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Janeiro 2005 Ignacio
Ramonet Le Monde
Diplomatique (inglês,
francês) Nada
simboliza melhor o desassossego da imprensa na França, confrontada com uma
alarmante queda de circulação, do que a recente decisão do jornal Libération,
que já foi maoísta, de aceitar o controle de 37% do seu capital pelo
banqueiro Edouard de Rothschild... Há pouco tempo, o grupo Socpresse, que
edita cerca de 70 títulos, entre os quais Le Figaro, L’Express,
L’Expansion e dezenas de jornais regionais, foi adquirido por um
fabricante de armas, Serge Dassault. E sabe‑se que outro industrial do
armamento, Arnaud Lagardère, já possui o grupo Hachette [1], que controla
umas 47 revistas (entre as quais Elle, Parents e Première)
e diários como La Provence, Nice‑Matin ou Corse-Presse.
Se esta queda na circulação continuar, a imprensa escrita independente corre
o risco de cair sob controle de um pequeno grupo de empresários – Bouygues,
Dassault, Lagardère, Pinault, Arnault, Bolloré, Bertelsmann... – que
multiplicam as alianças entre si e ameaçam o pluralismo [2]. O
principal grupo independente de imprensa escrita, La Vie‑Le Monde,
passou ele próprio recentemente por sérios sobressaltos, especialmente a
demissão do director de redacção do Monde. Devido ao papel fundamental
que esse jornal desempenha na vida intelectual francesa, espera-se que
permaneça a salvo dos predadores que o cobiçam e que a nova fase que agora se
inicia se caracterize, concretamente, menos pela encenação e mais pela «busca
da precisão», permitindo aos seus leitores «encontrar uma referência, uma
resposta segura, uma validação», em suma, «um jornal em que a competência
prevaleça acima de quaisquer conivências», como escreveu Jean‑Marie
Colombani em Le Monde, 16 de Dezembro de 2004. A queda
atinge doravante a imprensa de referência. Pela primeira vez nos últimos
quinze anos, ela não poupa Le Monde diplomatique. O nosso jornal, que
vinha aumentando progressivamente a circulação desde 1990 – e que, entre 2001
e 2003, conheceu uma subida recorde de vendas – superior a 25%! [3] –
experimentará sem dúvida em 2004 (os resultados definitivos ainda não foram
estabelecidos) um recuo de cerca de 12% na circulação [4]. A maioria dos
grandes jornais da imprensa francesa também passará por sérias quedas de
circulação que virão somar‑se àquelas que já haviam ocorrido em 2003: Le
Figaro: 4,4%; Libération: 6,2%; Les Echos: 6,4%; Le
Monde: 7,5%; e La Tribune: 12,3%. O fenómeno
está longe de se restringir à França. O diário norte‑americano International
Herald Tribune, por exemplo, teve uma diminuição de 4,16% nas vendas em
2003; no Reino Unido, o Financial Times caiu 6,6%; na Alemanha, a
imprensa teve uma queda de circulação de 7,7% nos últimos cinco anos; na
Dinamarca, de 9,5%; na Áustria, de 9,9%; na Bélgica, de 6,9%; e até no Japão,
cuja população é a maior consumidora de jornais do mundo, houve um recuo de
2,2%. No âmbito da União Europeia, o número de jornais vendidos nos últimos
anos diminuiu em 1 milhão de exemplares por dia... À escala mundial, a
circulação de jornais pagos cai, em média, 2% por ano. Há quem pense que
talvez a imprensa escrita seja uma coisa do passado, um veículo da era
industrial em vias de extinção. Aqui e
ali, títulos desaparecem. Na Hungria, no dia 5 de Novembro de 2004, o diário Magyar
Hirlap (propriedade do grupo suíço Ringier) jogou a toalha. Na véspera, 4
de Novembro, em Hong-Kong, o semanário de referência sobre assuntos asiáticos
Far Eastern Economic Review (propriedade do grupo norte‑americano
Dow Jones) parou de ser publicado. No dia 7 de dezembro de 2004, na França, a
revista mensal Nova Magazine também suspendeu a sua publicação. Nos
Estados Unidos, entre 2000 e 2004, mais de dois mil empregos foram suprimidos
na imprensa escrita, ou seja, 4% dos empregos. A recessão atinge igualmente
as agências de notícias que alimentam os jornais com informação. A principal
delas, a Reuters, acaba de anunciar um corte de 4.500 funcionários. As causas
externas desta crise são conhecidas. Por um lado, a ofensiva devastadora dos
jornais gratuitos. Na França, em termos de público, o jornal 20 Minutes
já ocupa com ampla vantagem a liderança, com uma média de mais de 2 milhões
de leitores por dia, muito à frente do Parisien (1,7 milhão), e de
outro gratuito, Metro, lido em cada dia por 1,6 milhões de pessoas.
