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Mundo

29/12/2004

 

Terror genético

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

O ano de 2005 verá aumentar um pânico novo: o terror genético. A produção de animais transgénicos, a clonagem, a sequenciação do genoma humano, a patenteação da vida e a utilização de testes genéticos estão a produzir um medo surdo.

Desde a clonagem da ovelha Dolly em 1997, sabe­‑se que a do homem está a um passo. A ciência superou a ficção, na medida em que deixou pequenino o «procedimento Bokanovsky» imaginado por Aldous Huxley na sua novela Admirável Mundo Novo. Dolly não é o resultado de uma fecundação: o seu embrião foi criado mediante a simples fusão do núcleo de uma célula adulta com o óvulo enucleado de uma ovelha portadora. Desde então, clonaram­‑se todo o tipo de animais. Em 1998, a revista The Lancet opinava que, apesar das advertências morais, a criação de seres humanos por clonagem era «inevitável», e fazia um apelo à comunidade médica para que o «admitisse de uma vez por todas».

Recordemos que nos Estados Unidos, durante os anos 60, investigadores como o doutor José Delgado, partidário do controle da mente em aras de uma sociedade «psicocivilizada», afirmava que a pergunta filosófica essencial já não era «Que é o homem?», mas «Que tipo de homem devemos fabricar?»

Marvin Minsky, um dos pais do computador, prognostica o seguinte: «Em 2035, graças à nanotecnologia, o equivalente electrónico do cérebro poderia ser menor que a ponta de um dedo. Isso significa que poderemos ter no interior do crânio todo o espaço desejado para implantar sistemas e memórias adicionais. Desse modo, pouco a pouco, poder­‑se­‑ão aprender mais coisas em cada ano, adicionar novos tipos de percepções, novas formas de raciocínio, novas maneiras de pensar e imaginar.»

Por sua vez, Francis Fukuyama sustenta que «durante as duas próximas gerações, as ferramentas que as biotecnologias nos proporcionarão permitir­‑nos­‑ão conseguir o que não conseguiram os especialistas em engenharia social. Chegados a esse ponto, teremos terminado para sempre com a história humana, porque teremos abolido os seres humanos enquanto tais».

A imprensa anunciou o nascimento de uma nova era a 26 de Junho de 2000, data da decifração dos três mil milhões de pares de bases encadeadas ao longo dos vinte e três cromossomas que compõem o nosso património hereditário. Os benefícios prováveis para a humanidade são enormes, já que a identificação de um gene responsável por um mal hereditário abre o caminho à descoberta de um possível tratamento e da sua cura.

Mas estamos longe de conhecer o alcance desta descoberta, que pode alentar perigosas veleidades. Doravante, a genética oferece a possibilidade de se lançar a uma «apropriação selvagem do mundo, uma versão moderna do escravismo ou da exploração incontrolada dos recursos naturais, como demonstraram as potências coloniais». Porque patentear os genes é como privatizar um património comum da humanidade. E vender a informação à indústria farmacêutica – que a reservaria a alguns privilegiados – poderia transformar esta revolucionária descoberta científica num novo instrumento de discriminação. Como se fosse pouco, a engenharia genética prefigura um novo eugenismo. Cabe interpretá­‑lo como o ressurgir do fantasma do menino perfeito, seleccionado em função da excelência do seu código genético.

Um medo indizível começa a tomar corpo: caminhamos para uma seriação da espécie humana? Para o recurso em massa às biotecnologias duras? Assistiremos em 2005 à invasão dos HGM, os humanos geneticamente modificados?