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09/02/2005 Ignacio Ramonet Chego a Roma num ambiente de
preocupação geral pela saúde do papa João Paulo II, de 84 anos, ingressado
por causa da gripe no hospital policlínico Gemelli. Todo o mundo comenta a
eventual sucessão do primeiro pontífice polaco da história. A vaticanologia é
uma grande especialidade romana. Aqui fala‑se de papas e de papabilis
como em Sevilla de touros e de toureiros, com um saber ancestral arraigado em
séculos de conjecturas sobre estratégias e combinações para a conquista do
trono de São Pedro. Dois mil anos de especulações deixam impressão. Num
terraço da Piazza Navona, sob um frio sol de Inverno, converso com um velho
amigo romano, especialista no Vaticano: «O Papa não vai morrer – diz‑me
– porque à Curia não lhe interessa. Desde que o Papa está muito diminuído com
a doença de Parkinson e que tem só poucas horas de lucidez por dia, os homens
da Curia, quase todos conservadores, são quem controlam por completo a
Igreja. E não querem perder esse controle. Assim, o Papa ainda vai durar
muito. Ainda que seja preciso pôr‑lhe pilhas». A Curia é o governo do
Vaticano, que dirige toda a administração da Igreja católica. E os seus
homens fortes são os cardeais Angelo Sodano, 77 anos, secretário de Estado, e
Joseph Ratzinger, 77 anos, prefeito da Congregação para a doutrina da fé (ex Santo
Ofício ou Inquisição) e decano do Sagrado Colégio, bem como o arcebispo
Stanislaw Dziwisz, 65 anos, secretário pessoal do Papa. «Lembra-te – insiste o
meu amigo – das agonias de Tito, Franco ou Boumedienne, por exemplo. Duraram
semanas e até meses porque os que rodeavam estes dirigentes não aceitavam
perder o poder, e mantiveram‑nos acoplados a todo o tipo de aparelhos
que lhes prolongavam de modo artificial a vida. Imagina como serão as tensões
no Vaticano com ambições que levam vinte e seis anos esperando». Entre os chamados papabilis
pela imprensa romana, os candidatos do Sul mais aptos a suceder a João Paulo
II, pelo seu trabalho e carisma, seriam dois cardeais latino‑americanos:
o colombiano Darío Castrillón Buracos, de 75 anos, prefeito da Congregação
para o clero, e o hondurenho Óscar Andrés Rodríguez Madariaga, de 62 anos,
arcebispo de Tegucigalpa. No diário La Repubblica, Marco Politi, autor
de vários livros sobre a Santa Sé, sustenta que estes dois cardeais,
provenientes do continente mais católico do mundo, onde residem metade dos
católicos, contam com todas as características para chegar ao trono de São
Pedro, graças às suas capacidades demonstradas para governar um mundo que
muda. Mas outro amigo meu, jesuíta,
sustenta que o próximo papa será italiano e velho: «A Igreja precisa agora de
um papa de transição. Que tenha um reinado curto. Por isso elegerá com
segurança um cardeal já de terceira idade. E italiano, caseiro, porque o papa
Karol Wojtyla foi um papa viajante, apaixonado pela política estrangeira e que
abandonou a gestão interna da Igreja à Curia. A Igreja precisa de reformas
urgentes para modernizar o seu funcionamento. Há que pensar em assuntos como
o celibato dos sacerdotes, o diaconato das mulheres, a anticoncepção, o
divórcio. Ao próximo papa cabe‑lhe fazer estas mudanças e por isso
deve ser alguém que conheça bem a gestão interna da Igreja e da Curia. Só um
italiano saberá fazê-lo. Por isso o favorito é o cardeal Dionigi Tettamanzi,
70 anos, de Milão. Fala-se também de Angelo Scolapatriarca, de Veneza, mas
com 63 anos é demasiado jovem. Alguns citam o cardeal Giovanni Battista Re,
71 anos, prefeito da Congregação para os bispos, mas este favorito do Santo
Pai apareceria como o herdeiro de João Paulo II e isso elimina‑o, pois
há um dito, sempre verificado, no Vaticano que afirma: “Entrar no Conclave
como papa é sair como cardeal”». Para sermos humildes, convém
recordar outro provérbio da Santa Sé: «No Vaticano, os que falam não sabem, e
os que sabem não falam». |