Eles canalizam para si consideráveis fluxos publicitários, pois os
anunciantes não distinguem o leitor que compra o seu jornal daquele que não o
paga. Para
resistir a esta concorrência – que poderia ser mortal para os diários e que
já ameaça os semanários –, alguns deles, principalmente em Itália, Espanha,
Grécia e Turquia (ainda que o fenómeno se estenda também à França) propõem
com cada entrega, por uma pequena soma extra, uma revista de histórias, um
DVD, CD, livros, Atlas, enciclopédias, colecções de selos ou de antigos notas
de banco, e até louças, jogos de xadrez, etc. O qual reforça a confusão entre
informação e mercadoria, com o risco de que os leitores já não saibam que é o
que compram. Dessa maneira, confundem ainda mais a sua identidade,
desvalorizam o título que publicam e põem em marcha uma engrenagem diabólica
da qual se ignoram as consequências. A outra
causa externa é, evidentemente, a Internet que prossegue a sua fabulosa
expansão. Apenas no decurso do primeiro trimestre de 2004, foram criados mais
de 4,7 milhões de sites na rede. Existem, actualmente, cerca de 70 milhões de
sites no mundo e a rede conta com mais de 700 milhões de usuários. Nos países
desenvolvidos, muita gente substitui a leitura de jornais – e até a televisão
– pela tela do computador. A ADSL (Asymetric Digital Subscriber Line,
a chamada banda larga) é responsável por essa mudança. Por preços que variam
entre 10 e 30 euros, hoje em dia é possível subscrever a Internet rápida. Na
França, mais de 5,5 milhões de residências já são assinantes, com acesso
ultra-rápido aos meios de comunicação (79% dos jornais do mundo têm edições
electrónicas), a todo o tipo de textos, ao correio eletrónico, a fotos,
música, programas de televisão ou de rádio, filmes, jogos vídeo, etc. MONTAGEM
EM SÉRIE Também há
o fenómeno dos blogs, tão característico da cultura da Internet, que
realmente explodiram pelo mundo inteiro durante o segundo semestre de 2004 e
que, num tom de jornal íntimo, misturam sem qualquer cerimónia informação e
opinião, factos verificados e boatos, análises documentadas e impressões
fantasistas. O seu sucesso é tão grande que actualmente é possível
encontrá-los na maioria dos jornais electrónicos. Esse entusiasmo mostra que
muitos leitores preferem a subjectividade e a parcialidade assumida dos bloggers
à falsa objectividade e à imparcialidade hipócrita da grande imprensa. E a
conexão com a galáxia Internet através do telemóvel‑que‑faz‑tudo
pode acelerar ainda mais esse movimento. A informação torna‑se ainda
mais móvel e mais nómada. Pode-se saber, a qualquer momento, o que se passa
no mundo. Na Índia,
a sociedade Times Internet, filial multimédia do diário Times of India,
divulga todos os meses, para os telemóveis dos seus assinantes, mais de 30
milhões de informações sob a forma de SMS (Short Message Service), uma
tecnologia que oferece comunicação rápida, breve e barata. No Japão e na
Coreia do Sul, um número cada vez mais significativo de pessoas já informa‑se
através do telemóvel. Resultado: todos os sectores de informação, com
excepção da Internet, perdem o seu público devido à maneira pela qual a
concorrência entre os meios de comunicação se tornou severa [5]. Mas esta
crise também tem causas internas que se devem, principalmente, à perda de
credibilidade da imprensa escrita. Em primeiro lugar, porque esta pertence
cada vez mais, como vimos, a grupos industriais que controlam o poder
económico e são coniventes com o poder político. E também porque a
parcialidade, a falta de objectividade, a mentira, as manipulações ou mesmo
simplesmente as montagens não param de aumentar. Sabe-se que nunca houve uma
idade de ouro da informação, mas essas descaminhos atingem agora os jornais
de qualidade. Nos Estados Unidos, o caso Jayson Blair – esse jornalista
famoso que falsificava factos, plagiava artigos copiados da Internet e
