Informação Alternativa

Médio Oriente

Março 2005

 

Barril de pólvora libanês

 

Ignacio Ramonet

Le Monde Diplomatique

 

Será a Síria culpada do assassinato, a 14 de Fevereiro de 2005, de Rafiq Hariri, antigo primeiro­‑ministro do Líbano? Em estado de choque, uma parte da opinião pública libanesa está convencida disso. A denúncia pelo presidente sírio, Bachar Al-Assad, dos «autores deste crime odioso e dos que estão por trás dele», não dissipou – é o mínimo que se pode dizer – as acusações a seu respeito. Para a maior parte dos media internacionais não parece haver dúvidas quanto à culpabilidade do regime baasista. Alguns jornalistas lembraram vários presumíveis mobiles do homicídio. Em primeiro lugar, estando previstas eleições legislativas para o próximo mês de Maio, a vontade de Damasco manter o Líbano debaixo do seu controlo. Depois, as queixas da Síria relativamente a Rafiq Hariri, acusado de financiar e tentar congregar uma espécie de frente anti-síria (cristã-drusa-sunita). Por último, uma importante censura complementar: o antigo primeiro-ministro era suspeito de ter mobilizado os seus amigos (entre os quais Jacques Chirac) para fazer votar, em Setembro de 2004, pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, com o apoio de Paris e Washington, a Resolução 1559, que reclama a realização duma eleição presidencial livre no Líbano e pede «a todas as forças estrangeiras que ainda ali se encontram que se retirem do Líbano (... ), bem como o desarmamento das milícias, libanesas ou não».

 

Este crime dá a Washington mais um pretexto para aumentar a pressão sobre Damasco. O embaixador dos Estados Unidos na Síria foi chamado «para consultas urgentes». E o secretário de Estado adjunto norte-americano para o Médio Oriente, William Burns, presente em Beirute para o funeral do antigo primeiro­‑ministro assassinado, aproveitou para declarar à imprensa: «A morte de Rafiq Hariri deverá reforçar o impulso com vista a um Líbano livre, independente e soberano. Isso significa a aplicação imediata da Resolução 1559 do Conselho de Segurança e, por conseguinte, a retirada da Síria, imediata e completa, do Líbano». William Burns parece esquecer-se do facto de os Estados Unidos terem invadido e ocupado o Iraque sem mandato da ONU.

 

Convém lembrarmo-nos de que logo após ter sido desencadeada a invasão americana do Iraque, Damasco considerou que um dos principais objectivos desta guerra era o cerco da Síria [1]. O ministro norte-americano da Defesa, Donald Rumsfeld, acusou Damasco de ajudar o exército de Saddam Hussein durante as operações e de servir de retaguarda às diversas resistências que assediam as tropas americanas de ocupação. De resto, o antigo secretário de Estado, Colin Powell, deslocou-se à Síria, em Maio de 2003, para exprimir directamente ao presidente Al-Assad essas acusações e outras mais antigas, tais como a aliança com o Irão e o apoio às milícias do Hezbollah, formação inscrita pelos Estados Unidos (mas não pela União Europeia) na lista das “organizações terroristas”.

 

Num tal contexto, a menos que queira suicidar-se, o regime sírio não tinha interesse nenhum em agravar a sua situação. É por isso que alguns observadores chegam a perguntar se a “demasiado evidente” culpabilidade da Síria não corresponderá precisamente ao objectivo dos assassinos de Rafiq Hariri. Eyal Zisser, especialista da Síria no Dayan Institute da Universidade de Telavive, afirma mesmo: «É inteiramente ilógico que a Síria tenha feito isso. Teria sido da sua parte uma decisão estúpida. Toda a gente vigia a Síria e este país não tem interesse nenhum em desestabilizar o Líbano» [2].

 

Seja como for, este atentado e as actuais ameaças que impendem sobre a Síria poderão atear o barril de pólvora libanês. Além disso, é preciso interrogarmo­‑nos sobre os objectivos que Washington e Paris têm no tocante ao Líbano. Se o seu objectivo consistir em estabelecerem uma “verdadeira democracia” no Líbano, poderá ela construir-se sem os xiitas, principal comunidade maciçamente aliada a Damasco? Será ela garantida pelos partidos da oposição que rejeitam o princípio “um homem, um voto” e defendem um sistema confessional obsoleto? Por outro lado, se o objectivo for a evacuação do “Líbano ocupado”, poderá a comunidade internacional esquecer que nesta região continuam a estar também ocupados, desde 1967 e apesar de numerosas resoluções do Conselho de Segurança, o Golã sírio, bem como a Cisjordânia, a Faixa de Gaza – que poderá ser evacuada no próximo Verão – e Jerusalém Oriental? Estaremos, mais uma vez, perante dois pesos e duas medidas?

 

O tempo das manobras obscuras está de volta. E parece até que já passámos, no teatro do Médio Oriente, ao segundo acto, inclusive com o risco de relançamento da guerra civil no Líbano, coisa que não parece inquietar os defensores do país do Cedro. Depois da guerra do Iraque – e apesar do desastre da ocupação e da humilhante derrota eleitoral da lista apoiada por Washington –, recomeçam as grandes manobras simultaneamente contra os dois outros objectivos desde há muito apontados: o Irão e o seu aliado, a Síria, que constitui sem dúvida o elemento mais fraco do conjunto. Saberiam os assassinos de Rafiq Hariri que estavam a entregar de bandeja à “comunidade internacional”, simbolicamente, o destino do regime sírio?

 

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[1]    Paul-Marie de la Gorce, A Síria sob pressão [ed. brasileira: O cerco à Síria], Le Monde diplomatique, Julho de 2004.

 

[2] Citado por Jefferson Morley, Who Killed Rafiq Hariri?, washingtonpost.com, 16 de Fevereiro de 2005.