Informação Alternativa

Mundo

12/01/2005

 

Cooperativismo

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

Tenho estado a participar, no sul de França, num apaixonante congresso sobre Globalização e cooperativismo em que intervieram responsáveis de todo o tipo de cooperativas tanto francesas como de outros países europeus. Tratava­‑se de responder à pergunta: que pode fazer o cooperativismo frente à mundialização liberal?

Em primeiro lugar, disseram alguns, a globalização teve aspectos positivos para as cooperativas; abriu-lhes novos mercados, permitiu-lhes melhorar a qualidade dos seus produtos e dos seus serviços, e tornou­‑as mais eficazes. Ainda que a situação difira de um país para outro e também na capacidade das cooperativas se adaptar­em aos desafios que propõe esta nova ordem mundial. No entanto, as cooperativas com frequência são objecto de ataques do sector privado, em grande parte por causa da ignorância da opinião pública sobre o seu carácter diferente que as distingue das demais empresas.

Insistiu-se na importância estratégica de construir um sistema de comunicação eficaz no seio do movimento cooperativista para explicar melhor à cidadania o que são as cooperativas. E porque defendem uma concepção da produção, do trabalho, da solidariedade e da partilha muito diferentes do mercantilismo dominante. Pois são entidades económicas que colocam o ser humano – e não a mercadoria – no centro das suas preocupações.

Disse-se que as cooperativas não são só entidades de carácter económico, mas que possuem uma função social e meio ambiental, e que pretendem construir solidariedades humanas. Uma cooperativa é diferente no sentido em que o seu objectivo primordial consiste em servir todos os seus membros, ao mesmo tempo que procura um impacto benéfico no seio da comunidade em que desenvolve as suas actividades.

Também se recordou que para evitar converter-se em meras sociedades anónimas movidas pela obsessão do lucro, as cooperativas devem aliar­‑se com outras entidades semelhantes para resistir melhor à globalização. A cooperação entre federações nacionais é uma maneira de construir solidariedades comuns à escala internacional a fim de contrabalançar a ofensiva das empresas globais.

O compromisso com a comunidade também é um princípio sagrado do movimento cooperativista que não só pensa em si mesmo mas em tudo o que de bom pode buscar na colectividade local ou regional em que opera. Isso também deveriam entendê­‑lo os governos mais sábios, que deveriam fazer as reformas necessárias para que as cooperativas possam converter-se em aliados e busquem serviços complementares – de educação, cultura, formação, defesa do património, etc. – ao conjunto da comunidade.

O objectivo de uma cooperativa é a promoção dos seus membros, e não a maximização do produto do sua capital. Portanto, estão predestinadas a oferecer aos seus membros mais assistência e mais vantagens em termos de preços. Porque têm uma estrutura descentralizada e são menos custosas, possuem assim mesmo maior aptidão para propor soluções inteligentes aos problemas que colocam os efeitos da globalização.

Sublinhou-se que é de importância estratégica – quando a globalização tem tendência a apagar as identidades e a confundir tudo numa identidade geral – que as cooperativas não renunciem à sua identidade local ou regional. A proximidade dos membros da cooperativa e o saber fazer específico da região são cartadas que há que saber utilizar com sucesso assegurado.

Disse-se, em conclusão, que as cooperativas devem mobilizar os seus membros para fazer pressões a nível nacional e europeu em favor da aplicação de reformas indispensáveis para construir uma sociedade que, em vez de favorecer o desenvolvimento a curto prazo, proteja o meio ambiente, coloque o ser humano em primeiro plano, favoreça a justiça social. E estimule a solidariedade entre todos os cidadãos.