|
Informação Alternativa |
|
Estados
Unidos da América |
|
14/03/2007 Colmatando a lacuna entre torturador e vítima No novo livro de Andrew Cockburn, Rumsfeld [1], a lacuna entre
o poder desenfreado e as suas vítimas distantes é colmatada. Ali se revela
que Donald Rumsfeld, secretário da Defesa dos EUA até ao ano passado e
arquitecto do banho de sangue no Iraque, dirigiu pessoalmente do seu gabinete
no Pentágono a tortura de seres humanos, seus semelhantes, explorando «fobias
individuais, tais como o medo de cães, para induzir stress» e o uso de «uma
toalha molhada e água gotejante para induzir a percepção equivocada de
sufocação». A prova documentada de Cockburn mostra que outros mafiosos de
Bush, tais como Paul Wolfowitz, agora presidente do Banco Mundial, «já tinham
concordado em que Rumsfeld deveria aprovar tudo excepto as opções mais
severas, tais como a toalha molhada, sem restrição». Em Washington, perguntei a Ray McGovern, antigo responsável sénior da
CIA, o que ele dizia da observação de Norman Mailer de que a América tinha
entrado num estado pré-fascista. «Espero que ele esteja certo», respondeu,
«porque há outros a dizerem que já estamos num modo fascista. Quando se vê
quem está a controlar os meios de produção aqui, quando se vê quem controla
os jornais e periódicos, e as estações de TV, a partir das quais a maior
parte dos americanos recebe as suas notícias, e quando se vê como a chamada
guerra ao terror está a ser conduzida, começa-se a entender para onde somos
direccionados … É de assinalar que a ameaça nuclear hoje deveria ser vista em
primeiro lugar e sobretudo como vinda dos Estados Unidos da América e da
Grã-Bretanha». McGovern era o autor do resumo diário de inteligência da CIA para o
presidente. Entrevistei-o há mais de três anos, e as suas palavras
prescientes são tão fulminantes hoje quanto a revelação de Cockburn da vida
secreta de Rumsfeld é esclarecedora. A sua descrição do fascismo no interior
de uma sociedade nominalmente livre recorda a advertência de George Orwell de
que o totalitarismo não exige um estado totalitário. As mentiras que provocaram estes tempos extremamente perigosos são
entendidas e rejeitadas pela maioria da humanidade. Isto foi ilustrado de
forma vívida em 15-16 de Fevereiro de 2003 quando uns 30 milhões de pessoas
foram às ruas de cidades de todo o mundo, incluindo a maior manifestação na
história britânica. Foi ilustrado outra vez há poucos dias na América Latina,
a qual George W. Bush na sua viagem tentou recuperar como “quintal” perdido
da América. «O distinto visitante», notou um comentador em Caracas, «foi
recebido com medo e abominação». Há muitas conexões na América Latina com o sofrimento no Médio
Oriente. O esmagamento de governos populares e reformistas pelos EUA e a
instalação de regimes de tortura, da Guatemala ao Chile, reflecte‑se
do Irão ao Afeganistão. Os ataques actuais dos media ao governo de Chávez na
Venezuela, os quais Ray McGovern descreve como sendo «domesticados pelo seu
desejo de servir», são essenciais para recusar o direito dos pobres a
encontrarem outro caminho. Eleito em Dezembro último com o recorde esmagador dos votos de três
quartos da população eleitora – a sua 11ª vitória eleitoral – Hugo Chávez
exprime a espécie de genuína democracia exuberante há muito abandonada na
Grã-Bretanha, onde a classe política oferece em vez disso as artríticas
piruetas de Tony Blair, um criminoso, e do ministro das Finanças Gordon Brown,
o tesoureiro de aventuras imperiais combatidas por soldados de 18 anos de
idade que, no seu retorno a casa, são tão maltratados que não há ninguém para
mudar o saco da sua colostomia. Chávez, tendo-se libertado do mortífero FMI da América Latina, ousa
utilizar a riqueza do petróleo da Venezuela para unir os povos
latino-americanos e expulsar um sistema económico estrangeiro que se
autodenomina liberal e é a fonte de sofrimento histórico. É apoiado por
governos e por milhões por toda a América do Sul dos quais ele deriva o seu
mandato. Você não saberia isto em ambos os lados do Atlântico a menos que
investigasse cuidadosamente. A propaganda que converte uma democracia viva e
aberta numa ditadura “autoritária” é escrita sobre as cruzes enferrujadas dos
camaradas de Salvador Allende, de quem se dizia o mesmo. Ela é disseminada
pelos fracos amargurados cujo herói liberal era Blair, até que ele fez uma
confusão embaraçosa, e que agora clamam a respeitabilidade da “esquerda” a
fim de disfarçar o seu seguidismo por pessoas como Wolfowitz, a sua promoção
do ridículo “império islâmico mundial” de Dick Cheney e, acima de tudo, a sua
paixão por guerras cujo sangue derramado nunca é o deles. ______ [1] Rumsfeld: His Rise, Fall, and Catastrophic Legacy, de Andrew Cockburn, foi publicado nos Estados Unidos pela Scribner. |