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Mundo

13/12/2007

 

Como a elite anglo-americana partilha os seus “valores”

 

John Pilger

 

John Pilger descreve as origens e os “valores partilhados” do British-American Project for the Successor Generation [Projecto Britânico-Estadunidense para a Geração Vindoura], fundado em 1983 por Ronald Reagan com apoio de Rupert Murdoch. O BAP actual encontra-se todos os anos alternadamente nos EUA e na Grã­‑Bretanha e inclui cientistas, economistas, líderes de comunidade e jornalistas, alguns deles liberais ou “à esquerda”.


Quando o primeiro-ministro Gordon Brown falou recentemente da devoção do seu governo para com os Estados Unidos, «baseada nos valores que partilhamos», ele estava a repetir o que dissera a ministra dos Negócios Estrangeiros Kim Howells, que se preparava para dar as boas­‑vindas à Grã­‑Bretanha ao ditador saudita com efusões de “valores partilhados”. O significado era o mesmo em ambos os casos. Os valores partilhados são os do poder e da riqueza predadores, tornando irrelevantes a democracia e os direitos humanos, como atestam o banho de sangue no Iraque e o sofrimento dos Palestinianos, para referir apenas dois exemplos.

 

Os «valores que nós partilhamos» são festejados por uma obscura organização que acaba de realizar a sua conferência anual. Trata-se do British-American Project for the Successor Generation (BAP), criado em 1985 com dinheiro de um consórcio de Filadélfia com um longo historial de apoio a causas da direita. Embora o BAP não reconheça publicamente esta origem, a fonte da sua inspiração foi um apelo do presidente Reagan em 1983 às «gerações vindouras» dos dois lados do Atlântico para «trabalharem em conjunto no futuro nas questões de defesa e de segurança». Ele fez numerosas referências aos «valores partilhados». A assistir a esta cerimónia, na Sala de Estar da Casa Branca, estavam os ideólogos Rupert Murdoch e o falecido James Goldsmith.

 

Como Reagan tornou claro, a necessidade do BAP surgiu das preocupações de Washington com a crescente oposição na Grã-Bretanha às armas nucleares, em particular ao estacionamento de mísseis de cruzeiro na Europa. «Uma preocupação especial», disse, «serão as gerações vindouras, porque são esses jovens que terão de trabalhar em conjunto, no futuro, nas questões da defesa e da segurança». Uma nova elite, de preferência jovem – jornalistas, universitários, economistas, líderes comunitários progressistas da “sociedade civil” deste ou daquele tipo – iriam contrabalançar o crescente “anti-americanismo”.

 

O objectivo desta rede recente, segundo David Willets – antigo director de estudos do Centre for Policy Studies, organização britânica de direita, e agora membro do governo-sombra dos conservadores –, é simplesmente «ajudar a reforçar os laços anglo­‑americanos, sobretudo se alguns membros já ocupam, ou vão ocupar lugares de influência». Um antigo embaixador britânico em Washington, Sir John Kerr, foi mais directo. Num discurso aos membros do BAP, ele afirmou que «a poderosa combinação de membros eminentes e os estreitos laços transatlânticos» da organização «ameaçavam deixar a embaixada no desemprego». Um organizador estadunidense do BAP descreve a rede do BAP como estando empenhada em «preparar líderes» ao mesmo tempo que promove «o papel dirigente global que [os EUA e o RU] continuam a protagonizar».

 

Os “formandos” britânicos do BAP são recrutados em grande parte no new Labour [novo Partido Trabalhista, designação da viragem feita por Blair, NT] e na sua corte. Não menos de quatro “sócios” do BAP e um assessor da direcção tornaram-se ministros no primeiro governo de Blair. Os nomes do new Labour incluem Peter Mandelson, George Robertson, a baronesa Symons, Jonathan Powell (chefe de gabinete de Blair), a baronesa Scotland, Douglas Alexander, Geoff Mulgan, Matthew Taylor e David Miliband. Alguns são membros da Sociedade Fabiana e descrevem­‑se a si próprios como estando “à esquerda”. Trevor Phillips, presidente da Comissão para a Igualdade e os Direitos Humanos, é outro membro. Eles objectam a sugestões de “uma conspiração”. A comunhão de classe ou de ambições é meramente assegurada, não declarada, e o amplexo caloroso do poder [é] reconfortante e quase sempre produtivo.

 

As conferências do BAP têm lugar alternadamente nos EUA e na Grã-Bretanha. A deste ano foi em Newcastle, sob o tema “Fé e Justiça”. Da direcção estadunidense faz parte Diana Negroponte, a mulher de John Negroponte, antigo responsável de Bush para a segurança nacional conhecido pelas suas ligações à política dos esquadrões da morte na América Central. Segue outro líder neoconservador, Paul Wolfowitz, arquitecto da invasão do Iraque e desacreditado chefe do Banco Mundial. Desde 1985, os “formandos” e “sócios” do BAP têm­‑se reunido com o patrocínio da Coca-Cola, da Monsanto, da Saatchi & Saatchi, da Philip Morris e da British Airways, entre outras multinacionais. Nick Butler, outrora homem forte da BP, tem sido um farol.

 

Para muitos, as conferências proporcionam os prazeres revivalistas refinados pelas técnicas estadunidenses de relações públicas, com jogos de gestão, apresentações pessoais e uma divertida revista final para amenizar os assuntos sérios. O relatório da conferência de 2002 assinalava: «Muitos formandos do BAP estão directamente envolvidos nos organismos militares e de defesa dos EUA e do Reino Unido».

 

O BAP raramente é alvo de notícia, o que pode ter algo a ver com a grande proporção de jornalistas que são formandos. Proeminentes jornalistas do BAP são David Lipsey, Yasmin Alibhai-Brown e um sortido de gente de Murdoch. A BBC está bem representada. Do popular programa Today, James Naughtie, cujas emissões há muito reflectiram os seus interesses transatlânticos pessoais, tem sido formando desde 1989. A mais recente voz do Today, Evan Davis, antigamente o zeloso comentador económico da BBC, é membro. E no topo da página inicial de Internet do BAP está uma fotografia do famoso radialista da BBC Jeremy Paxman e a sua dedicatória. «Uma maneira maravilhosa de reunir um conjunto transversal de amigos transatlânticos», diz ele.