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14/11/2007 Sem lágrimas nem remorsos pelos caídos do Iraque No Dia da Memória de 2007, os grandes e os bons inclinaram as suas
cabeças no Cenotáfio. Generais, políticos, leitores de jornais, dirigentes do
futebol e correctores de acções vestiram as suas melhores roupas. A
hipocrisia sentia‑se. Ninguém mencionou o Iraque. Ninguém exprimiu o
mais ligeiro remorso pelos caídos daquele país. Ninguém leu a lista proibida. A lista proibida documentos, sem favor, o papel que o Estado
britânico e a sua corte desempenharam na destruição do Iraque. Aqui está ela: 1. NEGAÇÃO DO HOLOCAUSTO Em 25 de Outubro, o deputado Dai Davies questionou Gordon Brown sobre
os civis mortos no Iraque. Brown transferiu a questão para o secretário dos
Negócios Estrangeiros, David Miliband, o qual a passou para o seu ministro
júnior, Kim Howells, que respondeu: «Continuamos a acreditar que não há
números completos ou confiáveis quanto a mortos desde Março de 2003». Isto
era mentira. Em Outubro de 2006, a Lancet publicou investigação da
Johns Hopkins University dos EUA e da Universidade al-Mustansiriya de
Bagdade, a qual calculava que 655.000 iraquianos haviam morrido como
resultado da invasão anglo‑americana. Uma investigação ao abrigo da
lei da Liberdade de Informação revelou que o governo, enquanto minimizava
publicamente o estudo, secretamente o considerava como completo e confiável.
O conselheiro científico chefe do ministério da Defesa, sir Roy Anderson,
considerou os seus métodos como «robustos» e «próximos da melhor prática».
Outros altos responsáveis do governo reconheceram secretamente que o
inquérito «tentou e testou o método de medição da mortalidade em zonas de
conflito». Desde então, a agência britânica de investigação de opinião,
Opinion Research Business, extrapolou um número de 1,2 milhões de mortos no
Iraque. Portanto, a escala de mortes provocada pelos governos britânico e
estadunidense pode muito bem ter ultrapassado a do genocídio do Ruanda,
tornando-a o maior acto único de assassínio em massa do fim do século XX e do
século XXI. 2. SAQUEIO A razão não declarada para a invasão do Iraque era as ambições
convergentes dos neocons, ou neofascistas, em Washington e o regime de
extrema-direita de Israel. Ambos os grupos há muito queriam o Iraque esmagado
e o Médio Oriente colonizado para atender os desígnios estadunidense e
israelense. O plano inicial para isto foi o “Defence Planning Guidance”, de
1992, o qual delineou os planos pós-Guerra Fria dos EUA para dominar o Médio
Oriente e não só. Os seus autores incluíam Dick Cheney, Paul Wolfowitz e
Colin Powell, arquitectos da invasão de 2003. A seguir à invasão, foi dada a
Paul Bremer, um neocon fanático, a autoridade civil absoluta em
Bagdade e, numa série de decretos, ele entregou toda a futura economia
iraquiana a corporações americanas. Como isto era ilegal, os saqueadores
corporativos receberam imunidade em relação a quaisquer formas de processo. O
governo Blair foi totalmente cúmplice e até objectou quando parecia que
companhias britânicas poderiam ser excluídas do saqueio mais lucrativo.
