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06/03/2005 Ignacio Ramonet Está a projectar‑se nos cinema da Galicia e de toda a Espanha Memoria del saqueo, um genial documentário de Fernando Pino Solanas que obteve, em 2004, o Urso de Ouro honorífico no Festival de Berlim. Nascido em Buenos Aires em 1936, Solanas, a quem conheço e admiro desde há muitos anos, é considerado à escala internacional como um dos grandes mestres do cinema contemporâneo. É autor, em particular, de La Hora de los Hornos (1966, realizado juntamente com Octavio Getino), obra subversiva e um dos documentários de maior impacto político no âmbito latino‑americano que lhe valeu um excepcional reconhecimento internacional. Memoria del saqueo é um filme contra o esquecimento. Trata de expor como, porquê e por culpa de quem um país tão rico como a Argentina viveu uma das derrocadas económicas e sociais mais brutais que jamais haja padecido um Estado em tempos de paz. Pino Solanas faz para a história o inventário das decisões que conduziram o seu país à ruína, e que desembocaram a 19 de Dezembro de 2001 na revolta popular e no derrubamento do presidente De la Rúa. Com muita inteligência, o filme estabelece a génese dessa insurreição e denuncia toda a corrente de erros cometidos pelos sucessivos dirigentes argentinos desde a imensa dívida contraída durante a ditadura militar até às desastrosas privatizações das companhias estatais decididas pelo presidente Menem, convertido num feroz ultraliberal. Solanas insiste na responsabilidade deste dirigente que, segundo ele, usou a traição como bandeira e a corrupção como prática ordinária. Mas poucas instituições se salvam da denúncia: o Fundo Monetário Internacional, os grandes bancos estrangeiros, os meios de comunicação, os sindicatos, o poder judicial…Todos eles, de uma ou outra maneira, têm parte da responsabilidade no afundamento da Argentina, no saque das suas riquezas e no empobrecimento brutal da sua população. Perguntei a Pino como lhe ocorreu a ideia de fazer de novo um filme tão forte e tão eficaz na sua denúncia. Disse‑me: «Fiz este filme para reconstruir uma das etapas mas sombrias da história da Argentina. Para revelar as causas que provocaram o saque económico e o genocídio social. Trinta e cinco anos depois de La Hora de los Hornos, quis retomar a história a partir das palavras e dos gestos dos seus protagonistas e situar as imagens no seu contexto económico e social. Com este inventário trágico do saque do meu país quero contribuir para a sua refundação democrática e participar no grande debate sobre os estragos produzidos pela globalização neoliberal». Perguntei-lhe se pensa que Menem tem a principal responsabilidade. Disse‑me: «Ele e o seu ministro de economia Cavallo inventaram a paridade peso-dólar para acabar com a inflação. Foi uma calamidade. Já ninguém pôde produzir de maneira rentável na Argentina. Era mais barato importar, e impossível exportar. Toda a indústria se afundou e o país conheceu uma onda de desemprego sem precedentes. Os capitais fugiram para o estrangeiro. A culpa de Menem é gigantesca mas houve muitos cúmplices, entre eles as companhias estrangeiras – muitas espanholas – que se aproveitaram para adquirir por um preço de miséria as principais riquezas do país». A denúncia principal de
Solanas, e nisso está a grande inteligência do filme, é contra esse tipo de
agressão invisível que representa – num âmbito democrático – a lógica da globalização.
Uma agressão económica que provoca mais vítimas do que uma guerra. Essas
dezenas de milhares de pessoas que perdem o trabalho, que vivem na miséria
sem nenhuma protecção social, que passam todo o tipo de necessidades e que
inclusive – como esses meninos que o filme mostra – morrem de fome num país
que é um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Por tudo isso, pela
sua formidável força política e a incrível audácia do seu estilo, Memoria
del saqueo é um filme indispensável que todo o cidadão deve ver para
compreender melhor o mundo trágico em que vivemos. |