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08/12/2004 Ignacio Ramonet Acaba de realizar-se
em Caracas, de 1 a 5 de Dezembro, um importante Encontro em Defesa da
Humanidade que convocou intelectuais vindos dos cinco continentes. Foi um
evento de relevância mundial porque não é frequente reunir tantas
personalidades. A ideia era expressar uma espécie de solidariedade com o
processo de transformação social que, em torno do presidente Hugo Chávez, a
Venezuela está a viver. Outro objectivo era conhecer as experiências que se
estão a levar a cabo neste país em matéria de educação, de saúde e nos
terrenos económicos. Serviu de modelo aquele congresso de intelectuais e de
artistas que, em 1937, em plena guerra civil espanhola, se organizou em
Valencia em solidariedade com a República agredida. Numa das
mesas redondas, eu intervim sobre as indústrias culturais. Todos
recordamos que essa expressão foi proposta nos anos 1930 pelos primeiros
teóricos da cultura de massas: os autores da escola de Frankfurt. Afirmavam
que toda a obra de arte tem como característica a unicidade, o facto de ser
única. No entanto, uma obra perde esta característica quando se produz de
modo industrial. Eles foram os primeiros a notar as tendências que se iam
desenvolver nos anos 70, quando autores como Herbert Schiller ou Armand
Mattelard denunciaram o domínio norte‑americano na produção da cultura
de massas. Quais são
as indústrias culturais hoje? Não cabe dúvida de que estamos a viver
transformações importantes no âmbito da comunicação. E sabe‑se que a
informação faz parte dessas indústrias. Hoje em dia, nas sociedades
desenvolvidas, as máquinas informatizadas (agendas electrónicas, telefones
celulares, computadores bonsai) têm-se miniaturizado tanto que quase
as levamos enxertadas no nosso corpo. Vivemos num universo em que a
informatização se multiplicou e cada um de nós, sem se dar conta, leva vários
computadores invisíveis consigo. Por exemplo, um simples bilhete de metro (ou
de autocarro, ou de avião) diz-nos a que hora se tomou o transporte, quanto
tempo se demorou a percorrer o trajecto, a que hora se saiu dele. E se esse
bilhete se tomou por um mês, no último dia, sem que ninguém intervenha, deixa
de funcionar porque a sua duração está programada. Um modesto bocado de
papelão é agora um elemento informatizado. Outro
aspecto é a cerebralização dos aparelhos mecânicos que sabem fazer um
certo número de coisas. Desde a máquina de lavar roupa até aos automóveis.
Hoje, um automóvel tem menos a ver com o universo mecânico que com o
informático. Há mais informática presente num automóvel corrente do que a que
havia, em 1969, na nave espacial que conduziu Armstrong à Lua. É outro
resultado da revolução digital que permitiu à humanidade descobrir a
Internet. E nenhuma técnica de comunicação conheceu uma expansão tão
fulgurante como a Internet. Quem
domina a Internet? Microsoft, Viacom, IBM, General Electric, Google, Intel,
Yahoo, AOL, Vodafone, isto é, empresas que vêm da galáxia informática, da
galáxia Internet ou das indústrias telefónicas. Porque a informação e a
comunicação são as indústrias estratégicas de hoje, como ontem o foram o
carvão, o aço ou o automóvel. O conceito de indústria
cultural mudou. Em nome da rentabilidade e do lucro a todo o custo, o
projecto de redução do que a cultura pode ter de libertador não desapareceu,
nem diminuiu. Pelo contrário, mais do que nunca a produção em massa ameaça
asfixiar a verdadeira cultura. |