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13/10/2004 Ignacio Ramonet Disse-me um
amigo enquanto circulávamos de carro pelas ruas de Havana faz uns dias: «Vêm
da Venezuela cada semana em avião. São uns cem ou cento e cinquenta, cada um
acompanhado por um familiar. Vêm para curar-se, e vão‑se embora no
mesmo avião, já curados, os que chegaram nas semanas anteriores». «Para curar‑se
de quê?», perguntei‑lhe. «São cegos. Operam‑nos, e recuperam a
vista». Não podia
acreditar. «Mas, como é que nunca ouvi falar disso?». «Bem, já sabes – disse‑me
–, daqui só se comentam as más notícias». O amigo que me falava não tinha
nada de oficial mas podia estar equivocado. Decidi indagar por minha conta.
Parecia‑me estranho que uma informação tão espectacular não circulasse
mais. Comecei a interrogar as pessoas bem informadas, e também a alguns
amigos venezuelanos. Todos o confirmaram. «Até agora
– disse‑me um profissional que estava a participar no projecto –
preferíamos que não se desse demasiada publicidade. Havia um processo
eleitoral na Venezuela, o referendo revogatório, e não queríamos que se
pudesse pensar que isto se fazia com intenções eleitorais. Teriam acusado
Cuba de se intrometer, de maneira indirecta, naquele processo. Por isso, sem
que fosse um segredo, também não se anunciou com bombos e pratos. Mas já não,
desde o dia 15 de Agosto e depois da vitória indiscutível de Chávez, a
informação circula sobre o que chamamos o Plano Milagre. Publicaram-se
reportagens e até se realizou um documentário». Pouco a
pouco obtive quase todos os detalhes desta admirável operação. No âmbito dos
acordos entre Caracas e Havana, Cuba enviou à Venezuela vários milhares de
médicos que se instalaram nas zonas mais humildes, essas favelas em que vivem
pessoas até agora marginalizadas e que careciam dos serviços públicos mais
elementares. Aí, bairro adentro, onde quase nenhum médico venezuelano queria
ir, instalaram pequenos dispensários providos do necessário para dar os
primeiros socorros e cuidar das doenças mais correntes. Estes galenos
missionários cobram o mesmo salário (modesto) que cobrariam em Cuba, e vivem
no mesmo bairro com os seus pacientes. Com frequência detectam doenças graves
da pobreza que eles, com os seus poucos recursos, não podem tratar, e enviam
o paciente para algum hospital. Entre
estes enfermos, muitos padecem doenças dos olhos e ficaram cegos. Mas são
cegos por pobres, porque na maioria dos casos a sua cegueira cura‑se
com facilidade. Por exemplo, quando padecem de cataratas. E como em Cuba há
equipas muito especializadas que operam em dez minutos essa afecção,
decidiu-se enviar os pacientes, acompanhados de um familiar, a Havana, para
ser operados. Tudo gratuito. Já são
mais de cinco mil as pessoas que, deste modo, viveram um milagre e
recuperaram enquanto o diabo esfrega um olho a vista depois de decénios de
escuridão. A lista dos casos que mais chamam a atenção faz saltar as
lágrimas, como a história desse homem que levava mais de trinta anos cego e
que, quando lhe retiraram as vendas, viu a sua esposa, com a qual tinha cinco
filhos, pela primeira vez. Ou essa senhora, cega durante vinte e oito anos,
que por fim pôde ver os seus filhos e os seus netos. Ou esse menino, Samuel,
operado de catarata congénita, que pôde por fim ver a sua mãe. Os episódios
são milhares, emocionantes e milagrosos como um relato neo‑realista.
Ou como todo o trajecto que vai da cega escuridão à luz. |