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23/01/2005 Ignacio Ramonet Depois de uma escapada em 2004 a Bombaim, na Índia, o Fórum Social Mundial volta este ano, pela quarta vez, à sua base de Porto Alegre no Brasil. Começa hoje, apesar de ter sido precedido pelo Fórum Mundial de Juízes e pelo primeiro Fórum Mundial da Informação. Intervim nestes dois, e vou fazê‑lo em vários painéis do Fórum Social Mundial. Em particular, amanhã quinta-feira presido à mesa sobre “economia solidária” na qual participa, entre outros, Vandana Shiva, a escritora militante e ecologista indiana. No sábado intervenho, juntamente com o meu amigo José Saramago (que vem pela primeira vez e será sem dúvida acolhido de maneira grandiosa) num painel intitulado “Quixotes no Fórum” que é organizado pela comissão executiva do IV centenário da publicação do Quixote. Outros momentos fortes constituem as intervenções dos presidentes Lula e Chávez. E rumoreja‑se que o próprio presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, também poderá aproximar-se do Fórum. Tudo isto desmente a tese dos que pretendem que o Fórum já não suscita o entusiasmo do passado. É indiscutível que as coisas evoluíram desde que lançamos o primeiro Fórum em 2001, e que agora se está a exigir‑lhe mais coerência e mais capacidade para proporcionar um programa de acção ao conjunto do movimento altermundialista. Ao retomar a bandeira do protesto, os insubmissos de hoje tentam pôr a primeira pedra de um novo espaço de representação mundial, cujo lugar central deveria corresponder à sociedade civil internacional. Se queremos mudar o mundo, já não podemos contentar-nos com um planeta em que três mil milhões de pessoas sobrevivem na miséria. Esses três mil milhões de cidadãos estão representados no Fórum de Porto Alegre que é a Assembleia das pessoas do planeta. Das pessoas, dos povos, das sociedades civis. É a reunião dos humilhados, dos que não têm habitação, nem medicamentos, nem trabalho, nem água potável, nem o respeito dos seus governantes. Em Porto Alegre reúnem‑se os condenados da globalização. É um acontecimento inovador. E esses marginados e excluídos descobrem a alegria de estar juntos, e comprovam que a sua reunião assombra o mundo. E atemoriza os amos do planeta. Pela lista de reivindicações indispensáveis para sair do horror económico. Chegou o momento de fundar uma nova economia baseada no princípio do desenvolvimento sustentável e que tenha o ser humano como preocupação central. O desmantelamento do poder financeiro exige um encargo significativo das rendas do capital, e das transações especulativas sobre os mercados de câmbio (taxa Tobin). Impõe-se assim mesmo suprimir os paraísos fiscais. Também há que estabelecer um salário base incondicional e universal, concedido a cada indivíduo desde que nasce, obedecendo ao princípio de que todo o ser humano tem direito a esse salário vital pelo simples facto de viver, e não para viver. É necessário devolver aos países do Sul o lugar que lhes corresponde pondo fim às políticas de ajuste estrutural; anulando sua dívida pública; aumentando a ajuda ao desenvolvimento; promovendo economias baseadas nos próprios recursos do país; fomentando o comércio justo; investindo em educação, habitação e saúde; exigindo a protecção das minorias indígenas; facilitando o acesso à água potável; estabelecendo, no Norte, cláusulas de protecção social e ambiental sobre os produtos importados que garantam condições de trabalho dignas aos assalariados do Sul, bem como a protecção do meio natural... A este programa há que
adicionar outras urgências: a emancipação da mulher à escala planetária; a
criação de uma autoridade internacional que garanta a não contaminação com
mentiras dos meios de comunicação; estabelecer o princípio de precaução em
matéria ambiental e contra toda a manipulação genética, etc. Utopias até
ontem, convertidas em objectivos concretos para este século XXI... |