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15/02/2007 De luto por uma Austrália secreta Quantos dias fiquei de luto? Estão vivas na memória as coroas de
flores lançadas no Porto de Sydney, e de homens com chapéus amarfanhados e
mulheres com vestidos soltos no litoral onde os seus ancestrais viram os
primeiros navios transportando homens brancos. Em 14 de Fevereiro houve um
dia de luto por T. J. Hickey, um rapaz aborígene que há três anos atrás foi
perseguido pela polícia e acabou empalado numa vedação de estacas de ferro em
The Block, um gueto que está ao alcance da vista dos bancos e das torres
corporativas de Sydney. Foram mantidos silêncios recordatórios por “TJ” e a
sua morte violenta foi comparada às muitas mortes de aborígenes da Austrália
em custódia, tal como aquela de Mulrunji Doomadgee, em Palm Island. Palm Island é uma das mais belas na Grande Barreira de Recifes,
contudo poucas pessoas de fora apanham o curto voo de Townsville.
Estabelecida em 1918 como um campo de detenção para homens, mulheres e
crianças aborígenes condenadas pelos crimes de não terem casa, rebeldia e
bebedeira, mudou sobretudo na superfície. Quando estive ali pela primeira vez,
em 1980, uma epidemia de gastroenterite era considerada uma ameaça à vida.
Dois anos mais tarde, investigadores descobriram nos registos do Departamento
de Saúde de Queensland que as mortes de aborígenes por doenças infecciosas
comuns eram mais de 300 vezes superiores à média dos brancos, e as mais elevadas
do mundo. No cemitério, vigiando as ondas que se quebram gentilmente sobre o
recife de coral, muitas das pedras tumulares ostentam os nomes de crianças. Em 26 de Janeiro último, uma data conhecida pelos brancos como Dia da
Austrália por celebrar o seu “assentamento” (os aborígenes chamam‑lhe
Dia da Invasão), aconteceu algo muito pouco habitual. Foi anunciado que um
sargento de polícia, Chris Hurley, seria acusado pelo homicídio de Mulrunji
Doomadgee. Em 2004, Hurley prendeu Mulrunji por insultos e bebedeira; uma vez
sob custódia da polícia, Mulrunji teve o seu fígado rasgado em dois. «Estas acções do sargento Hurley», disse o juiz‑adjunto
do tribunal de investigação, «provocaram os ferimentos fatais». Contudo, o
director da Acusação Pública de Queensland decidiu não proceder a acusações.
Isto é prática padrão. Em 1989, uma comissão real investigou mais de 100
mortes em custódia, muitas delas comprovavelmente por assassínio ou homicídio
casual. «Eu não tinha ideia», escreveu o comissário principal, Elliott
Johnston, «do grau de […] abuso de poder pessoal, paternalismo absoluto, desprezo
descarado e indiferença total com que tantas pessoas aborígenes eram visitadas
numa base diária». Assim falou a voz do liberalismo e da justiça autralianos. Das 339
recomendações feitas pela comissão real, nem uma delas apelava a acusações
criminais. O processo do sargento Hurley é o primeiro desta espécie, e só aconteceu
porque o governo de Queensland foi praticamente forçado a procurar o opinião
independente de um director de justiça aposentado de New South Wales. De todos os grandes passatempos australianos, o silêncio é
actualmente o mais popular. Isso deve-se, em grande parte, ao temor de falar,
descrito num livro raro, Silencing Dissent, de Clive Hamilton e Sarah
Maddison. Os colegas académicos e escritores australianos dos autores dizem
pouco, se é que alguma coisa, que possa incomodar os bushitas do governo de
John Howard, que tudo controlam, e a sua inspectoria nos media. Julgamentos
pelos media de vítimas internas da Austrália, sejam eles aborígenes ou muçulmanos,
é prática padrão. Trivialidades oficialmente aprovadas passam como notícia e
comentário, juntamente com entediantes estereótipos de grande parte da humanidade,
desde heróicos jogadores australianos de críquete a poms [1] rezingões
e a mullahs loucos. Os verdadeiros heróis australianos não são
reconhecidos, tais como Arthur Murray, um antigo organizador sindical
aborígene que combateu persistentemente durante 25 anos pela justiça para com
o seu filho Eddie, morto sob custódia da polícia, e por todo o seu povo.
Poucos australianos brancos terão ouvido falar de Arthur, cuja dignidade e
coragem evoca uma história secreta, descrita pelo historiador Henry Reynolds
como o «embaraço dos sangrentos billabongs» (lagos). Os “valores” australianos e o orgulho nacional são as distracções
políticas do momento num país estupidamente em guerra no Iraque e no
Afeganistão — um país com mais de 43 por cento de desemprego jovem e, em
alguns casos, com a maioria dos seus jovens negros em custódia. «O patriotismo australiano», afirma o historiador cultural Tony
Moore, «deveria ser em primeiro lugar e acima de tudo baseado em mijar, de
rir, não apenas de si próprio, mas dos poderosos […]» Ele chama a isto «detecção
das tretas». Tremenda ideia, Tony, mas sugiro-lhe que a cumpra primeiro por
Arthur Murray e as pessoas de The Block e de Palm Island; pois, até que nós
brancos devolvamos aos australianos negros a sua identidade nacional, nunca
poderemos reclamar a nossa. ______ [1] Termo que designa depreciativamente os imigrantes ingleses para a Austrália ou a Nova Zelândia (n. IA). |