Informação Alternativa

Médio Oriente

23/01/2005

 

Teerão

 

Ignacio Ramonet

Radio Chango

 

Vim a Teerão, convidado pelo ministério da cultura, para participar num colóquio sobre “arte e globalização”. Acompanham-me Jean-Luc Nancy e Bernard Stiegler, dois dos principais filósofos franceses contemporâneos. Os três fomos amigos do grande pensador Jacques Derrida, falecido há pouco, e a quem está dedicado o colóquio.

 

É a primeira vez que visito o Irão, país que se converteu no centro do interesse internacional depois de o presidente Bush o ter integrado no “eixo do mal” e de a nova secretária de Estado, Condoleezza Rice, o qualificar há pouco tempo como «bastião avançado da tirania» no mundo. Os Estados Unidos e Israel suspeitam que o Irão está a tratar de se dotar da arma atómica e ameaçam intervir, de forma preventiva, para destruir as plantas industriais onde se supõe que se elaboram «armas de destruição em massa».

 

Muitos observadores vêem repetir-se o trágico roteiro que conduziu à guerra do Iraque. O jornalista Seymour Hersh revelou no New Yorker, a 16 de Janeiro passado, que comandos de forças especiais já estão a operar no interior do Irão para identificar uns quarenta objectivos que poderiam ser destruídos por ataques de alta precisão dentro de pouco tempo.

 

Os interlocutores com que conversámos em Teerão, tanto autoridades como opositores, insistiram que o Irão assinou o Tratado de não proliferação nuclear e que o seu programa é pacífico. Precisaram-nos que o objectivo é colocar-se entre as grandes potências tecnológicas e que isso não é possível sem o domínio da tecnologia nuclear. Há certo orgulho nessas declarações, e entende­‑se porque estamos num país que foi, no passado, o grande império persa que tanto trouxe ao mundo. Um amigo professor recordou­‑me que uma série de palavras nossas são de origem persa, por exemplo: azul, persiana, caravana, divã, alfândega, quiosque, laranja, xaile, pistachio, etc. E que árvores tão comuns nas nossas paisagens como o castanheiro ou a nogueira também procedem da Pérsia.

 

Jantei em casa de uns amigos e comentaram­‑me que o regime islamita instaurado pelo iman Khomeiny em 1979 se encontra sem fôlego. As mesquitas aqui estão mais vazias que em nenhum outro país islâmico. Serviram-me um copo de vinho tinto, o que me surpreendeu porque toda a bebida com álcool está proibida excepto para os cristãos – existe uma minoria arménia – que não podem, sob pena de sanção severa, dar ou vender bebidas alcoolizadas aos muçulmanos. Os meus amigos explicaram­‑me que uma das formas de resistir contra a opressão dominante consiste em fabricar o seu próprio vinho de modo artesanal.

 

Milhares de iranianos o fazem. Compram uvas (as excelentes cepas de variedade syrah são de origem persa, da maravilhosa cidade de Shiraz) e, na clandestinidade dos sótãos das suas casas, trituram os racimos, adicionam leveduras, deixam depois repousar em cubas, e depois do envelhecimento procedem a engarrafar o vinho. Este que provámos era da colheita de 2004, possuía um sabor a vinho novo e recordava o que se bebe em alguns povos da Galiza em meados de Novembro, produto das vindimas de Setembro. Além disso, é um gesto simbólico de resistência que lhe junta mais sabor.

 

Contaram-me coisas absurdas da teocracia. Por exemplo, se algum subscritor iraniano recebe uma revista do estrangeiro, esta deve passar por um “gabinete do pudor” onde se verifica se há alguma imagem de mulher mostrando alguma parte do seu corpo que não seja o rosto. Assim se criaram despachos onde o pessoal – só mulheres, pois nenhum homem, por muito censor que seja, deve ver a nudez – revê, página por página, cada publicação que chega ao país, e com um grande carimbo vai esborratando braços, decotes, pernas e cabelos de todas as mulheres representadas na publicidade ou nas ilustrações.

 

Há, nesta kafkiana “burocracia do pudor”, certa delicadeza, já que a revista esborratada chega ao seu destinatário. Mas, a este, recorda­‑se­‑lhe assim que o poder, na sombra, controla o seu olhar e o proíbe de ver.