Informação Alternativa

Médio Oriente

02/03/2005

 

Sair de Gaza

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

 

O governo israelita de Ariel Sharon votou a favor da retirada de Gaza. É uma decisão lógica e corajosa que está a criar fortes tensões no interior de Israel onde a maioria da população a aprova, enquanto uma minoria de extrema direita está disposta a tudo para atrasar essa retirada. Sobretudo os oito mil colonos que em tempos adoraram Sharon e agora estão a ameaçar matá-lo, como o fizeram com Isaac Rabin.

 

Os tempos mudaram desde aquela provocação do general Sharon ao apresentar­‑se no dia 28 de Setembro de 2000, protegido por dezenas de polícias, na Esplanada das Mesquitas (o morro do Templo para os judeus). Assim se pôs em marcha uma nova engrenagem trágica: a segunda Intifada, protestos de civis palestinianos, brutalidade desproporcionada da repressão, crianças e adolescentes palestinos abatidos pelas balas, horrível linchamento de dois militares israelitas, represálias contra os árabes israelitas, atentados suicidas nas ruas das cidades israelitas, reocupação militar das cidades autónomas palestinas, provocações de colonos extremistas, novos e odiosos atentados contra civis israelitas, etc. A espiral de violência parecia não ter fim.

 

O choque planetário do 11 de Setembro de 2001 não interrompeu o ciclo de vinganças e represálias. Barbárie quotidiana. Regressão política. Com chamadas, entre os fanáticos de ambos os campos, à “limpeza étnica” ou à “segregação das populações”. Retorno ao desespero dos civis palestinianos, cujas condições de vida se tornaram infernais devido aos sucessivos bloqueios das cidades. O PNB palestino por pessoa e ano diminuiu sensivelmente, passando de 2.245 dólares em 1992 para menos de 1.300 em 2004. E retorno da inquietude e do medo no seio da sociedade israelita, que, traumatizada e martirizada, continua a ser, não obstante, maioritariamente partidária de um acordo de paz. A morte de Arafat e a eleição democrática de Mahmud Abbas parecem ter desanuviado o horizonte.

 

Em Gaza, um milhão de palestinianos vivem amontoados em condições de miséria indescritíveis, enquanto uns oito mil colonos judeus extremistas, protegidos por soldados armados até aos dentes, ocupam um terço do território, constituído pelas terras melhor regadas... Desprezando o direito internacional, Israel promoveu a implantação de populações judias vindas em muitos casos de ultramar.

 

Convém dizer que a atitude colonial das autoridades repugna numerosos cidadãos israelitas. Porque este singular estado não se parece a nenhum outro. Certamente, é o fruto das teses formuladas em 1896 por Theodor Herlz. Mas o estado de Israel surge também, indiscutivelmente, do anti-semitismo europeu, dos pogroms russos e do genocídio nazi. Constitui o porto e o refúgio a que se acolheram milhões de perseguidos à procura de um espaço de liberdade. Por conseguinte, para todos eles, e em particular para os sobreviventes dos campos de extermínio, Israel não é somente um projecto nacional, mas também um projecto moral.

 

Um projecto moral até agora traído. Mas que poderia recuperar de novo sentido depois da retirada de Gaza e mais ainda se a isso se seguir o reconhecimento mútuo de segurança e de soberania.