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Mundo

12/04/2007

 

O Irão pode constituir a maior crise dos tempos modernos

 

John Pilger

 

A jornalista israelense Amira Hass descreve o momento em que fizeram a sua mãe, Hannah, marchar de um vagão de gado para o campo de concentração nazi de Bergen-Belsen. «Eles estavam doentes e alguns estavam a morrer», conta ela. «Então a minha mãe viu aquelas mulheres alemãs a olharem para os prisioneiros, simplesmente a olhar. Esta imagem tornou-se muito formativa na minha educação, aquele desprezível “olhar de lado”».

 

Já é tempo de nós na Grã-Bretanha e em outros países ocidentais cessarmos de olhar de lado. Estamos a ser conduzidos à talvez mais séria crise da história moderna, à medida que a “longa guerra” de Bush-Cheney-Blair se aproxima do Irão sem nenhuma outra razão senão a independência daquele país face à voracidade dos EUA. A entrega em segurança dos 15 marinheiros britânicos nas mãos de Rupert Murdoch e seu rivais (com contos da sua “provação” quase certamente da autoria do Ministério da Defesa – enquanto o vento estiver de feição) é tanto uma farsa como uma distracção. A administração Bush, em secreta conivência com Blair, passou quatro anos a preparar-se para a “Operação Liberdade Iraniana”. Quarenta e cinco mísseis de cruzeiro estão prontos a atacar. Segundo o principal pensador estratégico da Rússia, General Leonid Ivashov: «As instalações nucleares serão alvos secundários… pelo menos 20 de tais instalações precisam ser destruídas. Podem ser utilizadas armas nucleares de combate. Isto resultará na contaminação radioactiva de todo o território iraniano, e para além dele».

 

E contudo há um silêncio surrealista, salvo pelo ruído de “notícias” nas quais os nossos poderosos meios de comunicação gesticulam cripticamente perante o óbvio mas não ousam retirar sentido dele, não vá o écran da moral unívoca erguido entre nós e as consequências de uma política externa imperial entrar em colapso e a verdade ser revelada. John Bolton, o antigo homem de Bush nas Nações Unidas, recentemente esclareceu a verdade: que o plano Bush-Cheney-Blair para o Médio Oriente é uma agenda para manter a divisão e a instabilidade. Por outras palavras, banho de sangue e caos equivale a controle. Estava a referir-se ao Iraque, mas também tinha em vista o Irão.

 

Um milhão de iraquianos encheram as ruas de Najaf exigindo que Bush e Blair saiam da sua pátria — essa é a verdadeira notícia: não os nossos marinheiros-espiões capturados, nem a macabra dança política dos pretendentes às ilusões a Duce de Blair. Seja o tesoureiro Gordon Brown, o pagador do banho de sangue do Iraque, ou John Reid, que enviou tropas britânicas para mortes sem sentido no Afeganistão, ou qualquer um dos outros que se sentaram nas reuniões do gabinete sabendo que Blair e os seus acólitos estavam a mentir com todos os dentes, apenas a desconfiança mútua os separa agora. Eles sabiam da conspiração de Blair com Bush. Eles sabiam da falsa “advertência” de 45 minutos. Eles sabiam acerca do alinhamento do Irão como o próximo “inimigo”.

 

Declarou Brown ao Daily Mail: «Os dias em que a Grã-Bretanha tinha de pedir desculpas pela sua história colonial estão ultrapassados. Deveríamos celebrar muito do nosso passado ao invés de nos desculparmos por ele». Em Late Victorian Holocausts, o historiador Mike Davis documenta que tanto como 21 milhões de indianos morreram desnecessariamente em fomes impostas criminosamente pelas políticas coloniais britânicas. Além disso, desde o enterro formal daquele glorioso império, ficheiros desclassificados tornam claro que os governos britânicos adquiriram uma «significativa responsabilidade» pelas mortes directas ou indirectas de 8,6 a 13,5 milhões de pessoas em todo o mundo devido a intervenções militares e às mãos de regimes fortemente apoiados pela Grã­‑Bretanha. O historiador Mark Curtis chama a estas vítimas «não­‑pessoas». Regozijem-se!, disse Margaret Thatcher. Celebrem!, diz Brown. Descubra a diferença.