inventava dezenas de histórias, causou um prejuízo colossal ao New York
Times, que tinha frequentemente publicado na primeira página as suas
reportagens imaginárias [6]. Este jornal, considerado como uma referência
pelos profissionais, viveu, naquele momento, um verdadeiro terremoto: os dois
directores de redacção, Howell Raines e Gerald Boyd, foram obrigados a pedir
demissão e foi criado o cargo de ombudsman (provedor do leitor), que
foi entregue a Daniel Okrent, um ensaísta e ex-editor-chefe da revista Time. Alguns
meses mais tarde estourava um escândalo ainda mais ensurdecedor. Envolvia o
jornal de maior tiragem dos Estados Unidos, USA Today. Os seus
leitores descobriram, estarrecidos, que o repórter mais famoso do jornal,
Jack Kelley, vedeta internacional que percorria o planeta há duas décadas,
entrevistara 36 chefes de Estado e cobrira uma dezena de guerras, era, na
realidade, um falsário compulsivo, um “serial de montagens”. Entre
1993 e 2003, Kelley inventara centenas de reportagens sensacionais. Por uma
estranha coincidência, encontrava‑se sempre no local dos
acontecimentos e produzia histórias excepcionais e apaixonantes. Numa dessas
reportagens, ele sustentava ter sido testemunha de um atentado numa pizzaria
em Jerusalém e descrevia três homens que comiam a seu lado, cujos corpos
tinham sido projectados para cima pela explosão teriam sido lançados na rua
com as cabeças separadas e rolando... A sua
reportagem mais grosseira, publicada em 10 de Março de 2000, foi sobre Cuba.
Kelley fotografara a empregada de um hotel – “Jacqueline” –, e narrava detalhadamente
a sua fuga clandestina a bordo de um frágil bote e o seu trágico afogamento
no estreito da Flórida. Na realidade, esta mulher – cujo verdadeiro nome é
Yamilet Fernández – está viva, nunca viveu semelhante aventura e foi
localizada por outro jornalista do USA Today, Blake Morrison, que
constatou que Kelley inventara tudo [7]. As revelações destas fraudes,
consideradas como um dos maiores escândalos do jornalismo norte-americano,
custaram os seus cargos à directora de redacção, Karen Jurgensen, e a dois
outros dirigentes importantes: Brian Gallagher, diretor‑adjunto, e Hal
Ritter, director de informação [8]. Mais
recentemente, em plena campanha eleitoral, um novo terremoto ético abalou o
universo das comunicações. Dan Rather, o famoso apresentador do noticiário de
televisão da CBS e também apresentador do prestigioso programa “Sixty
minutes”, admitiu ter divulgado, sem antes os ter verificado, documentos
falsos para provar que o presidente Bush gozara de apoios privilegiados para
escapar da guerra do Vietname [9]. Dan Rather anunciou que abandonava as suas
funções e se aposentava. A
INTOXICAÇÃO SOBRE O IRAQUE A todos
estes desastres, deve-se acrescentar a retransmissão pelos grandes meios de
comunicação, transformados em órgãos de propaganda, especialmente o canal Fox
News [10], das mentiras da Casa Branca em relação ao Iraque. Os jornais nem
verificaram nem questionaram as afirmações do governo Bush. Se o tivessem
feito, um documentário como Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, não
teria tido o sucesso que teve, já que a informação transmitida pelo filme
estava disponível há muito tempo. Mas escondida pelos meios de comunicação. Mesmo o Washington
Post e o New York Times participaram dessa “lavagem cerebral”,
como o demonstrou John Pilger, um especialista dos meios de comunicação:
«Muito antes da invasão, esse dois jornais advertiam para perigos
imaginários, por conta da Casa Branca. Na primeira página do New York
Times, podíamos ler as seguintes manchetes: “Arsenal secreto [do Iraque]:
a caça às bactérias da guerra”; “Um desertor descreve o avanço da bomba
atómica no Iraque”; “Um iraquiano fala da modernização dos silos de armas
