Informação Alternativa

Europa

10/05/2007

 

O mito Kennedy ascende outra vez

 

John Pilger

 

No dia 5 de Junho de 1968, pouco após a meia­‑noite, Robert Kennedy foi alvejado em minha presença no Ambassador Hotel em Los Angeles. Ele acabara de confirmar a sua vitória na primária da Califórnia. «Vamos para Chicago e vencer ali!», foram as suas últimas palavras públicas, referindo-se à convenção do Partido Democrata que nomearia um candidato presidencial. «Ele é o próximo Presidente Kennedy!» disse a mulher que estava de pé perto de mim. Ela caiu a seguir no chão com um ferimento de bala na cabeça (sobreviveu).

 

Eu estivera a viajar com Kennedy através dos vinhedos da Califórnia, ao longo de estradas precárias ligadas por linhas eléctricas afundadas quase ao nível dos pórticos, e polvilhadas com as ruínas das fantasias de Detroit. Aqui, trabalhadores latinos vomitavam devido aos efeitos dos pesticidas e o candidato prometia­‑lhes que «faria alguma coisa». Perguntei-lhe o que ele faria. «Nos seus discursos», disse eu, «é uma coisa que não fica clara». Ele mostrou-se confuso. «Bem, é baseado numa fé neste país… Quero que a América retorne ao que ela pretendia ser, um lugar onde todos os homens têm uma palavra a dizer sobre o seu destino».

 

O mesmo testamento missionário, de “fé” nos mitos e no poder da América, tem sido pronunciado por todo o candidato presidencial de que há memória, mais pelos democratas, que começaram mais guerras do que os republicanos. Os Kennedys assassinados exemplificaram isto. John F. Kennedy referia-se incessantemente à «missão da América no mundo» mesmo enquanto a afirmava com uma invasão secreta do Vietname que provocou as mortes de mais de dois milhões de pessoas. Robert Kennedy fizera a sua fama como um brutal conselheiro do senador Joe McCarthy no seu comité de caça bruxas que investigava “actividades anti­‑americanas”. O Kennedy mais jovem admirava tanto o infame McCarthy que saiu do seu caminho para comparecer ao seu funeral. Como procurador-geral, ele apoiou a guerra atroz do seu irmão e, quando John F. Kennedy foi assassinado, utilizou o seu nome para ganhar a eleição como senador júnior por Nova Iorque. Na Primavera de 1968, a sua fama de oportunista estava consolidada na opinião pública.

 

Como testemunha de tais tempos e acontecimentos, fico sempre chocado com as tentativas interesseiras de revê­‑los. O extracto do livro Courage: eight portraits, do ministro das Finanças Gordon Brown, publicado no New Statesman de 30 de Abril, é um exemplo excelente. Segundo o candidato a primeiro-ministro, Kennedy colocava­‑se no pináculo da «moralidade», era um homem «movido para a ira e a acção sobretudo devido à injustiça, ao desperdício de vidas, à oportunidade negada, ao sofrimento humano. [A sua] política [foi] de levantamento moral e de exortação». Além disso, a sua «coragem moral é uma mercadoria mais rara do que a bravura na batalha ou uma grande inteligência».

 

Na verdade, Robert Kennedy era conhecido nos Estados Unidos pela sua falta de coragem moral. Só quando o senador Eugene McCarthy promoveu a sua digna «cruzada das crianças» contra a guerra do Vietname, no início de 1968, é que Kennedy mudou a sua posição basicamente a favor da guerra. Tal como Hillary Clinton sobre o Iraque de hoje, ele era um oportunista por excelência. Ao viajar com ele, ouvi-o usar citações de Martin Luther King num dia e utilizar o código racista da lei e da ordem no seguinte.

 

Não é de admirar que o seu “legado” atraia este Brown embrutecido por Washington, o qual procurou em vão apresentar­‑se como um político com firmes raízes morais, enquanto prossegue uma agenda imoral que privatizou às escondidas preciosos serviços públicos e financiou uma invasão ilegal que matou talvez um milhão de pessoas. Como cúmulo disto tudo, ele quer gastar milhares de milhões no sistema de armas nucleares Trident.

 

Coragem moral, escreveu Brown acerca do seu herói, sem dúvida procurando associar-se a ele, «é a única qualidade essencial para aqueles que procuram mudar um mundo que só dá frutos rancorosamente e muitas vezes de modo relutante».

 

Um homem que tem Blair como seu parceiro literal no crime não podia ter dito melhor. Todo o mundo está errado, excepto ele e os seus acólitos. «Acredito que nesta geração aqueles com coragem para enfrentarem o conflito moral [percorrerão] a estrada que a história nos assinalou… construindo uma nova sociedade mundial…». Isto é de Robert Kennedy, citado por Brown, a celebrar uma noção de império cujo longo rastro de sangue certamente o seguirá até Downing Street.