Informação Alternativa

Ásia

15/12/2004

 

Recordando Bhopal

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

Faz vinte anos, a 2 de Dezembro de 1984, por volta da uma da madrugada, em Bhopal, cidade de um milhão de habitantes situada no centro da Índia, rebentava um depósito de metilisocianato (MIC) da empresa estado­‑unidense Union Carbide. Umas trinta toneladas desse composto químico volátil, inflamável e explosivo, libertam­‑se na atmosfera. A nuvem esbranquiçada de gás letal estende­‑se, levada pelos ventos nocturnos, através de uns quarenta quilómetros quadrados, intoxicando a quanto ser vivo, pessoa ou animal, acha no seu caminho.

A nocturnidade do acidente agrava as suas consequências; muitos inalam o gás assassino enquanto dormem e famílias inteiras falecem em silêncio. Os socorros demoram a chegar e fazem­‑no com a maior confusão, espavoridos pela dantesca dimensão da tragédia: 2.500 mortos nas primeiras horas e mais de 250.000 feridos. É a pior catástrofe química do século XX, e também um acidente industrial de dimensões históricas e até políticas, pelo envolvimento de uma empresa multinacional norte­‑americana num país do terceiro mundo. Bhopal é, além disso, sinónimo de crise da todo­‑poderosa técnica, e de falha dos sistemas de segurança na manipulação de substâncias perigosas. Com este desastre surgia, à escala planetária, um novo temor colectivo: o terror industrial.

«Na história das colectividades – afirma o historiador Jean Delumeau –, os medos mudam, mas o medo persiste». Até ao século XX, os grandes males da humanidade tinham a sua origem na natureza, no frio, nos rigores do clima; as inundações, as devastações, os incêndios, a fome e açoites como a peste, o cólera, a tuberculose e a sífilis. Antigamente, o ser humano vivia sob a constante ameaça do meio. A desgraça espreitava­‑o quotidianamente.

A primeira metade do século XX esteve marcada pelos horrores das grandes guerras mundiais de 1914-1918 e 1939-1945. A morte à escala massiva, os êxodos, as destruições, as perseguições, os campos de deportação e extermínio. Depois da Segunda Guerra Mundial e da devastação atómica de Hiroshima e Nagasaki em 1945, o mundo viveu sob a ameaça do holocausto nuclear. Um medo que se foi apaziguando pouco a pouco para o final da guerra fria e depois da assinatura de tratados internacionais que proibiam a proliferação nuclear.

Mas a existência desses tratados não eliminou todos os perigos. A 26 de Abril de 1986, a explosão da central nuclear de Chernobil provocou um recrudescimento do terror nuclear. Mais recentemente, a 1 de Outubro de 1999, produziu-se um acidente na instalação nuclear da localidade japonesa de Tokaimura. Estupefacta, a opinião pública internacional descobriu que, inclusive num país como o Japão, reputado pelo seu rigor técnico, se transgridem princípios elementares de segurança e se arrisca a saúde e a vida de centenas de milhões de pessoas.

No dia em que os historiadores das mentalidades se perguntem pelos medos de começos do século XXI, descobrirão que, à excepção do terrorismo, que obseda as sociedades desde o 11-S, os novos temores são não só de ordem política ou militar (conflitos, perseguições, guerras...) mas de carácter económico e social: desastres bursáteis, hiperinflação, quebras empresariais, demissões em massa, precariedade, recrudescimento da pobreza... Bem como ecológico – transtorno da natureza, aquecimento climático, qualidade sanitária da alimentação, contaminações de todo o tipo... – e sobretudo industrial: acidentes tão graves como os de Toulouse, Minamata, Seveso ou o que agora recordamos com horror e compaixão, de Bhopal.