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01/03/2007 Austrália, o 51º Estado Em Junho deste ano, 26.000 tropas estadunidenses e australianas
tomarão parte no bombardeamento da frágil paisagem da Austrália. Eles varrerão
a Grande Barreira de Corais, abaterão “terroristas” a tiro e dispararão
mísseis guiados por laser sobre alguns dos mais imaculados territórios sobre
a Terra. Stealth, bombardeiros B-1 e B-52 (cada um destes últimos por si só carrega
30 toneladas de bombas) acabarão o trabalho, juntamente com uma carnificina
naval. Cargas submarinas profundas explodirão onde perigam espécies de
tartarugas nativas. Submarinos nucleares descarregarão os seus sonares de
alto nível, os quais destroem a audição de focas e outros mamíferos marinhos. Dirigida por satélite a partir da Austrália e do Hawai, a Operação
Talisman Sabre 2007 é a guerra por controle remoto, concebida para ataques “antecipativos”
(“pre-emptive”) a outros países. Os australianos sabem pouco disto. O
parlamento australiano não debateu o assunto; os media não estão interessados.
Resultado de um tratado secreto assinado em 2004 pelo governo de John Howard com
a administração Bush, inclui o estabelecimento de uma nova e vasta base
militar na Austrália Ocidental, a qual elevará para 738 o total de bases estadunidenses
conhecidas no mundo. Não importa a derrota no Iraque, o império militar estadunidense
e suas ambições estão em crescimento. A Austrália é importante devido ao notável grau de servilismo
adoptado por Howard, ultrapassando mesmo o de Tony Blair. Descrito uma vez no
Sydney Bulletin como o «vice-xerife», Howard não objectou quando Bush,
ao tomar conhecimento disto, o promoveu a «xerife do sudeste da Ásia». Com a
aprovação de Washington, ele enviou tropas australianas e a polícia federal
para intervir em países insulares do Pacífico; em 2006, efectuou “mudança de
regime” em Timor Leste, cujo primeiro-ministro, Mari Alkatiri, tivera a
coragem de exigir uma parte adequada dos recursos de petróleo e gás do seu
país. A repressão da Indonésia na Papua Ocidental, onde interesses mineiros norte‑americanos
são descritos como «um grande prémio», é endossada por Howard. Este papel sub-imperial tem uma história. Quando os seis estados
australianos se federaram como nação em 1901, «uma Comunidade […]
independente e orgulhosa», diziam as manchetes, os colonos australianos
tornaram claro que a independência era a última coisa que queriam. Eles
queriam que a Mãe Inglaterra fosse mais protectora da sua mais distante
colónia, a qual, queixavam-se eles, era ameaçada por uma multidão de
demónios, nada menos que as «hordas asiáticas» que cairiam sobre eles como
que pela força da gravidade. «O enredo total», escreveu o historiador Manning
Clark, «fede nas narinas. Os australianos tinham de novo rastejado perante os
ingleses. Houve políticos gordos que ansiavam por um título estrangeiro, tal como
as suas esposas ansiavam por um sorriso de reconhecimento da esposa do
governador-geral, o qual se dizia ser o mais arrogante». A moderna classe política da Austrália tem a mesma fome de
reconhecimento por parte da grande potência. Na década de 1950, o primeiro-ministro
Robert Menzies autorizou a Grã-Bretanha a explodir bombas nucleares na
Austrália, enviando nuvens de material radioactivo ao longo de áreas povoadas.
Aos australianos foi contada só a boa notícia de terem sido escolhidos para
este privilégio. Um oficial da Royal Air Force foi ameaçado de processo
depois de ter revelado que 400 a 500 aborígenes estavam nas zonas alvo. «Ocasionalmente
nós trazíamo‑los para descontaminação», disse ele. «Outras vezes, apenas
os enxotávamos como coelhos». Seguiram‑se cegueira e mortes
inexplicadas. Depois de 17 anos no poder, Menzies foi condecorado pela Rainha
e feito Lord Warden of the Cinque Ports. Uma máxima não declarada da política australiana é que os primeiros‑ministros
tornam-se “estadistas” só quando servem interesses imperiais. (Honrosas
excepções têm sido tratadas pela calúnia e subversão). Na década de 1960,
Menzies foi conivente ao ser‑lhe “pedido” para enviar tropas
australianos para combaterem pelos estadunidenses no Vietname. A China
Vermelha vinha aí, disse ele. Howard é mais extremo; na sua década de poder,
ele desgastou a própria base das instituições social-democratas da Austrália
e moldou o seu país como o modelo de uma democracia ao estilo de Washington,
onde a única participação popular é aquela de votar de tantos em tantos anos
por dois partidos “opostos” que partilham quase idênticas políticas
económica, externa e “cultural”. Por “cultural”, leia-se raça, a qual sempre foi importante na criação
de um insidioso estado de medo e submissão. Em 2001, Howard foi reeleito
depois de manipular o “caso das crianças ao mar”, no qual os seus
conselheiros sénior afirmaram que refugiados afegãos haviam insensivelmente
lançado os seus filhos ao mar a fim de serem resgatados por um vaso naval
australiano. Eles produziram fotografias que se demonstraram falsas, mas só
depois de Howard ter tocado cada nervo xenofóbico do eleitorado branco e ter
sido devidamente reeleito. Os dois oficiais que trouxeram a “crise” à sua fraudulenta
investida febril foram promovidos depois de um deles ter admitido que o
engano tinha “ajudado” o primeiro-ministro. Num caso mais escandaloso, Howard
afirmou que o seu departamento da Defesa não estivera ao corrente de um outro
barco golpeado e furado cheio de refugiados iraquianos e afegãos a dirigir-se
para a Austrália até depois de ele se ter afundado. Um almirante mais tarde
revelou que isto, também, era falso; foi permitido que 353 pessoas se afogassem,
incluindo 146 crianças. Acima de tudo, foi o controle da dissenção que mudou a Austrália. A
influência de Rupert Murdoch foi crítica, muito mais do que na Grã-Bretanha.