químicas e nucleares”; e “Desertores confirmam as denúncias norte-americanas
contra o Iraque, dizem as autoridades”. Todos estes artigos revelaram ser
pura propaganda. Numa mensagem electrónica interna (publicada pelo Washington
Post), Judith Miller, jornalista vedeta do New York Times, admite
que a sua principal fonte era Ahmed Chalabi, um exilado iraquiano condenado
pelos tribunais por corrupção, que fora dirigente do Congresso Nacional
Iraquiano (CNI), entidade sediada em Washington e financiada pela CIA. Uma
investigação feita pelo Congresso concluiria, mais tarde, que quase todas as
informações fornecidas por Chalabi e outros exilados não tinham valor algum»
[11]. Um agente
da CIA, Robert Baer, revelou como funcionava esse sistema de intoxicação: «O
Congresso Nacional Iraquiano (CNI) colectava as suas informações junto a
falsos desertores e encaminhava‑as ao Pentágono. Em seguida, o CNI
passava essas mesmas informações aos jornalistas e dizia‑lhes: “Se
você não acredita em nós, então telefone para o Pentágono”. Dessa forma, você
tinha a informação correndo num círculo fechado. Assim, o New York Times podia
dizer que tinha duas fontes para as suas informações sobre as armas de
destruição em massa no Iraque. O Washington Post também. Os
jornalistas não procuravam saber mais sobre as informações. E, por outro
lado, os seus redactores chefes pediam‑lhes para apoiar o governo. Por
patriotismo» [12]. O
editor-chefe do Washington Post, Steve Coll, teve que renunciar às
suas funções no dia 25 de agosto de 2004, após ter sido feito um levantamento
que deixou evidente o pouco espaço reservado aos artigos que contestavam a
tese do governo durante o período que antecedeu a invasão do Iraque [13]. O New
York Times também fez o seu mea culpa. Num editorial publicado em 26 de
Maio de 2004, reconheceu a falta de rigor na apresentação dos factos que
conduziram à guerra e lamentou ter publicado «informações erradas». Na França,
os desastres desse tipo não são menores, como demonstrou o tratamento dado
pelos principais meios de comunicação a casos como o de Patrice Alègre, o do
carregador de bagagens de Orly, o dos “pedófilos” de Outreau ou o de Marie‑L.,
que fingiu ter sido vítima de uma agressão de carácter anti-semita num trem
de Paris [14]. O fenómeno é idêntico noutros países. Em Espanha, por exemplo,
após os atentados de 11 de Março de 2004, os meios de comunicação controlados
pelo governo de José María Aznar entregaram-se à manipulação, tentando impor
uma “verdade oficial” para servir ambições eleitorais, ocultando a
responsabilidade da rede Al‑Qaeda e atribuindo o crime à organização
basca ETA. Todos
esses acontecimentos, assim como a aliança cada vez mais estreita com os
poderes económico e político, causaram um prejuízo devastador à credibilidade
dos meios de comunicação. Revelam um inquietante défice democrático.
Prevalece o jornalismo de condescendência, enquanto recua o jornalismo crítico.
Podemos mesmo perguntar‑nos se, na época da globalização e dos
megagrupos mediáticos, a noção de liberdade de imprensa não está em vias de
se perder. «IDEIAS
SADIAS» Neste
sentido, as declarações de Serge Dassault confirmam todos os receios. Desde a
sua tomada de posse de funções, o novo proprietário do Le Figaro disse
o seguinte aos redactores: «Eu gostaria, na medida do possível, que o jornal
valorizasse mais as nossas empresas. Penso que, às vezes, há informações que
exigem muitas precauções. É o caso de artigos que falam de contratos que
estão em negociação. Há informações que fazem mais mal do que bem. O risco é
colocarem em perigo interesses comerciais ou industriais do nosso país» [15].
O que Dassault chama «nosso país», bem entendido, é sua empresa de fabricação
de armas, a Dassault Aviation. E foi sem dúvida para protegê-la que ele
censurou uma entrevista sobre a venda fraudulenta de aviões Mirage a Taiwan.
