Informação Alternativa

Ásia

09/01/2008

 

A “guerra boa” é uma guerra má

 

John Pilger


«Para mim, confesso, [países] são peças sobre um tabuleiro de xadrez no qual se trava um jogo pelo domínio do mundo».

Lord Curzon, vice-rei da Índia, ao falar acerca do Afeganistão, 1898

 

Tinha sugerido a Marina que nos encontrássemos na segurança do Hotel Intercontinental, onde os estrangeiros ficam em Cabul, mas respondeu que não. Ela estivera ali outrora e agentes do governo, suspeitando que fosse da Rawa, tinham­‑na prendido. Encontrámo-nos em vez disso numa casa segura, a que se chegava contornando montes de destroços bombardeados do que outrora tinham sido ruas, onde vivem pessoas como vítimas de um tremor de terra à espera de socorro.

 

Rawa é a Revolutionary Association of the Women of Afghanistan, a qual desde 1977 tem alertado o mundo para o sofrimento das mulheres e raparigas daquele país. Não há nenhuma organização como esta sobre a Terra. É o mais elevado exercício de feminismo, a organização das mais valentes entre as valentes. Ano após ano, agentes da Rawa viajaram secretamente através do Afeganistão, ensinando em escolas clandestinas para raparigas, cuidando de mulheres isoladas e brutalizadas, registando ultrajes com câmaras escondidas atrás das suas burcas. Elas foram as inimigas implacáveis do regime Taliban quando a palavra Taliban era raramente ouvida no Ocidente: quando a administração Clinton estava a cortejar secretamente os mulás para que a companhia petrolífera Unocal pudesse construir um oleoduto através do Afeganistão a partir do Cáspio.

 

Na verdade, o entendimento da Rawa das concepções e hipocrisia dos governos ocidentais revela uma verdade sobre o Afeganistão excluída dos noticiários, agora reduzido a um drama de soldados britânicos cercados por um inimigo demoníaco numa “guerra boa”. Quando nos encontrámos, Marina estava velada para esconder a sua identidade. Marina é o seu nome de guerra. Disse ela: «Nós, as mulheres do Afeganistão, só nos tornámos uma causa no ocidente a seguir ao 11 de Setembro de 2001, quando os Taliban subitamente se tornaram o inimigo oficial da América. Sim, eles perseguiram mulheres, mas não eram os únicos, e temos ressentido o silêncio no ocidente acerca da natureza atroz dos senhores da guerra apoiados pelo ocidente, que não são diferentes. Eles violam e sequestram e aterrorizam, contudo possuem lugares no governo de [Hamid] Karzai. De certa forma, estávamos mais seguras sob os Taliban. Podíamos atravessar o Afeganistão por estrada e sentirmo­‑nos seguras. Agora, temos a vida nas mãos».

 

A razão alegada pelos Estados Unidos para invadir o Afeganistão, em Outubro de 2001, era «destruir a infra­‑estrutura da al-Qaeda, os perpetradores do 11/Set». As mulheres do Rawa afirmam que isto é falso. Numa rara declaração em 4 de Dezembro que não foi noticiada na Grã-Bretanha, elas disseram: «Por experiência, [descobrimos] que os EUA não queriam derrotar os Taliban e a al-Qaeda, porque então não terão desculpas para permanecer no Afeganistão e trabalhar pela realização dos seus interesses económicos, políticos e estratégicos na região».

 

A verdade acerca da “guerra boa” é encontrada na evidência convincente de que a invasão de 2001, amplamente apoiada no ocidente como uma resposta justificável aos ataques do 11 de Setembro, foi na verdade planeada dois meses antes do 11/Set e que o mais premente problema para Washington não eram as ligações dos Taliban com Osama Bin Laden, mas a perspectiva de os mulás Taliban perderem o controle do Afeganistão para facções mujahedin menos confiáveis, conduzidas por senhores da guerra que tinham sido financiados e armados pela CIA para combater por procuração a guerra da América contra os ocupantes soviéticos na década de 1980. Conhecidos como Aliança do Norte, estes mujahedin foram em grande parte uma criação de Washington, o qual acreditava que a “carta jihad” podia ser usada para deitar abaixo a União Soviética. Os Taliban foram um produto disto e, durante os anos Clinton, eles foram admirados pela sua “disciplina”. Ou, como colocou o Wall Street Journal, «[os Taliban] são os actores mais capazes de alcançar a paz no Afeganistão neste momento da história».

