Informação Alternativa

Ásia

Outubro 2004

 

O labirinto caucasiano

 

Ignacio Ramonet

Le Monde Diplomatique

Para a Rússia, a partir de agora, há um antes e um depois de Beslan. Como houve, para os Estados Unidos, um antes e um depois do 11 de Setembro. O sequestro maciço de reféns civis do último dia 3 de Setembro transformou-se num pesadelo e na matança de cerca de 370 pessoas, entre as quais, umas 160 crianças. Esse novo massacre de inocentes petrificou de horror o mundo que assistiu, estarrecido, à intervenção desastrada e brutal das forças de segurança russas.

Considerando a incrível falha no sistema de segurança e a dimensão delirante da violência desencadeada pelos sequestradores, Beslan passou a significar, sem dúvida, um marco nas guerras do Cáucaso. É a crise de maiores proporções que enfrenta Vladimir Putin desde que foi eleito presidente. Não se sabe, no entanto, se ele avalia as suas dimensões correctamente. No dia seguinte à carnificina, por exemplo, declarou: «Temos que admitir que não compreendemos a complexidade e o perigo dos processos que ocorrem no nosso próprio país e no mundo». Uma maneira de afirmar que a Rússia, como outros países do planeta, enfrenta um adversário comum, o “terrorismo internacional”, ou, em outras palavras, o islamismo radical, ou ainda, como dizem alguns comentaristas, a “jihad [guerra santa] islâmica mundial”.

A força do nacionalismo

Trata-se de um erro da mesma natureza, trágica, daquele cometido pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, em Março de 2003, quando decidiu invadir o Iraque sob o pretexto de combater o terrorismo da al-Qaeda. A Rússia, por sua vez, declara­‑se “em guerra”, sugere a volta a um “Estado forte”, precipita-se em tumultuar o sistema político [1], reforça os recursos do exército e dos serviços secretos e até fala em «ataques preventivos para liquidar as bases terroristas em qualquer ponto do mundo» [2].

As autoridades russas recusam-se a admitir que o terrorismo e o islamismo que enfrentam actualmente, no Cáucaso, não passam de instrumentos, uma vez que o principal problema daquela região é o nacionalismo.

Entre todas as energias políticas, o nacionalismo aparece como a mais forte, a mais resistente. É, sem dúvida, a força mais importante da história moderna – o que pode ser comprovado pela resistência dos palestinos. Nem o colonialismo, nem o imperialismo, nem os totalitarismos conseguiram acabar com ele. A corrente nacionalista não hesita em estabelecer as alianças mais impensáveis para atingir os seus fins. Isso é bastante evidente no Afeganistão ou no Iraque, por exemplo, onde o nacionalismo e o islamismo radical se unem para conduzir, por meio de novas formas – particularmente detestáveis – de terrorismo, uma luta de libertação nacional.

Potência sitiada

O mesmo ocorre na Chechénia. Ninguém opôs maior resistência à conquista do Cáucaso pelos russos do que os chechenos. Essa corajosa luta de oposição data de 1818. E, por ocasião da implosão da União Soviética, em 1991, eles autoproclamaram­‑se independentes. Isso resultou numa primeira guerra com a Rússia que terminou, em Agosto de 1996, com a vitória de uma Chechénia exaurida.

Em represália a uma onda de atentados, em Outubro de 1999, o exército russo voltou a atacar a Chechénia. Esse segundo conflito acabou por arruinar um país já devastado. Moscovo organizou eleições locais, colocando, nos postos­‑chave, personalidades aliadas à sua política. Mas a resistência chechena não depôs as armas, os atentados continuaram e a repressão russa continuou feroz [3].

O contexto geopolítico em nada facilita as coisas. As autoridades russas irritam­‑se com os vínculos cada vez mais estreitos – económicos e até militares – que ligam os Estados Unidos a dois países da Transcaucásia, a Geórgia e o Azerbaijão, ambos com fronteiras com a Chechénia. E associam esse facto com a recente decisão do presidente George W. Bush de reestruturar as forças armadas norte-americanas, deslocando-as da Alemanha para mais perto da Rússia – Bulgária, Roménia, Polónia e Hungria. Isso reforça, em Moscovo, o sentimento de ser uma potência sitiada.

O “segundo Afeganistão”

Em represália, Vladimir Putin manteve, contra o desejo dos governos locais, as suas bases militares na Geórgia e no Azerbaijão, reforçou a sua aliança com a Arménia, que continua a ocupar ilegalmente parte do território do Azerbaijão, e apoia os movimentos separatistas na Abcásia e na Ossétia do Sul.

Incapazes de vencer a Chechénia pelas armas, os russos querem mostrar que, na região do Cáucaso, nada pode ser feito sem eles. Continuam obcecados pelo espectro de um “segundo Afeganistão”. Uma nova derrota militar diante da nebulosa islamita na Chechénia seria ainda mais humilhante (a população chechena não chega a um milhão); isso poderia ser um rastilho de pólvora no Cáucaso e transformar-se em nova desagregação territorial. Daí a recusa em aceitar qualquer tipo de negociação ou o reconhecimento do direito à autodeterminação. E a brutalidade da repressão, por sua vez, fabrica terroristas dispostos às loucuras mais criminosas.

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[1] Putin anunciou a suspensão de eleições por sufrágio universal dos governadores das 89 regiões da Rússia, que serão designados pelos Parlamentos locais de acordo com sugestões feitas pelo presidente da Federação.

 

[2] International Herald Tribune, 9 de setembro de 2004.

 

[3] Anna Politkovskaia, Tchétchénie, le déshonneur russe, ed. Buchet-Chastel, Paris, 2004.