Assim como uma informação sobre as conversações entre Jacques Chirac e
Abdelaziz Bouteflika a respeito de um projecto de venda de aviões Rafale à
Argélia [16]. As suas
recentes explicações sobre os motivos que o levaram a comprar L’Express
e Le Figaro – um jornal, declarou ele, «permite fazer passar um certo
número de ideias sadias» – reforçaram a inquietação dos jornalistas [17]. E
Dassault fez questão de explicar: «As ideias de esquerda não são ideias
sadias. Se hoje estamos numa confusão, é porque as ideias de esquerda
persistem» [18]. Comparando
essas opiniões com as de Patrick Le Lay, director‑presidente da TF1,
sobre a verdadeira função da sua emissora, gigante entre os meios de
comunicação franceses – «O papel da TF1», disse Le Lay, «é o de ajudar a
Coca-Cola a vender o seu produto. O que nós vendemos à Coca-Cola é tempo do
cérebro humano disponível» [19] –, percebe-se a que perigos pode levar essa
mistura de géneros, na medida em que a obsessão comercial e a ética da
informação parecem contraditórias. Esta
mistura de géneros pode ir muito longe sem que os leitores dela se apercebam.
Walter Wells, director do International Herald Tribune (que pertence
ao grupo New York Times, o qual é cotado em Wall Street), fez recentemente
uma advertência em relação às consequências da entrada de empresas de
comunicação no mercado de capitais: «Frequentemente, as pessoas que devem
tomar uma decisão jornalística perguntam‑se se isso fará baixar ou
subir em alguns centavos o valor das acções da empresa editora. Este tipo de
considerações tornou-se crucial, os directores de jornais recebem
constantemente orientações nesse sentido por parte dos proprietários
financeiros do jornal. É um facto novo no jornalismo contemporâneo, antes não
era assim» [20]. Na
Internet, essa confusão que manipula e acaba iludindo o leitor pode ir mais
longe ainda. Assim, o site Forbes.com, da revista económica norte‑americana
Forbes, utiliza um novo processo para fazer publicidade, integrando
directamente links promocionais no conteúdo dos artigos. Os anunciantes
compram palavras-chave e, quando o rato do internauta passa sobre elas, surge
uma janela contendo uma mensagem publicitária. Os jornalistas não são
informados com antecedência sobre as palavras‑chave compradas pelos
anunciantes, mas alguns já começam a perguntar‑se se, dentro de algum
tempo, não lhes irão solicitar que escrevam artigos utilizando palavras
específicas das quais se espera uma polpuda arrecadação para a editora. Aumenta
progressivamente o número de cidadãos que tomam consciência destes novos perigos.
Manifestam uma extrema preocupação em relação às manipulações mediáticas e
parecem convencidas de que, nas nossas sociedades sobremediatizadas, vivemos,
paradoxalmente, num estado de insegurança de informação. A informação
prolifera, mas com uma garantia de confiabilidade nula. Acontece
frequentemente que seja desmentida. Assiste-se ao triunfo do jornalismo
especulativo e sensacional em detrimento do jornalismo de informação. O
espectáculo (a embalagem) prevalece sobre a verificação dos factos. Ao invés
de constituírem a última barreira contra esta deriva também devida à rápidez
e à imediatez, inúmeros diários de imprensa escrita falharam na sua missão e
contribuíram por vezes, em nome de uma concepção preguiçosa ou policiesca
[21] do jornalismo investigativo, para desacreditar o que antigamente se
chamava o «quarto poder». O nosso fundador, Hubert Beuve-Méry, lembrava
sempre: «Os factos são sagrados, a opinião é livre». Mas a atitude que se
difunde nos mídia parece inverter essa fórmula. Cada vez mais jornalistas
consideram que as suas opiniões – raramente fundamentadas – é que são
sagradas, ao passo que não hesitam em deformar os factos para os constranger
a justificar as suas opiniões. Em tal
contexto, que assiste ao refluxo do entusiasmo militante enquanto se espalha
uma visão pessimista sobre o mundo, a redacção do Monde diplomatique
compromete‑se a melhorar a oferta editorial e considera que nada é
mais importante do que não trair a confiança dos seus leitores. Contamos com
a sua mobilização e a sua solidariedade para defender a independência do
nosso jornal e a liberdade que ela nos garante. Lembramos que a melhor
maneira de nos apoiar é assinar o nosso jornal e levar os seus amigos a fazer
o mesmo. Desejamos
ser o jornal da sociedade em movimento, daqueles que querem que o mundo mude.
