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22/12/2004 Ignacio
Ramonet É habitual,
por esta época de finais de ano, que se evoque a questão dos presentes às
crianças. Nos nossos países, o acosso comercial e a tirania publicitária
transformaram o prazer de obsequiar numa obrigação autoritária de que quase
ninguém se pode livrar. Muitas famílias sacrificam o essencial e aceitam
pospor gastos indispensáveis para respeitar o rito colectivo de inundar de
brinquedos os menores. Um estudo recente revela que cada lar europeu gastará neste
Natal uma soma média de 320 euros em presentes. Isto significa que a União
Europeia dos Quinze, por exemplo, consagrará a astronómica quantia de 30.000
milhões de euros em compras de presentes. Com esse
dinheiro poder‑se‑iam construir, por exemplo, uns 125 grandes
hospitais ultramodernos na Europa, ou mais de 30.000 dispensários médicos nos
países pobres. Também se poderiam cavar uns 15 milhões de poços em África que
dariam água potável a centenas de milhões de pessoas. E num mundo em que metade
da humanidade vive com menos de dois euros diários e em que – segundo um novo
relatório da FAO – 815 milhões de pessoas sofrem de fome, poder‑se‑ia
dar comida a umas 3.000 milhões de pessoas durante, pelo menos, cinco dias.
Uma maneira verdadeiramente solidária de celebrar as festas. No oceano
de miséria que caracteriza o nosso mundo, os menores são os que mais sofrem.
Segundo a UNICEF, metade dos pequenos do planeta, ou seja, mil milhões de
raparigas e rapazes, padecem privações extremas por causa de três males principais:
a pobreza, as guerras e a SIDA. Cabe recordar que nove em cada dez crianças
que hoje nascem no mundo o fazem em países pobres. E enquanto nos dispomos a
mimar em excesso os nossos escassos pequenos, a empanturrá‑los com
doces e a asfixiá‑los com presentes caros, os demais menores padecem –
segundo Carol Bellamy, a directora geral da UNICEF – de sete privações
básicas: alojamento, acesso a serviços higiénicos, água potável, informação,
cuidados médico, escola e alimentação. Uns 700
milhões de crianças conhecem pelo menos duas destas sete privações. Uma em
cada seis tem fome. Uma em cada sete não conheceu o mínimo cuidado médico. Uma
em cada cinco não bebe água potável. Além disso, há uns 180 milhões que
trabalham como adultos nas piores condições. Centenas de milhares foram
alistados à força nos numerosos conflitos do planeta, vendo-se obrigados a
fazer uso das armas e a cometer crimes de sangue. As raparigas, nestes
conflitos, são com frequência objecto de violações, o que, ademais, estende a
propagação da SIDA. Esta doença é responsável por uns 15 milhões de órfãos no
mundo, 80% deles na África subsahariana. Os rapazes são também as vítimas
principais das guerras; representam 45% dos 3,6 milhões de pessoas mortas em
todos os conflitos durante os anos 1990. Esta infernal situação da
maioria dos menores do mundo não é uma fatalidade. Ninguém pode considerar
isso normal. A nossa solidariedade, nestes dias em que o nosso carinho em
relação às crianças é mais manifesta, deveria expressar‑se apoiando as
campanhas a favor de consagrar 0,7% da riqueza dos países ricos à ajuda aos
desfavorecidos. Ou sustentando a nossa proposta de criar uma taxa
internacional, um IVA planetário e solidário, para começar a pôr fim ao escândalo
da pobreza. Isso sim seria, para a maioria das crianças da Terra, um fabuloso
presente de Natal. |