 

O “momento da história” era um memorando secreto de entendimento que os mulás tinham assinado com a administração Clinton sobre o negócio do oleoduto. Contudo, no fim da década de 1990, a Aliança do Norte apropriara-se de porções cada vez mais vastas de território controlado pelos Taliban, aos quais, como resultado, Washington considerou faltar a “estabilidade” requerida a um cliente tão importante. A consistência do relacionamento deste cliente tinha sido o pré-requisito do apoio estadunidense, independentemente da aversão dos Taliban pelos direitos humanos. (Ao ser questionado sobre disto, um porta-voz do Departamento de Estado havia previsto que «os Taliban desenvolver-se-ão tal como os sauditas o fizeram», com uma economia pró-americana, nenhuma democracia e «montes de legislação sharia», o que significava a perseguição legalizada de mulheres. «Nós podemos viver com isso», disse).

 

No princípio de 2001, convencido de que era a presença de Osama Bin Laden que estava a azedar o seu relacionamento com Washington, os Taliban tentaram livrar-se dele. De acordo com um trato negociado pelos líderes dos dois partidos islâmicos do Paquistão, Bin Laden deveria ser mantido sob prisão domiciliar em Peshawar. Um tribunal de clérigos ouviria então as provas contra ele e decidiria se o julgaria ou o entregaria aos norte­‑americanos. Tivesse isto acontecido ou não, Pervez Musharraf, do Paquistão, vetou o plano. Segundo o então ministro dos Negócios Estrangeiros do Paquistão, Niaz Naik, um alto diplomata americano contou­‑lhe em 21 de Julho de 2001 que fora decidido prescindir dos Taliban «sob um tapete de bombas».

 

Aclamado como a primeira “vitória” na “guerra ao terror”, o ataque ao Afeganistão em Outubro de 2001 e o seu efeito propagador provocou a morte de milhares de civis os quais, ainda mais do que os iraquianos, permaneceram invisíveis aos olhos ocidentais. A família de Gulam Rasul é típica. Foi às 07:45 da manhã de 21 de Outubro. Director de uma escola na cidade de Khair Khana, Rasul tinha acabado de comer o pequeno­‑almoço com a sua família e tinha saído para conversar com um vizinho. Dentro da casa estavam a sua esposa, Shiekra, os seus quatro filhos, com idades entre os três e os 10 anos, o seu irmão e a sua esposa, a sua irmã e o seu marido. Olhou para cima para ver um avião a manobrar no céu, então a sua casa explodiu numa bola de fogo por trás dele. Nove pessoas morreram neste ataque de um F-16 estadunidense que despejou uma bomba de 500 libras [227 kg]. O único sobrevivente foi o seu filho de nove anos, Ahmad Bilal. «A maior parte das pessoas mortas nesta guerra não são Taliban; elas são inocentes», contou-me Gulam Rasul. «Foi a morte da minha família um erro? Não, não foi. Eles voam os seus aviões e olham de cima para nós, o povo afegão simples, que não tem aviões, e eles bombardeiam-nos pelo nosso lugar de nascimento, e com todo o desprezo».

 

Havia uma festa na aldeia de Niazi Qala, 100 km ao sul de Cabul, para celebrar o casamento do filho de um agricultor respeitado. Segundo todos os relatos foi um evento admiravelmente ruidoso, com música e cantorias. O rugido do avião começou quando toda a gente estava a dormir, por volta das três da manhã. De acordo com o relatório das Nações Unidas, o bombardeamento durou duas horas e matou 52 pessoas: 17 homens, dez mulheres e 25 crianças, muitas das quais foram encontradas despedaçadas onde desesperadamente haviam procurado refúgio, num reservatório de água seco. Tais carnificinas não são incomuns, e nestes dias os mortos são descritos como “Taliban”, ou, se forem crianças, dizem ser «parcialmente culpáveis por estarem num sítio utilizado por militantes» – de acordo com a BBC, falando a um porta-voz militar estadunidense.

