|
Informação Alternativa |
|
Médio
Oriente |
|
17/11/2004 Ignacio Ramonet Está mais
perto a paz no Próximo Oriente depois da morte de Yasser Arafat? Alguns assim
o pensam. E não carecem de argumentos. Este desaparecimento coincidiu, por uma
casualidade histórica, com a reeleição de George W. Bush, o dirigente que
mais pode influir no destino desta região e que considerava, tal como o primeiro‑ministro
israelita Ariel Sharon, que Arafat era um “obstáculo para a paz”. Com a morte
do presidente da Autoridade Palestina no passado dia 11 de Novembro, esse
argumento desaparece, e já, em teoria, nada impede que todos voltem à mesa de
negociações. Existem,
além disso, outros elementos que vão nesse mesmo sentido. Tanto Bush como
Sharon, os dois adversários mais ferozes de Arafat, apostaram desde há quatro
anos nos métodos mais duros e violentos para resolver os problemas desta
região. Sharon renegou os acordos de Oslo, o seu exército voltou a ocupar
Cisjordânia e Gaza enquanto se intensificava a colonização dos territórios
usurpados. Bush, por sua vez, mandou invadir o Iraque e derrocar o regime de Saddam
Hussein com a intenção de recompor o mapa do Próximo Oriente e implantar
regimes pró-americanos. Ambos os dirigentes
puderam medir os limites dos seus métodos, baseados no uso da força. Ambos
fracassaram. Sharon admite agora que os seus exércitos e colonos devem
retirar-se de Gaza, porque a capacidade de sofrimento do povo palestino, que
nem se acobarda nem se rende, é superior à violência que exerce o exército israelita.
E Bush comprova que as suas ambições se despedaçaram ante a irredutível resistência
iraquiana. Era hora
pois, para ambos, de mudar de política. Yasser Arafat soube morrer no momento
óptimo, como um supremo sacrifício em prol do seu objectivo histórico: o
reconhecimento de um Estado palestino soberano. Mas esta
conjuntura nova não deve levar a deduções demasiado rápidas. Admitir que a
situação é hoje mais favorável à negociação que ao confronto não significa em
absoluto que a paz entre israelitas e palestinianos esteja à vista. Ficam
formidáveis problemas por resolver. Os principais são três: delimitar as
fronteiras entre Israel e o futuro estado palestino; a questão de Jerusalém;
e a volta aos seus lares dos refugiados palestinianos que fugiram em 1948. A questão
da fronteira, central para os israelitas por legítimas razões de segurança,
complicou-se ainda mais com a construção do Muro de Sharon, que em muitos
lugares morde com profundidade em territórios de reconhecida soberania
palestina, segundo a delimitação de 1967. Quanto a Jerusalém, os palestinianos
desejam que a parte este, muçulmana, seja a capital do seu futuro Estado,
coisa que os israelitas não aceitam. Talvez o terceiro obstáculo, o dos
refugiados, seja o mais fácil de franquear, porque é óbvio que Israel não
poderia absorver vários milhões de palestinianos retornados sem perder para
sempre o seu carácter judeu. Por isso, é provável que se vá para uma solução
em que se reconheça de maneira oficial o direito dos palestinianos a regressar
e se recompense com uma indemnização financeira o não uso desse direito. A
sociedade israelita deseja de maneira maioritária a paz, mas não à custa da sua
segurança. Não se pode esperar que o seu governo (o actual ou um novo surgido
de uma coligação entre o Likud e os trabalhistas) faça concessões nesse
sentido. Os dirigentes palestinianos têm também uma margem de manobra muito
estreita, já que, se cedem nas suas reivindicações históricas, abrirão um
amplo espaço às organizações islamistas mais radicais como o Hamas ou a Jihad,
que prosseguirão os atentados contra civis israelitas e relançarão o ciclo
infernal da violência. O pior,
nesta nova conjuntura, seria descobrir que Arafat não era nenhum obstáculo. E
que a paz tenha que esperar de novo. |