não europeu, um latino­‑americano ou um asiático.

 

Nos Evangelhos, os pobres ocupam um lugar central. A Igreja sempre tem estado preocupada, acossada ou atormentada pela questão dos pobres. João Paulo II decidiu fazer sua a causa dos pobres e desafiar a globalização liberal. Por isso condenou muitas vezes, de maneira radical, o ultraliberalismo económico. Já em 1987, na encíclica Sollicitudo Rei Socialis, afirmava que um crescimento económico que não respeitasse os direitos dos trabalhadores «não era digno do homem». Em 1991, em Centessimus Annus, denunciou os estragos da globalização: demissões, precarização, salários indecentes, marginalização dos imigrantes e exploração dos países do Sul. Em 2001, ante a Academia Pontifícia de Ciências Sociais, declarou que «a globalização é uma inundação destruidora que ameaça as normas sociais». Chegou a afirmar, como o fazem os altermundialistas, que eram legítimas «as lutas contra um sistema económico que estabelece a superioridade absoluta do capital e da propriedade dos instrumentos de produção sobre a liberdade e a dignidade do trabalho do homem».

 

Em inumeráveis ocasiões, João Paulo II recordou que considerava os direitos sociais, económicos e culturais como indivisíveis. E lamentou que estes direitos recebam muito menos atenção do que os direitos políticos. Estimava que havia violação dos direitos dos mais humildes quando os meios financeiros se opunham à supressão da dívida externa dos países pobres. Em 1998 declarou que havia uma contradição entre liberalismo económico e cristianismo, e repetiu que «a pobreza constitui uma das situações que violam da maneira mais grave o pleno exercício dos direitos humanos».

 

Filho de uma família de trabalhadores, João Paulo II deixa a recordação de um Papa do povo, defensor dos direitos dos trabalhadores. Fica agora por esperar que o futuro pontífice não seja menos progressista frente à globalização. Mas que o seja muitíssimo mais em matéria de doutrina e de moral.