 

Os militares britânicos desempenharam um papel importante nesta violência, tendo subido os bombardeamentos a partir de grande altitude em 30 por cento desde que tomaram o comando das forças da NATO no Afeganistão em Maio de 2006. Isto traduziu-se em mais de 6.200 afegãos mortos no ano passado. Em Dezembro, um evento noticioso inventado foi a “queda” de uma “fortaleza Taliban”, Musa Qala, no sul do Afeganistão. Permitiu-se às forças governamentais fantoches “libertar” o entulho deixado pelos B-52 americanos.

 

O que justifica isto? Várias fábulas tem sido propaladas – “construir democracia” é uma. “A guerra às drogas” é a mais perversa. Quando os norte­‑americanos invadiram o Afeganistão em 2001 tiveram um êxito impressionante. Deram um fim abrupto a uma proibição histórica de produção de ópio que o regime Taliban havia alcançado. Um funcionário das Nações Unidas descreveu-me a proibição como «um milagre moderno». O milagre foi rapidamente cancelado. Como prémio por apoiar a “democracia” de Karzai, em 2002 os norte­‑americanos permitiram aos senhores da guerra da Aliança do Norte replantarem toda a cultura de ópio do país. Vinte e oito das 32 províncias começaram instantaneamente a ser cultivadas. Hoje, 90 por cento do comércio mundial de ópio tem origem no Afeganistão. Em 2005, um relatório do governo britânico estimava que 35 mil crianças neste país estavam a utilizar heroína. Enquanto o contribuinte britânico paga por uma super­‑base de 1000 milhões de libras na Província Helmand e pela segunda maior embaixada britânica no mundo, em Cabul, internamente são gastos tostões na reabilitação de drogas.

 

Tony Blair disse outrora de forma memorável: «Para com o povo afegão, assumimos este compromisso. Não iremos embora [...] [Ofereceremos] alguma saída da pobreza que é a vossa existência miserável». Pensei nisso enquanto via crianças a brincar num cinema destruído. Elas eram analfabetas e por isso não podiam ler o póster advertindo que bombas de fragmentação não explodidas estavam nos escombros.

 

«Depois de cinco anos de empenhamento», relatou James Fergusson no London Independent de 16 de Dezembro, «o Departamento para o Desenvolvimento Internacional [britânico] gastou apenas 390 milhões de libras em projectos no Afeganistão». Excepcionalmente, Fergusson teve reuniões com Taliban que estavam a combater os britânicos. «Eles permaneciam amáveis e corteses todo o tempo», escreveu ele de uma visita em Fevereiro. «Isto é a beleza da malmastia, a tradição pashtun de hospitalidade para com estrangeiros. Desde que venha desarmado, mesmo um inimigo mortal pode confiar numa recepção afável. A oportunidade de diálogo que a malmastia proporciona é única».

 

Esta “oportunidade de diálogo” é um grito distante da proposta de rendição incondicional feita pelo governo de Gordon Brown. O que Brown e os seus conselheiros do Foreign Office voluntariamente fracassaram em entender é que a vitória táctica no Afeganistão em 2001, alcançada com bombas, tornou-se um desastre estratégico no sul da Ásia. Exacerbado pelo assassínio de Benazir Bhutto, a actual tempestade no Paquistão tem as suas raízes contemporâneas numa guerra tramada por Washington no Afeganistão vizinho que alienou os pashtuns que habitam grande parte da longa área de fronteira entre os dois países. Isto também é verdadeiro para a maior parte dos paquistaneses, os quais, de acordo com sondagens de opinião, querem que o seu governo negocie uma paz regional, ao invés de desempenhar um papel prescrito numa reposição do Grande Jogo de Lord Curzon.