 

Brown não é diferente de Hillary Clinton, John Edward e os outros democratas instigadores da guerra que ele admira e que apoiam um ataque não provocado ao Irão e a subjugação do Médio Oriente aos “nossos interesses” — os de Israel, evidentemente. Nada mudou desde que em 1953 os EUA e a Grã-Bretanha destruíram o governo democrático do Irão e instalaram o xá Reza Pahlevi, cujo regime tinha «a mais elevada taxa de penas de morte no mundo, nenhum sistema válido de tribunais civis e um historial de tortura» que estava «para além do acreditável» (Amnistia).

 

Olhe para além do écran da moral unívoca e distinguirá a elite blairista pelo seu ódio aos princípios humanos que assinalam uma democracia real. Eles costumavam ser discretos acerca disto, mas não mais. Dois exemplos vêm à mente. Em 2004, Blair utilizou a “prerrogativa real” secreta para derrubar uma sentença do Supremo Tribunal que havia restaurado o próprio princípio dos direitos humanos estabelecidos na Magna Carta em relação ao povo das Ilhas Chagos, uma colónia britânica no Oceano Índico. Não houve debate. Tão implacável como qualquer ditador, Blair deu o seu golpe de misericórdia com a expulsão ilegal dos naturais das ilhas da sua pátria, agora uma base militar estadunidense, a partir da qual Bush bombardeou o Iraque e o Afeganistão e bombardeará o Irão.

 

No segundo exemplo, só o grau de sofrimento é diferente. Em Outubro último, a Lancet publicou uma investigação da Universidade Johns Hopkins, dos EUA, e da Universidade al-Mustansiriya, de Bagdade, a qual calculava que 655.000 iraquianos tinham morrido como resultado directo da invasão anglo­‑americana. Responsáveis da Downing Street ridicularizaram o estudo como sendo «enviesado». Estavam a mentir. Eles sabiam que o conselheiro científico chefe do Ministério da Defesa, Sir Roy Anderson, tinha apoiado o inquérito, descrevendo os seus métodos como «robustos» e «próximos à melhor prática», e outros responsáveis do governo tinham aprovado secretamente o «método da tentativa e teste para medir mortalidade em zonas de conflito». O número de mortes iraquianas é agora estimado em perto de um milhão — carnificina equivalente àquela provocada pelo bloqueio económico anglo-americano do Iraque na década de 1990, o qual provocou as mortes de meio milhão de crianças abaixo dos cinco anos, verificadas pela UNICEF. Isto, também, foi afastado desdenhosamente por Blair.

 

«Este governo trabalhista, o qual inclui Gordon Brown tanto quanto Tony Blair», escreveu Richard Horton, editor da Lancet, «tomou parte num crime de guerra de proporções monstruosas. E, no entanto, o nosso consenso político impede qualquer resposta judicial ou da sociedade civil. A Grã-Bretanha está paralisada pela sua própria indiferença».

 

Tal é a escala do crime do nosso “olhar de lado”. Segundo o Observer de 8 de Abril, o «veredicto condenador» dos votantes acerca do regime de Blair é expresso por uma maioria que «perdeu a fé» no seu governo. Não há surpresa aqui. As sondagens mostraram há muito uma náusea generalizada para com Blair, demonstrada na última eleição geral, a qual produziu o segundo mais baixo comparecimento desde a cidadania. Não foi feita qualquer menção à própria contribuição do Observer para esta perda de fé nacional. Celebrado outrora como um bastião do liberalismo que em 1956 se aguentou de pé contra o ataque ilegal de Anthony Eden ao Egipto, a nova extrema-direita estilo Observer apoiou Blair entusiasticamente no seu ataque ilegal ao Iraque, tendo ajudado a preparar o terreno com grandes artigos que falsamente ligavam o Iraque aos ataque do 11/Set — alegações agora encaradas como falsas até mesmo pelo Pentágono.

 

Com a histeria a ser fabricada outra vez, leia Irão em vez de Iraque. Segundo o antigo secretário do Tesouro dos EUA Paul O’Neill, a cabala de Bush decidiu atacar o Iraque no “dia um” da administração Bush, muito antes do 11 de Setembro de 2001. A principal razão era o petróleo. Foi mostrado a O’Neill um documento do Pentágono intitulado Foreign Suitors for Iraqi Oilfield Contracts, o qual esboçava o retalhamento da riqueza petrolífera do Iraque entre as principais companhias anglo-americanas. Sob uma lei escrita por responsáveis estadunidenses e britânicos, o regime fantoche iraquiano está prestes a transferir a extracção da maior concentração de petróleo sobre a terra para companhias anglo-americanas.