Oficiais britânicos foram premiados com postos coloniais de funcionários. Uma
“lei” do petróleo permitirá, com efeito, a companhias estrangeiras aprovar os
seus próprios contratos sobre os vastos recursos energéticos do Iraque. Isto
completará o maior roubo desde que Hitler despojou as suas conquistas
europeias. 3. DESTRUIÇÃO DA SAÚDE DE UM PAÍS Em 1999, entrevistei o dr. Jawad Al-Ali, especialista em cancro do
hospital da cidade de Bassorá. «Antes da Guerra do Golfo», disse ele,
«tínhamos apenas três ou quatro mortes de cancro por mês. Agora há 30 a 35
pacientes a morrerem cada mês. Os nossos estudos indicam que 40 a 48 por
cento da população nesta área ficará com cancro». O Iraque estava então nas
garras de um cerco económico e humanitário, iniciado e conduzido pelos EUA e
pela Grã-Bretanha. O resultado, escreveu Hans von Sponeck, o então principal
responsável da missão humanitária da ONU em Bagdade, foi «genocida... praticamente
toda uma nação foi sujeita à pobreza, morte e destruição dos seus fundamentos
físicos e mentais». A maior parte do sul do Iraque permanece poluído com os
resíduos tóxicos dos explosivos britânicos e americanos, incluindo munições
com urânio‑238. Médicos iraquianos pediram ajuda em vão, citando os
níveis de leucemia entre crianças como os mais altos já vistos desde
Hiroshima. O professor Karol Sikora, chefe do programa de cancro da
Organização Mundial da Saúde, escreveu no BMJ: «Pedidos de equipamentos
de radioterapia, medicamentos de quimioterapia e analgésicos são
sistematicamente bloqueados pelos conselheiros estadunidenses e britânicos
[no Comité de Sanções]". Em 1999, Kim Howells, então ministro do
Comércio, proibiu efectivamente a exportação para o Iraque de vacinas que
protegeriam a maior parte das crianças de difteria, tétano e febre amarela,
as quais, disse ele, «são capazes de serem utilizadas em armas de destruição
em massa». Desde 2003, excepto para exercícios de RP para os media incorporados,
os ocupantes britânicos não fizeram qualquer tentativa de reequipar e
reabastecer hospitais que, antes de 1991, eram vistos como os melhores do
Médio Oriente. Em Julho, a Oxfam relatou que 43 por cento dos iraquianos
estavam a viver na «pobreza absoluta». Sob a ocupação, as taxas de
desnutrição entre as crianças dispararam para 28 por cento. Um documento
secreto da Defence Intelligence Agency, “Iraq Water Treatment
Vulnerabilities”, revela que o abastecimento de água civil foi
deliberadamente alvejado. Como resultado, a grande maioria da população não
tem acesso a água corrente nem a esgotos – num país onde tais serviços
básicos foram outrora tão universais quanto na Grã-Bretanha. «A mortalidade
de crianças em Bassorá aumentou em aproximadamente 30 por cento em comparação
com a era de Saddam Hussein», disse o dr. Haydar Salah, um pediatra do
hospital de crianças de Bassora. «Estão a morrer crianças diariamente e
ninguém está a fazer algo para ajudá-las». Em Janeiro deste ano, cerca de 100
importantes médicos britânicos escreveram a Hilary Benn, então secretário do
Desenvolvimento Internacional, descrevendo como estavam a morrer crianças
porque a Grã-Bretanha não havia cumprido as suas obrigações como potência
ocupante sob a Resolução 1483 do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Benn recusou-se a vê-los. 4. DESTRUIÇÃO DE UMA SOCIEDADE A ONU estima que 100.000 iraquianos estão a fugir do país a cada mês.
A crise de refugiados ultrapassou agora a de Darfur como a mais catastrófica
sobre a Terra. Metade dos médicos iraquianos foi-se embora, juntamente com
engenheiros e professores. A sociedade mais educada do Médio Oriente está a
ser desmantelada, peça por peça. Dentre os mais de quatro milhões de pessoas
deslocadas, a Grã-Bretanha recusou no ano passado o visto à maior parte dos
mais de 1000 iraquianos que pediram para virem aqui, enquanto removiam mais
refugiados iraquianos “ilegais” do que qualquer outro país europeu. Graças a
legislação inspirada em tablóides, iraquianos na Grã-Bretanha estão muitas
vezes na miséria, sem direito a trabalhar e sem apoio. Eles dormem e recolhem
resíduos em parques. O governo, diz a Amnistia, «está a tentar matá-los à
fome para que saiam do país». 5. PROPAGANDA «Veja a minha linha de actuação», disse George W. Bush, «você tem de
repetir coisas uma e outra vez para que a verdade penetre, para como que
catapultar a propaganda». De pé do lado de fora da Downing Street n.º 10, em
9 de Abril de 2003, o editor político da BBC, Andrew Marr, relatou a queda de
Bagdade como um discurso vitorioso. Tony Blair, declarou ele aos
telespectadores, «disse que seriam capazes de tomar Bagdade sem um banho de
sangue, e que no fim os iraquianos estariam a celebrar. E, em ambos os
pontos, verificou‑se que ele estava concludentemente certo. E seria
inteiramente desagradável, mesmo para os seus críticos, não reconhecer que
esta noite ele se ergue como um grande homem e um primeiro-ministro mais
forte». Nos Estados Unidos, mascaradas semelhantes passaram por jornalismo. A
diferença foi que os principais jornalistas americanos começaram a considerar
as consequências do papel que haviam desempenhado na preparação para a
invasão. Vários deles me disseram acreditar que se os media tivessem
desafiado e investigado as mentiras de Bush e de Blair, ao invés de
reflecti-las e amplificá-las, a invasão poderia não ter acontecido. Um estudo
europeu descobriu que, das maiores redes de televisão ocidental, a BBC
permitiu menos cobertura de divergências do que todas as outras. Um segundo
estudo descobriu que a BBC deu sistematicamente crédito à propaganda do
governo de que existiam armas de destruição em massa. Ao contrário do Sun,
a BBC tem credibilidade – como tem, ou tinha, o Observer. Em 14 de Outubro de 2001, a primeira página do Observer de
Londres dizia: “Falcões estadunidenses acusam o Iraque quanto ao antrax”.