E esforçamo‑nos por continuar fiéis aos princípios fundamentais que
caracterizam a nossa maneira de informar. Diminuindo o ritmo da aceleração
mediática; apostando num jornalismo que esclareça o lado obscuro da notícia;
interessando‑nos por situações que não estão nas manchetes dos
noticiários, mas que ajudam a melhor compreender o contexto internacional;
propondo dossiês, cada vez mais completos, mais aprofundados e mais
documentados sobre as grandes questões contemporâneas; indo ao fundo dos
problemas com método, rigor e seriedade; apresentando informações e análises
inéditas e frequentemente ocultadas; e tentando ir na contracorrente dos
grandes meios de comunicação dominantes. Continuamos persuadidos de que é da
qualidade da informação que depende a do debate dos cidadãos. E é a natureza
deste que determina, em última instância, a riqueza da democracia. ____________ [1] A
Hachette Filipacchi Médias, filial da Lagardère Media, é a principal editora
de revistas do mundo, com 245 títulos publicados em 36 países. Cf. O site: www.observatoire-medias.info.
No seio do grupo Le Monde SA – principal accionista (51%) do Monde
diplomatique SA – o grupo Lagardère é accionista (10%) do Midi Libre e
do Monde interactif. [2]
Segundo uma sondagem feita pela empresa BVA, 69% das pessoas entrevistadas
consideram que a concentração dos meios de comunicação ameaça o pluralismo da
imprensa e a independência dos jornalistas. Le Monde, 20 de Agosto de
2004. [3] O
sucesso do Monde diplomatique não pode senão provocar a raiva e a
irritação em alguns jornalistas que, nos últimos meses, desencadearam uma
série de ataques contra nós – ataques cuja simultaneidade não deixa de ser
intrigante. [4] Em compensação, o
número de artigos lidos no nosso site (gratuito) www.monde-diplomatique.fr mais
que duplicou em 2004. O nosso público internacional continua também a
ampliar-se; as nossas edições estrangeiras atingem actualmente o número de
45, numa vintena de línguas, e sua difusão acumulada supera 1,1 milhões de
exemplares. [5] Nos
Estados Unidos, o público do telejornais nocturno das grandes emissoras
passou, em média por dia, de 36,3 milhões de espectadores em 1994, para 26,3
milhões em 2004. [6] Le
Monde, 21 de Maio de 2003, e Time, 16 de Junho de 2003. [7] Woman
who died in Cuba story alive in USA, Usa Today, 19 Março de 2004. [8] Le Monde, 30 de Abril de 2004. [9] Le
Monde, 28 de Setembro de 2004. [10] Veja
o documentário Outfoxed (2004), de
Robert Greenwald. [11] John
Pilger, Como produzir cidadãos
consumidores, mal‑informados e conformistas, Le Monde
diplomatique, Outubro de 2004. [12] No
documentário Uncovered (2003),
de Robert Greenwald. [13] The Washington Post, 12 de Agosto de 2004. [14] Gilles Balbastre, “Les faits divers, ou le
tribunal implacable des médias”, Le Monde diplomatique, Dezembro de
2004. [15] Le
Monde, 9 de Setembro de 2004. [16] Le
Canard enchaîné, 8 de Setembro de 2004. [17] Após
Dassault tomar formalmente posse na direcção da Socpresse, 268 jornalistas do
grupo editorial – ou seja, cerca de 10% dos contratados – apelaram para a
cláusula de rescisão e anunciaram sua saída. [18] Em
entrevista a Pierre Weill, France Inter, 10 de Dezembro de 2004. [19] Citado do livro Les Dirigeants face au
changement, Editions du Huitième jour, Paris, 2004. [20] El Mundo, Madrid, 12 de Novembro de
2004. [21]
Confundem-se, muitas vezes, fontes com informações “plantadas”, ou
informações confiáveis com boatos anónimos. |