 

Nada como esta pirataria acontecera antes no moderno Médio Oriente, onde a OPEP tem assegurado que o negócio do petróleo é conduzido entre estados. Do outro lado do canal do Shatt al-Arab está um outro prémio: os vastos campos petrolíferos do Irão. Tal como as armas de destruição em massa não existentes ou as preocupações fáceis com a democracia nada tinham a ver com a invasão do Iraque, da mesma forma as não existentes armas nucleares nada têm a ver com o esperado assalto americano ao Irão. Ao contrário de Israel e dos Estados Unidos, o Irão tem agido de acordo com as regras do Tratado de Não Proliferação, do qual foi um dos signatários originais, e permitiu inspecções de rotina ao abrigo das suas imposições legais. A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) nunca citou o Irão por desviar o seu programa civil para utilização militar. Durante os últimos três anos, os inspectores da AIEA têm dito que lhes foi permitido «ir a toda parte». As recentes sanções do Conselho de Segurança da ONU contra o Irão são o resultado do suborno de Washington.

 

Até recentemente, os britânicos não estavam conscientes de que o seu governo era um dos mais persistentes abusadores dos direitos humanos e apoiantes do terrorismo de estado. Poucos britânicos sabiam que a Fraternidade Muçulmana, a precursora da al-Qaeda, era patrocinada pelos serviços secretos britânicos como um meio de destruir sistematicamente o nacionalismo árabe secular, ou que o MI6 recrutou jovens muçulmanos britânicos na década de 1980 como parte de uma jihad apoiada com 4 mil milhões de dólares por anglo­‑americanos contra a União Soviética, conhecida como “Operação Ciclone”. Em 2001, poucos britânicos sabiam que 3000 inocentes civis afegãos foram bombardeados até à morte como vingança pelos ataques do 11 de Setembro. Nenhum afegão deitou abaixo as torres gémeas. Graças a Bush e a Blair, a consciência na Grã­‑Bretanha e por todo o mundo tem ascendido como nunca. Quando terroristas criados em casa atacaram Londres em Julho de 2005, poucos duvidaram que o ataque ao Iraque havia provocado a atrocidade e que as bombas que mataram 52 londrinos eram, com efeito, bombas de Blair.

 

Na minha experiência, a maior parte das pessoas não é favorável ao absurdo e à crueldade das “regras” do poder desenfreado. Elas não contorcem a sua moralidade e o seu intelecto para cumprir com padrões duplos e com a noção de mal aprovado, de vítimas valiosas e não valiosas. Elas, se soubessem, chorariam por todas as vidas, famílias, carreiras, esperanças e sonhos destruídos por Blair e Bush. A prova segura é a resposta sincera do público britânico ao tsunami de 2004, envergonhando a do governo. Certamente concordariam de bom grado com Robert H. Jackson, chefe dos advogados dos Estados Unidos nos julgamentos de Nuremberga dos líderes nazis no fim da Segunda Guerra Mundial. «Crimes são crimes», disse ele, «sejam cometidos pelos Estados Unidos ou pela Alemanha, e não estamos preparados para estabelecer uma regra de conduta criminal que não estaríamos dispostos e ver invocada contra nós».

 

Tal como Henry Kissinger e Donald Rumsfeld, que não ousam viajar para certos países por medo de serem processados como criminosos de guerra, Blair como cidadão privado poderá já não ser intocável. Em 20 de Março, Baltasar Garzón, o tenaz juiz espanhol que processou Augusto Pinochet, apelou a acusações contra os responsáveis por «um dos mais sórdidos e injustificáveis episódios na história humana recente» — o Iraque. Cinco dias depois, o promotor chefe do Tribunal Penal Internacional, do qual a Grã-Bretanha é signatária, afirmou que Blair poderia um dia enfrentar acusações por crimes de guerra.

 

Estas são mudanças críticas no modo como pensa o mundo são — mais uma vez, graças ao Reich de Blair e Bush. Contudo, vivemos o mais perigoso dos tempos. Em 6 de Abril, Blair acusou «elementos do regime iraniano» de «apoiar, financiar, armar e apoiar o terrorismo no Iraque». Ele não apresentou provas, e o Ministério da Defesa não tem nenhuma. Esta é a mesma ladainha ao estilo de Goebbels com que ele e a sua clique, Gordon Brown incluído, provocou uma sangria monstruosa no Iraque. Durante quanto tempo continuaremos a olhar de lado?