Informação Alternativa

Estados Unidos da América

03/11/2004

 

Imperator

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

Ontem, os eleitores estadounidenses elegeram não só o seu novo presidente mas o homem mais poderoso do planeta. Desde o final da “guerra fria”, depois da queda do Muro de Berlim em 1989 e do desaparecimento da União Soviética em 1991, os Estados Unidos da América converteram­‑se na única hiperpotência mundial. Os trágicos atentados do 11 de Setembro de 2001 ratificaram esta hegemonia e converteram de facto o chefe da Casa Branca numa nova espécie de imperador da terra. Em quase todas as partes do planeta, o presidente norte-americano exerce uma influência determinante sobre um número considerável de acontecimentos. Em matéria de comércio, de meio ambiente, de segurança ou de relações internacionais, as suas decisões têm um impacto significativo sobre o que ocorre nos nossos próprios países. Justificada ou não, qualquer decisão tomada por Washington afecta de modo importante a todas as democracias e à maioria dos povos do mundo. E não só em matéria de guerra e paz, como o vimos com a invasão e a ocupação do Iraque, mas também, por exemplo, no área económica.

Não há um só país membro da Organização Mundial do Comércio (OMC) cuja economia e cujo mercado não se vejam afectados pelas decisões de Washington. Nenhum Estado moderno pode declarar-se por completo independente do formidável poder de atracção da economia americana. Os Estados Unidos são a locomotiva do que se chama a globalização liberal. Muitas das medidas que toma o seu presidente em matéria, por exemplo, de aumento de taxas à importação, podem ter um impacto capital sobre alguns sectores da nossa agricultura, da nossa pesca ou da nossa indústria, e traduzir-se nos nossos países por perdas importantes de empregos.

Na questão da segurança, já vimos como a “guerra contra o terrorismo internacional” depois do 11 de Setembro de 2001 conduziu o presidente norte-americano a tomar medidas muito severas de controle das pessoas e das fronteiras. E a exigir que todos os países aliados adoptem leis muito semelhantes. Já não se viaja com a mesma liberdade de antes, sobretudo se se tem a intenção de ingressar em território estadounidense.

Convém recordar que com a independência, em 1776, dos Estados Unidos e a adopção da Constituição, em 1787, instituiu-se pela primeira vez na história a função de presidente da Republica. Este cargo não tinha existido nunca antes, em nenhum país (na Roma antiga, o magistrado supremo da Republica era o cônsul). George Washington, presidente de 1789 até 1797, foi o que pela primeira vez na história do mundo exerceu essa função. Mas durante mais de um século, ainda que houvessem presidentes célebres como Adams, Jefferson ou Lincoln, o centro do poder o tinham, antes de mais nada e sobretudo, os membros do Congresso. O primeiro que conseguiu transformar a presidência numa instituição mais activa e dominante foi Theodor Roosevelt (1901-1909) que lançou a construção do Canal do Panamá, limitou a concentração do poder económico e teve uma visão mais imperial da América na política internacional. Depois, com o presidente Woodrow Wilson (1913­‑1921), o vencedor da primeira guerra mundial, o presidente dos Estados Unidos converte­‑se num dos principais líderes do planeta.

Com os demais vencedores, – Reino Unido, França e Itália – Wilson será o grande artífice da recomposição do mapa político da Europa em 1919 e um dos promotores da Sociedade de Nações (organismo precursor das Nações Unidas).

Ao longo do século XX, uma série de presidentes com forte personalidade (Franklin Roosevelt, Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Reagan e Clinton) foram açambarcando poderes que antes eram prerrogativas do Congresso. Até converter a pessoa que exerce esse cargo no dirigente político com mais poder no mundo.