Informação Alternativa

União Europeia

Novembro 2004

 

Turquia

 

Ignacio Ramonet

Le Monde Diplomatique

Falta subtileza ao debate sobre a eventual entrada – em cerca de doze anos – da Turquia na União Europeia. E permite bastantes delírios. Sob o pano de fundo do “choque de civilizações”, evidencia-se a actual angústia do mundo ocidental por uma identidade diante do Islão. E acaba revelando a islamofobia que atormenta quase todas as famílias políticas.

Apostando na rejeição instintiva de um grande país de maioria muçulmana, algumas pessoas utilizam argumentos “técnicos” para impedir a sua entrada. E fazem da geografia, por exemplo, um critério de exclusão definitivo. Como a maior parte do território turco se situa na Ásia Menor, nada justificaria, segundo eles, esta candidatura. Um argumento furado. A Guiana Francesa, situada no continente americano, e a Ilha de Reunião, no meio do Oceano Índico, não pertencem à União Europeia? Como ignorar que a costa turca que dá para o mar Egeu, onde se situa a antiga Tróia, é a região oriental da antiga Grécia, berço da civilização europeia?

Imaginem-se que argumentos “técnicos” serão utilizados num futuro próximo para impedir a adesão de dois outros países de maioria muçulmana – a Bósnia e a Albânia – cuja localização geográfica europeia não pode ser contestada.

Há quem apele à história. Frits Bolkestein, membro da Comissão Europeia, chegou a declarar que se a Turquia fosse admitida na UE, «a libertação de Viena [sitiada pelos turcos] em 1683 terá sido em vão» [1]. Durante esse cerco, a população vienense, famosa pela qualidade do seu pão, teve que racionar a farinha, fazendo pequenos pãezinhos aos quais deu o formato simbólico dos otomanos: o croissant. É essa a invenção vienense que muita gente acredita ser tipicamente francesa...

Sucessor do império bizantino, o império otomano tinha, na realidade, a ambição de dominar o Mediterrâneo e a Europa (projecto que foi várias vezes frustrado, especialmente com a batalha de Lepanto, em 1521). Essa ambição não faz da Turquia uma espécie de “anti-Europa”. Outros países – como a Espanha, a França e a Alemanha – também acalentaram projectos de submeter o Velho Continente à sua força. E ninguém contesta suas raízes europeias.

Assim como os velhos impérios centrais – que já se foram – e os impérios coloniais – todos desmembrados -, o velho império otomano encontrou-se esgotado pelo excesso de campanhas militares (era designado, na época, como “o doente da Europa”). Com a perda das suas possessões nos Bálcãs e no mundo árabe, a nova Turquia, fundada por Kamal Atatürk, adoptou uma vocação decididamente europeia.

Nenhum outro país jamais consentiu sacrificar tantos aspectos fundamentais da sua cultura para afirmar a sua identidade europeia. A Turquia moderna chegou ao ponto de abandonar o seu antigo sistema de escrita (árabe) para adoptar os caracteres romanos; os seus habitantes tiveram que se livrar das suas roupas tradicionais e adoptar as ocidentais; em nome de uma laicidade oficial, inspirada pela lei francesa de 1905, o islão deixou de ter carácter de Estado.

Ao longo do século XX, a Turquia nunca deixou de consolidar o seu carácter europeu. No início da década de 50, aderiu à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e, em seguida, ao Conselho Europeu. Desde 1963, o general De Gaulle e o chanceler Adenauer reconheciam a sua vocação para se unir à União Europeia. Em 1995, foi assinado um tratado de unificação alfandegária. Desde que as reuniões do Conselho Europeu de Helsínquia, em 1999, e de Copenhaga, em 2002, afirmaram que poderia candidatar­‑se à adesão [2], o governo de Ankara deu início a uma espécie de “revolução tranquila” de modo a preencher os critérios exigidos.

O país vem avançando no caminho das reformas democráticas: os tribunais de segurança do Estado estão em vias de desaparecer, a pena de morte foi abolida, foram suprimidas as circunstâncias atenuantes para “crimes de honra” contra mulheres, foi abandonado o projecto de criminalização do adultério. Nas regiões do Curdistão foi suspenso o Estado de emergência, o ensino do idioma curdo é actualmente autorizado, foi criado um canal de televisão em língua curda e foram libertados quatro ex-deputados que haviam sido presos por militarem em defesa da causa curda.

Ainda resta um longo caminho a percorrer no que se refere ao respeito pelas liberdades públicas e pelos direitos fundamentais. O governo de Ankara também terá que reconhecer o genocídio dos arménios de 1915. Uma amnistia aos ex-combatentes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) deverá permitir a libertação de mais três mil militantes actualmente presos, inclusive Abdullah Öcalan, o ex-líder da rebelião.

Mas a perspectiva de adesão à União Europeia já teve por principal consequência reforçar a democratização da Turquia, a sua laicização e a defesa dos direitos humanos. Em relação aos países do Mediterrâneo oriental, ameaçados pela violência e por correntes obscurantistas, esta adesão constitui uma mensagem concreta de esperança, de paz, de prosperidade e de democracia.

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[1] Financial Times, 8 de Setembro de 2004.

 

[2] Foi proposto o seguinte calendário: 2006 para serem iniciadas as negociações; 2015 para a sua conclusão.