Sempre que Howard ou um dos seus ministros mais idiotas quer vergar uma instituição
ou difamar um oponente, eles realizam a tarefa em aliança com um conjunto de
comentadores raivosos, sobretudo de Murdoch. Como descreve Stuart MacIntyre
num novo livro, Silencing Dissent, o colunista do Melbourne
Herald-Sun, Andrew Bolt, dirigiu uma campanha para ridicularizar o
independente Australian Research Council o qual, afirmava ele, havia caído
nas mãos de «um clube de esquerdistas» cujo trabalho era «hostil à nossa cultura,
história e instituições», bem como de «investigadores fixados sobre género e
raça». O então ministro da Educação, Brendan Nelson, vetou um permissão de
projecto após outra sem explicação. O Museu Nacional da Austrália, o centro nacional de apoio à criança,
os corpos políticos aborígenes e outras instituições independentes foram
sujeitas a intimidação semelhante. Um amigo que possuiu um posto sénior na
universidade contou-me: «Você não ousa falar. Você não ousa opor-se ao governo
ou à Austrália corporativa». Como aumentam os crimes corporativos
embaraçosos, o tesoureiro, Peter Costello, anunciou alegremente uma
proscrição sobre boicotes morais ou éticos de certos produtos. Não houve
debate; simplesmente foi dito aos media. Um dos conselheiros sénior de
Costello, David Gazard, honrou recentemente com a sua presença um seminário
dirigido por norte‑americanos em Melbourne, organizado pelo Public
Relations Institute of Australia, onde àqueles que pagaram 595 dólares
australianos foram ensinados os truques de misturar activismo com “terrorismo”
e “ameaça à segurança”. As sugestões incluíam: «Chame‑os bombistas
suicidas […] faça-os todos parecer como terroristas […] abraçadores de
árvores [1], fumadores de droga, diabólicos licenciados pela universidade,
anti-progresso […]». Foram aconselhados sobre como montar falsos grupos
comunitários e falsificar estatísticas. Professores que não arvoram a bandeira ou organizadores de concertos
de música que desencorajam o comparecimento de brutamontes racistas
embrulhados na bandeira correm o risco de uma dose do veneno de Murdoch.
Igualmente, se você revela a vergonha acerca do papel de vassalo da Austrália,
será considerado “anti‑australiano” e, sem ironia, “anti-americano”.
Poucos australianos estão conscientes de que Murdoch, que domina a imprensa,
abandonou a sua própria cidadania australiana de modo a poder montar a rede
da Fox TV nos EUA. A Universidade de Sidney está para abrir um Centro de
Estudos dos Estados Unidos, apoiado por Murdoch depois de ele se ter queixado
da incapacidade dos australianos de apreciarem os benefícios do banho de
sangue no Iraque. Tendo recentemente falado em multitudinárias sessões públicas em
Brisbane, Sydney e Melbourne, não tenho dúvidas de que muitos estão profundamente
preocupados por as liberdades no seu idílio soalheiro estarem a escapar‑se.
Foi-lhes dado um lembrete vívido disto no outro dia quando o vice-presidente
Dick Cheney veio a Sydney “agradecer” a Howard o seu apoio. O governo do
estado de New South Wales apressou-se a aprovar uma lei que permitia aos 70
guardas do serviço secreto de Cheney portarem as suas armas. Com a polícia,
eles ocuparam o centro de Sydney e fecharam a Harbour Bridge e grande parte
da histórica zona de Rocks. Dezassete filas de automóveis desfilaram
teatralmente por ali, como se Howard estivesse a gabar-se para Cheney: «Olhe
para o meu controle sobre esta sociedade; olhe para o meu submisso país». E
contudo o seu visitante e mentor é um homem que, tendo-se recusado a combater
no Vietname, trouxe a tortura de volta e mentiu incessantemente acerca do
Iraque, que ganhou milhões em opções de acções com os lucros da carnificina
da sua companhia Halliburton e que vetou a paz com o Irão. Quase todo o
discurso feito por ele inclui uma ameaça. Por qualquer padrão do direito internacional, Cheney é um grande
criminoso de guerra, mas foi deixado a um pequeno e corajoso grupo de
manifestantes sustentar o mito australiano da rebelião com princípios e
enfrentar a polícia. O líder do Partido Trabalhista da oposição, Kevin Rudd,
a personificação da submissão, chamou‑os «feras violentas»; um dos
manifestantes tinha 70 anos de idade. No dia seguinte, a manchete no Sydney
Morning Herald dizia: «Terroristas têm ambições de império, afirma
Cheney». A ironia era refinada, ainda que não intencional. ______ [1] Expressão pejorativa aplicada aos ecologistas (n. trad.). |