|
Informação Alternativa |
|
Estados
Unidos da América |
|
Dezembro 2004 Ignacio Ramonet A
reeleição, no último dia 2 de Novembro, de George W. Bush para a Presidência
dos Estados Unidos constitui uma afronta ao espírito da democracia
norte-americana, a mais antiga do mundo e, por isso mesmo, a sua referência
primordial. É evidente que, tecnicamente falando, não há – desta vez – o que
reclamar. Ninguém pode contestar o carácter legítimo da votação. Usando dos
seus direitos, os eleitores escolheram segundo os seus desejos [1]. Nem por
isso esta eleição é menos inquietante, e até chocante. Confirma que a
democracia – apesar de ser o menos imperfeito dos regimes políticos – não
está isenta de escolhas que podem levar ao poder perigosos demagogos. É
realmente preocupante que Bush, conhecido pelo seu fundamentalismo religioso,
pela sua mediocridade intelectual e pela sua incultura, tenha sido o
candidato mais votado da história eleitoral norte-americana. Principalmente
por ter enganado o seu povo e mentido ao Congresso para conseguir autorização
de conduzir uma “guerra preventiva” (não autorizada pela ONU) e invadir o
Iraque; por ter incentivado um uso desproporcional de força, provocando a
morte de milhares de civis iraquianos inocentes [2]; por ter ignorado a
“ordem executiva” de 1976 do presidente Gerald Ford (ainda em vigor e que
proíbe os serviços secretos de assassinarem dirigentes políticos
estrangeiros) e ordenado a execução de supostos “terroristas” [3]; por ter
violado as Convenções de Genebra sobre o tratamento de prisioneiros de
guerra; por ter permitido a prática de tortura na prisão de Abu Ghraib e em
outros centros de detenção secretos; e porque ressuscitou o espírito do
macartismo, que consiste em considerar culpado qualquer cidadão que possa ser
suspeito de manter vínculos com uma organização inimiga. PLEBISCITO
DA ILEGALIDADE? Com um
quadro de honra de tal maneira sinistro, qualquer outro dirigente seria declarado
pouco recomendável e banido do mundo civilizado. Não George Bush que, além do
mais – e enquanto presidente da única hiperpotência mundial – ocupa o lugar
central do dispositivo político internacional. O seu
segundo mandato promete dar continuidade ao anterior. E as duas primeiras
nomeações de ministros confirmam que Bush interpreta a sua vitória eleitoral
como um plebiscito à sua política. A escolha de Alberto Gonzales para o
Departamento de Justiça, por exemplo, constitui uma resposta de desprezo a
todos os que criticam a tortura em prisioneiros acusados de terrorismo. Isso
porque, na condição de assessor jurídico do presidente, o próprio Gonzales
foi o autor dos dispositivos legais que permitiram contornar as Convenções de
Genebra – qualificando de “inimigos combatentes” os prisioneiros das guerras
do Afeganistão e do Iraque – e da criação da base de Guantánamo. Contrariando
a legislação norte-americana e os tratados internacionais, Gonzales não
hesitou em suspender a proibição de que fossem exercidas “pressões físicas”
sobre esses prisioneiros sob o pretexto de que «na condução da guerra, a
autoridade do presidente é total» [4]. LIMITES DO
INSTRUMENTO MILITAR Quanto à
nomeação de Condoleezza Rice para o Departamento de Estado, é impossível não
ver na medida uma reivindicação do unilateralismo puro e duro defendido pelos
republicanos autoritários do círculo presidencial e que parecem confirmar
novas ameaças contra o Irão. No
entanto, a incapacidade das forças armadas se imporem no Iraque contra os insurrectos
prova os limites do instrumento militar. Constatação que também pode fazer em
Israel, no momento em que desaparece Yasser Arafat, o general Ariel Sharon,
principal aliado de Bush no Oriente Médio. O primeiro-ministro israelita
constata que a capacidade de sofrimento dos palestinianos continua superior à
capacidade de destruição do seu exército. Saberia ele compreender as
consequências disso? Seria Bush
capaz de acabar por reconhecer que os aspectos negativos da globalização
(pobres cada vez mais pobres, injustiças planetárias, rivalidades regionais,
desequilíbrios climáticos, etc.) podem degenerar em conflitos caso não se
consiga uma mediação conjunta multilateral? Ou que uma potência não pode
pretender impor a lei sozinha? ____________ [1] Um desejo que, no entanto, foi fortemente condicionado pelo marketing político e pela propaganda na mídia. Veja o documentário Outfoxed (2004), de Robert Greenwald, sobre a manipulação da informação nos Estados Unidos em favor do presidente Bush. [Sobre o documentário referido, ler no IA: Tiago Soares, Nos subterrâneos dos “grandes” mídia, 21/09/2004.] [2]
Segundo a organização Iraq Body Count,
o número de civis mortos em decorrência da intervenção militar no Iraque
chegaria, em 21 de Novembro de 2004, a 14.454. Porém, segundo a revista
médica britânica The Lancet de
Novembro de 2004, o número de civis iraquianos mortos em consequência directa
ou indirecta da invasão norte‑americana seria da ordem de 100 mil... [3] Seymour Hersh, Cadeia de Comando, 2004. [O 1º capítulo
está disponível em português em: http://www.ediouro.com.br/img_livros/cadeia_comando1cap.pdf (358kb)] [4] El País, Madrid, 11 de Novembro
de 2004. |