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União
Europeia |
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19/12/2004 Ignacio
Ramonet O primeiro‑ministro
turco, Recep Tayyip Erdogan, aceitou na sexta-feira passada as condições exigidas
pelo Conselho europeu para a abertura de negociações para a adesão do seu
país à União Europeia. Reconheceu oralmente a República do Chipre. As
discussões começarão a 3 de Outubro de 2005 para uma eventual adesão em 2014
no mínimo. O caminho para Ancara ainda será longo, pois em alguns países que
se baterão por um referendo – França e Áustria – a maioria da opinião pública
é hostil à entrada de Turquia. Este
debate dá testemunho da actual angústia identitária das sociedades ocidentais
frente ao Islão. E põe à luz a islamofobia que obseda muitos partidos
políticos. Alguns, para negar o ingresso de Ancara, fazem da geografia um
critério de exclusão. Ao situar-se o essencial do território turco na Ásia
Menor, não haveria, segundo eles, que tomar em conta esta candidatura. Mas o
argumento não vale. A Guiana francesa, situada no continente americano, ou as
ilhas Canárias, no africano, não fazem por acaso parte da União Europeia? É
possível ignorar que a costa Egea da Turquia, onde se achava a antiga Tróia,
era a ala oriental da Grécia clássica, berço da civilização europeia? Que
argumentos “técnicos” se esgrimirão amanhã para atrasar a adesão de outros
dois Estados de maioria muçulmana – a Bósnia e a Albânia – cuja pertença
geográfica à Europa não dá lugar a discussão? Outros
dizem que os turcos são descendentes de tribos originárias da Mongólia. Esquecem-se
que os habitantes da Finlândia, da Estónia e da Hungria – membros da União
Europeia – são descendentes dos terríveis Hunos de Atila, que também provinham
das estepes da Ásia. Ao terem sido cristianizados parecem menos “bárbaros” do
que os turcos muçulmanos. Um
comissário europeu chegou a declarar que, se Turquia fosse admitida no seio
da União, «a libertação de Viena (assediada pelos turcos) em 1683 teria sido
vã». Sucessor do Império Bizantino, o Império Otomano teve efectivamente a
ambição de dominar o Mediterrâneo e a Europa (intenção várias vezes quebrada,
por exemplo em Lepanto em 1521). Outros Estados – Espanha, França, Alemanha –
também acalentaram o projecto de submeter o Velho Continente à sua potência.
E ninguém discute o seu europeicidade. Como os
impérios centrais – todos desaparecidos – e os impérios coloniais – todos
desmembrados –, o antigo Império Otomano encontrou‑se, no alvor do
século XX, esgotado por excessivas campanhas militares; chamava‑se‑lhe
então «o homem enfermo da Europa» (da Europa, não da Ásia). Depois de perder as
suas possessões nos Balcãs e no mundo árabe, a nova Turquia, fundada em 1923
por Kemal Atatürk, quis-se europeia. Nenhum
outro país consentiu em sacrificar tantos aspectos fundamentais da sua
cultura para afirmar sua europeicidade. A Turquia moderna abandonou o seu
antigo sistema de escrita (árabe) para adoptar os caracteres latinos; os seus
habitantes tiveram de se desfazer das suas roupas tradicionais para se vestir
como ocidentais e, em nome de um laicismo oficial, o Islão deixou de ser
religião de Estado. Desde
1963, reconheceu-se a sua vocação de integrar a União Europeia. Um tratado de
união aduaneira foi assinado em 1995. Desde que o Conselho europeu de Helsínquia,
em 1999, e o de Copenhague, em 2002, afirmaram que podia ser candidata à adesão,
Ancara empreendeu uma espécie de “revolução calma” para cumprir com os
critérios necessários. O país
avança na via das reformas democráticas: os Tribunais especiais de segurança
do Estado estão a desaparecer, a pena de morte foi abolida, as circunstâncias
atenuantes para os “crimes de honra” contra as mulheres foram suprimidas, o
projecto de criminalização do adultério foi abandonado. Nas regiões do
Curdistão, levantou-se o estado de emergência, autorizou-se o ensino do curdo,
criou‑se uma cadeia de televisão curdófona e quatro ex deputados
presos políticos pela sua militância a favor da causa foram libertados. Fica por
percorrer muito caminho em matéria de respeito pelas liberdades públicas e
pelos direitos fundamentais. Será necessário também que Ancara reconheça o
genocídio arménio de 1915. E uma amnistia a favor dos ex combatentes do
Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) deve permitir a libertação de
mais de três mil militantes actualmente na prisão. Mas a perspectiva de adesão à
União já tem como efeito principal reforçar a democratização, o laicismo e a
defesa dos direitos humanos. Para os grandes países do Mediterrâneo oriental,
ameaçados pela violência e por correntes obscurantistas, esta adesão
constituirá uma mensagem concreta de que não há choque de civilizações quando
há esperança de paz, de liberdade, de prosperidade e de democracia. |