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08/03/2005 Joel Maior Lorán
Na sua mania de lutar por um mundo melhor, tem os pés bem ancorados na terra, e traça planos de ataque contra o inimigo: denomina os problemas, denuncia‑os e elabora propostas. Para isso se aliou a outros intelectuais comprometidos com a humanidade. As suas opiniões resultarão familiares para o leitor de Juventud Rebelde ou do lugar web Rebelión, inclusive podem inflamar quem se inicie nos caminhos do jornalismo. Por isso, quando soube da sua presença na capital, compreendi que era preciso superar a concorrência de outros colegas que o assediavam. Com uma infinidade de gravadores diante, o tempo esgotava‑se para o meu fugaz entrevistado. A ele aguardava‑o outro compromisso, e eu teria que abandonar a cobertura para a qual estava credenciado e segui-lo aonde fosse. Não enfrentaria o perigo da selva mas a ausência de um veículo para ir atrás dos seus passos. Os demais renunciaram; este jovem caçador de paradigmas não podia conformar‑se. Como já se ia embora, passei-lhe uma nota e sugeri‑lhe encontrarmo-nos depois, onde ele se dirigisse. Escrevi algo como isto: «você, no meu lugar, faria o mesmo por uma entrevista». E concedeu‑ma. Só teria que me transladar do Palácio de Convenções até à sede da Feira do Livro, em La Cabaña, localizada nos arredores de Havana. Saí a apanhar boleia... com tão boa sorte que abordei o automóvel de Abel Prieto, que se dirigia exactamente para lá. O gesto amável do Ministro da Cultura tornou possível o seguinte diálogo entre um jovem jornalista e Ignacio Ramonet. Quando soube que o seu
destino seria o jornalismo? «De pequeno. Lendo Hemingway fiquei com vontade de ser jornalista». Para quê? «A ideia era, em primeiro lugar, ter o prazer de escrever. E, em segundo, como ele em Por quem dobram os sinos?, para restabelecer as verdades». Essa loucura da verdade
parece contagiosa... «Sim. O Quixote não era jornalista, mas teria podido sê-lo». Antes, considerava-se que
a imprensa e os jornalistas constituíam um “quarto poder” ou contrapoder.
Graças aos meios de informação, os cidadãos podiam criticar ou opor‑se
a decisões legais iníquas, injustas e até criminosas aplicadas contra
inocentes. Já quase não sucede. Por isso, defende você, faz-se necessário um quinto poder que nos permita opor‑nos à nova aliança da imprensa contra os cidadãos. Para denunciar o novo superpoder das grandes indústrias mediáticas, cúmplices da globalização. «Tinha proposto criar um quinto poder, a fim de que os cidadãos se mobilizassem para exigir uma diversidade mediática. Este poder depende da vontade deles; eu só posso sugerir a ideia. Neste momento criaram‑se observatórios importantes dos meios de comunicação: em França, Itália, Brasil... Tivemos o Foro Mundial da Comunicação em Porto Alegre, mesmo antes do Foro Social Mundial, e foram muitos activistas. Na Venezuela está a funcionar um observatório, está-se a criar outro na Colômbia, vai‑se fundar no México. O que indica que este quinto poder vai como uma bola de neve, pouco a pouco engrandecendo-se e tomando força». Apesar do The New York
Times e do The Washington Post, Bush saiu reeleito, talvez tenha
ganho a guerra aos meios de comunicação ou venceu sem eles? «Venceu aliado ao meio de comunicação mais eficaz dos Estados Unidos, que é a cadeia Fox, de Rupert Murdoch. Com a Fox News, a testa de ferro da sua campanha e, portanto, com uma ajuda mediática impressionante. The Washington Post e The New York Times têm muito prestígio, mas não o eco em massa da Fox». Crê que ainda se faz
jornalismo rebelde no mundo? «Sim, mas em cada dia resulta mais difícil. Faz-se cada vez mais um jornalismo de consenso, de submissão, menos jornalismo livre. Simplesmente, menos jornalismo de rebeldia. Às vezes custa fazê-lo: em alguns países porque politicamente não se pode, em outros por razões económicas. Enfrentamos o problema de saber se a imprensa livre ainda tem algum futuro». Qual é a sua opinião sobre
Rebelión? «Aprecio bastante esse lugar web. Conheço bem Pascual Serrano, que se ocupa dele. Difundem alguns dos meus textos. E dou‑me conta que tem muita circulação». Como interpreta ter sido
eleito melhor jornalista do ano em Espanha ou melhor jornalista estrangeiro e
que lhe chamem paradigma? «Deram‑me alguns prémios, mas é uma questão de idade. Quando você tiver a minha (62 anos), pois aqui lhe darão também alguns». Como se sente o privilégio
de cumprir o sonho de entrevistar a quem queira e em qualquer lugar? «Não, não, não, não acredite. Primeiro, não resulta tão fácil e, segundo, entrevistar também não é uma fascinação que eu tenha; não me emociona entrevistar toda a gente. Mas, efectivamente, às vezes, sim há personalidades que me motivam, como o subcomandante Marcos, do qual fiz um livrinho. Agora estou a tratar de escrever outro com Fidel Castro, porque também me interessa». ...? «Por razões de geração. Hoje em dia a personalidade que mais experiência tem dos últimos 50 anos da vida mundial é Fidel Castro. É o único sobrevivente dos criadores das grandes revoluções emancipadoras. Não temos à nossa disposição Lenine nem Mao nem Ho Chi Minh. E eu penso que o ciclo desse tipo de revoluções terminou, porque o contexto político económico mudou. Portanto, é uma testemunha muito particular de um período da história muito importante». Tem utopias? «Você sabe que fui eu quem propôs esta consigna de “Outro mundo é possível”, a qual quer dizer que, efectivamente, acredito em algumas utopias, mas nas não dogmáticas, pois toda a utopia demasiado bem definida pode conduzir ao dogma, e este transforma‑se em prisão». Acredita no ALBA? «Acredito. É uma magnífica proposta alternativa ao ALCA e que, além disso, tem bastante aceitação nas sociedades latino‑americanas». Acredita que os mitos sobrevivam
à era da Globalização? «Sim. Aqui quando se chega do
aeroporto há uma grande cerca onde está escrito: “Ainda acreditamos nos
sonhos”. Eu creio que também há que continuar a acreditar nos sonhos». |