Informação Alternativa

Médio Oriente

Março 2005

 

Um conto amoral

 

Ignacio Ramonet

Le Monde Diplomatique

 

A Costa-Gavras não falta coragem política. Repetidamente o provou no cinema atacando assuntos não consensuais: a ditadura dos coronéis na Grécia (Z), os processos estalinistas de Praga (L’Aveu [A Confissão]), o intervencionismo norte­‑americano na América Latina (Etat de siège [Estado de sítio]), os processos políticos sob o regime de Vichy (Section spéciale [Secção Especial de Justiça]), a repressão no Chile no tempo do general Pinochet (Missing [Desaparecido]), a influência dos meios de comunicação social nas democracias modernas (Mad City [O quarto poder]), o Vaticano e o nazismo (Amen [Amém]).

 

No seu novo filme, Le Couperet [O Cutelo], censura o ultraliberalismo, debruça-se sobre os estragos sociais provocados pela globalização e alerta sobre esta espécie de nova brutalidade ou de nova crueldade que poderia gerar um individualismo exacerbado ao seu paroxismo. Um tema à Michael Moore tratado desta vez num filme de ficção. A competitividade social e o cada um por si, diz-nos Costa-Gavras, podem levar ao crime, e mesmo ao assassinato em série...

 

Tranquilizemo­‑nos contudo: não é de modo algum um “filme de tese”. Magnificamente adaptado de uma novela do famoso escritor americano Donald Westlake, Le Couperet é uma obra­‑prima de humor refrescante, a classificar doravante ao lado dos desopilantes O mundo é um manicómio [Arsenic and Old Lace] (Frank Capra, 1944) e sobretudo As oito vítimas [Kind Hearts And Coronets] (Robert Hamer, 1949).

 

Um engenheiro jovem e ambicioso vê um dia o cutelo do desemprego abater-se sobre a sua carreira. É despedido do dia para a noite devido à deslocalização da sua empresa. Só uma fábrica, situada na França, poderia recrutá-lo. Mas uma dúzia de outros quadros, igualmente “à procura de emprego”, possui melhores CV que ele. Que fazer? Simplesmente eliminá­‑los um por um...

 

É feroz e engraçado como o melhor humor negro britânico. É social­‑ficção. Uma alegoria. Uma história exemplar, mas exemplar paradoxalmente porque expõe um contra­‑exemplo. Uma espécie de conto moral contemporâneo no sentido que lhe dava Voltaire, ou seja amoral.

 

À semelhança de Voltaire, Costa-Gavras conta-nos com efeito uma situação amoral para melhor fazer ressurgir em nós o senso moral. E filma isso com uma virtuosidade narrativa espantosa, um ritmo ofegante, sem tempos mortos nem cenas inúteis. Não apresenta somente a vida criminosa de um quadro desesperado, mas também, com pequenos toques rápidos, precisos, sensíveis, toda uma sociedade que oscila, ligeiramente grogue, sob os golpes da globalização. Com uma subtil descrição, em paralelo, da pequena família do quadro assassino que ameaça explodir.

 

Como verdadeiro artista e sentinela inquieta, Costa-Gavras, uma vez mais, soube traduzir o ar do tempo, este sofrimento social – «esta áspera e diária cultura da sobrevivência ou da precariedade que pende silenciosamente sobre a realidade francesa» [1] – que o cinema de ficção, na França, tem tanta dificuldade em exprimir. O seu filme agita-nos da melhor maneira possível: rimos amarelo e somos congelados de temor.

 

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[1] Jean-Claude Guillebaud, “Orage en vue”, TéléObs, Le Nouvel Observateur, 17 de Fevereiro de 2005.