Informação Alternativa

Estados Unidos da América

26/10/2004

 

Ramonet afirma que «não há que ter demasiadas ilusões com Kerry»

 

Mauricio Bernal; Pilar Santos

El Periódico de Catalunya; transcrito em Rodelú

«Não há que ter demasiadas ilusões com Kerry». O especialista em geopolítica e director do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, advertiu ontem que uma possível vitória do candidato democrata à presidência dos EU não trará consigo transformações significativas na política estadounidense. A sua argumentação foi categórica: «O programa de Kerry está mais à direita do que o de Aznar», disse.

Segundo Ramonet, esporeador do movimento antiglobalização e inspirador da organização Attac (Associação para uma Taxação das Transações Financeiras para a Ajuda aos Cidadãos), «a Kerry não há que o ver exactamente como um social­‑democrata». De facto, explicou, o seu programa e o do presidente, George Bush, «são muito mais próximos do que se pode imaginar». «Inclusive pode ser que acabe sendo muito mais militarista do que Bush no Iraque», advertiu.

UMA ENCRUZILHADA SINGULAR

Com as eleições estadounidenses ao virar da esquina, Ramonet deu um sentido singular ao título da conferência que pronunciou ontem na Tribuna Barcelona: EU, ante uma encruzilhada. A encruzilhada, veio dizer, consiste, no fundo, em escolher entre o mau e o menos mau. O senador democrata, continuou argumentando, planeja enviar mais soldados para o Iraque, não tem intenção de ratificar o protocolo de Quioto e porá em marcha uma economia proteccionista que prejudicará as exportações de matérias primas dos europeus.

Mas esse é o melhor cenário, pois mais quatro anos de Bush no poder suporão a continuidade do Governo «mais radical e mais de direita que os Estados Unidos tiveram na sua história», segundo Ramonet. Um Governo, explicou, que «fracassou» nas suas políticas interna e externa, e cuja aventura no Iraque supõe um estrondoso desastre: por não conseguir formar uma coligação «importante» e por ir à guerra sem o aval da ONU, entre outras razões.

O Iraque é um exemplo de como Washington pisou o direito internacional para proteger os seus interesses – «essa guerra fez­‑se essencialmente pelo petróleo» –, mas também do papel da superpotência na ordem – e desordem – planetária. «Não há decisão no mundo que não passe pelo filtro ou a bênção dos EU, que acabou por substituir o Conselho de Segurança da ONU. Administra a paz e a guerra no mundo».

O FRACASSO DA SUPERPOTÊNCIA

Razões suficientes, agregou o director do Le Monde Diplomatique, para afirmar que «os Estados Unidos fracassaram na hora de assumir o papel de superpotência do planeta». Tem essa responsabilidade, recordou, desde a desintegração da União Soviética, mas foi depois do 11-S que a irresponsabilidade se fez mais evidente. «Entre 1989 e o 2001 não tinha inimigo, mas a aparição da Al Qaeda mudou radicalmente o carácter do comportamento geopolítico de Washington».

O problema é que os EU pretendem combater a rede terrorista com guerras, como as do Afeganistão e Iraque, «quando o terrorismo se combate com o trabalho dos serviços secretos». Primeiro erro. O segundo, explicou Ramonet, foi desentender­‑se do conflito do Oriente Próximo. «Ao apodrecerem as coisas ali, envenenam­‑se os espíritos na região e alimenta­‑se o terrorismo».

IMPÉRIOS E IMPERADORES

Assim se apresenta o panorama face às primeiras eleições depois do 11-S. Umas eleições que, segundo Ramonet, «vão ter consequências sobre os nossos países e as nossas vidas». «A figura do presidente dos Estados Unidos é actualmente comparável com a do imperador no império romano. Todos vivemos no império norte-americano, e devemos esperar que algum dia todos tenhamos a possibilidade de votar para as eleições».