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16/02/2005 Ignacio Ramonet No âmbito do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, ante uns cinco mil jovens e juntamente com José Saramago, Eduardo Galeano e Federico Maior Zaragoza, no dia 29 de Janeiro passado intervim num painel intitulado: Quixotes de hoje: utopia e política, sem dúvida o evento mais concorrido do Fórum, se exceptuarmos as intervenções especiais dos presidentes Lula e Chávez. Dizia Napoleão do seu general Miranda (um venezuelano precursor dos Libertadores): «É um Quixote, mas não está louco». Ainda que a questão da loucura de Alonso Quijano seja assunto sem resolver e continue a ser objecto de apaixonadas discussões entre especialistas, eu penso que no Fórum Social Mundial também há muitos Quixotes – e muitas Quixotas – que também não estão loucos nem loucas. Era o Quixote um utopista? No sentido próprio da palavra não o creio. Ainda que seja possível que Cervantes tivesse ouvido falar de Utopia, o célebre livro de Thomas More editado em latim em 1516 e traduzido para o inglês em 1551, ou seja, mais de meio século antes da publicação do Quixote. Mas a primeira versão castelhana da Utopia só se publicaria em 1637, em Córdoba, vinte e um anos depois da morte de Cervantes. Um utopista, no mero sentido do termo, é aquele que deseja construir uma cidade ideal, uma sociedade perfeita. Uma utopia é um projecto político, um esquema preciso para edificar uma República feliz. Thomas More, que morreu decapitado, descreve um mundo ideal, em paz perpétua, detalha com precisão como deve ser a sua Constituição, como deve funcionar a sua economia (a propriedade privada não existe), descreve o seu urbanismo, as relações entre os cidadãos e relata os pormenores da vida quotidiana dos habitantes dessa ilha chamada Utopia (do grego utopos: nenhum lugar). Não é o caso do Quixote. Este não luta por impor um modelo de República ideal. O que não suporta são as injustiças. Ele não quer fazer entrar o mundo tal como é num modelo preconcebido, mas «enderezar entuertos», isto é: mudar as coisas. Mais (ou menos) do que utopista, o Quixote é sem dúvida um altruísta, oferece o seu valor, o seu esforço, a sua generosidade – e oferece‑a grátis –, para combater as injustiças no mundo. É, como todos os cavaleiros andantes , um justiceiro itinerante. Não luta por um mundo ideal. Porque todos os “mundos ideais” acabam defraudando. E nesta altura da história sabemos que todas as utopias realizadas fracassaram, às vezes de maneira horrível. O Quixote pensa que outro mundo é possível mas não tem um programa preciso, maníaco, dogmático de como deve ser esse mundo. E não quer obrigar ninguém a entrar pela força no corpete de um eventual novo mundo feliz. A analogia principal entre o
Quixote e o Fórum Social Mundial reside no facto de que o Fórum é um projecto
desordenado mas que se pôde realizar. Em si é uma espécie de utopia
circunstancial, provisória e efémera. Porque o Fórum é a assembleia da
humanidade. Não é a assembleia dos governos ou dos Estados (isso é a ONU) mas
a assembleia da população do planeta. Com toda a sua diversidade. É Babel
reconstruída. Uma Babel harmoniosa e fraterna. Com um objectivo delirante:
mudar e transformar o mundo. O objectivo do Fórum não é o Fórum em si mesmo.
O objectivo não é que o Fórum tenha lugar uma vez por ano como uma espécie de
feira social mundial ou de festival mundial da crítica da globalização. Não,
o propósito do Fórum é enderezar os entuertos deste planeta,
que são incontáveis. São tantos que um só Quixote não bastaria para
combatê-los. Por isso se juntaram uma vez mais neste ano, em Porto Alegre,
batalhões de Quixotes e de Quixotas. Porque, sem fanatismos, nem dogmatismos,
nem violências, querem mudar este mundo. E torná-lo mais justo, mais
solidário e mais fraterno. |