Isto era inteiramente falso. Fornecida pela inteligência estadunidense, isto
fazia parte da firme cobertura pró guerra do Observer, a qual incluía
afirmar que existia uma ligação entre o Iraque e a al‑Qaeda, para a
qual não havia evidência credível, o que traiu o passado honroso do jornal.
Uma reportagem em duas páginas foi intitulada: “A conexão iraquiana”. Aquilo
também vinha de «fontes de inteligência» e era lixo. O repórter, David Rose,
concluiu a sua investigação estéril com um sentido apelo à invasão. «Há
ocasiões na história», escreveu ele, «em que a utilização da força é ao mesmo
tempo certa e sensível». Rose escreveu desde então o seu mea culpa,
[...] confessando como fora utilizado. Outros jornalistas ainda têm de
admitir como foram manipulados pelo seu próprio relacionamento crédulo com o
poder estabelecido. Nestes dias, o Iraque é noticiado como se ali houvesse exclusivamente
uma guerra civil, com um “crescimento” dos militares americanos a fim de
trazer a paz aos nativos briguentos. A perversidade disto é de cortar a
respiração. Que a violência sectária é o produto de uma política viciosa de
dividir para conquistar está para além de qualquer dúvida. Quanto ao
abundante mito dos media sobre a al-Qaeda, «a maior parte dos
[americanos] favoráveis contar-lhe-ão», escreveu Seymour Hersh, «que os
combatentes estrangeiros são uns dois por cento, e estão sem liderança». Que
uma resistência fracamente armada e audaciosa tenha não só travado o mais
poderoso exército do mundo como tenha acordado uma agenda anti‑sectária,
anti al-Qaeda, a qual se opõe a ataques a civis e apela a eleições livres,
isto não é notícia. 6. A PRÓXIMA SANGRIA Nas décadas de 1960 e 1970, governos britânicos expulsaram secretamente
a população de Diego Garcia, uma ilha no Oceano Índico cuja população tem
nacionalidade britânica. Mulheres e crianças foram carregadas em barcos que
lembravam navios negreiros e despejadas em favelas das Ilhas Maurícias,
depois de a sua terra natal ter sido dada aos americanos para a instalação de
uma base militar. Três vezes o Supremo Tribunal descobriu esta atrocidade
ilegal, considerando-a como um desacato à Magna Carta e à recusa do governo
Blair de permitir ao povo voltar para casa como «ultrajante» e «repugnante».
O governo continua a utilizar recursos infindáveis para apelar, a expensas
dos contribuintes, para não permitir incomodar Bush. A crueldade disto
rivaliza com o facto de que não só os EUA repetidamente bombardearam o Iraque
a partir de Diego Garcia, como em “Camp Justice”, na ilha, «suspeitos da
al-Qaeda» são «entregues» e «torturados», segundo o Washington Post.
Agora a Força Aérea dos EUA apressa-se a ampliar as instalações de hangares
na ilha para que bombadeiros invisíveis ao radar possam transportar bombas de
14 toneladas para “destruição de bunkers” num ataque ao Irão. A
propaganda orquestrada nos media é crítica para o êxito deste acto de
pirataria internacional. Em 22 de Maio, a primeira página do Guardian de Londres trazia
a manchete: «Plano secreto do Irão para ofensiva de Verão a fim de forçar os
EUA para fora do Iraque». Era um panfleto de pura propaganda baseada
inteiramente em fontes anónimas oficiais dos EUA. Por toda a parte nos media
outros tambores começaram a rufar. As “ambições nucleares do Irão” escorrem
facilmente dos lábios dos leitores destas notícias, não importando que a
Agência Internacional de Energia Atómica tenha refutado as mentiras de
Washington, não importando o eco das “armas de destruição em massa de
Saddam”, não importando que outro banho de sangue esteja a preparar-se. Para que não esqueçamos. |