Informação Alternativa

Médio Oriente

01/02/2007

 

Irão: vem aí uma guerra

 

John Pilger

 

Os Estados Unidos estão a planear o que será um ataque catastrófico ao Irão. Para a quadrilha de Bush, o ataque será um meio de “comprar tempo” para o seu desastre no Iraque. Ao anunciar o que ele chamou um «incremento» de tropas norte­‑americanas no Iraque, George W. Bush identificou o Irão como o seu verdadeiro objectivo. «Interromperemos o fluxo de apoio [à insurgência no Iraque] a partir do Irão e da Síria», disse ele. «E perseguiremos e destruiremos as redes que proporcionam armamento avançado e treinamento aos nossos inimigos no Iraque».

 

“Redes” significa Irão. «Há evidência sólida», disse a 24 de Janeiro um porta-voz do Departamento de Estado, «de que agentes iranianos estão envolvidos nestas redes e de que estão a trabalhar com indivíduos e grupos no Iraque e que estão a ser enviados para ali pelo governo iraniano». Tal como a afirmação de Bush e Blair de que tinham provas irrefutáveis de que Saddam Hussein estava a instalar armas de destruição em massa, a “prova” carece de toda a credibilidade. O Irão tem uma afinidade natural com a maioria xiita do Iraque, e tem­‑se oposto implacavelmente à al-Qaeda, condenando os ataques do 11­‑Set a apoiando os Estados Unidos no Afeganistão. A Síria tem feito o mesmo. Investigações do New York Times, do Los Angeles Times e de outros jornais, incluindo responsáveis militares britânicos, concluíram que o Irão não está empenhado no fornecimento de armas através da fronteira. O general Peter Pace, presidente da US Joint Chiefs of Staff, disse que não existe tal evidência.

 

À medida que se aprofunda o desastre norte­‑americano no Iraque e cresce a oposição interna e externa, fanáticos “neocon” como o vice-presidente Cheney acreditam que a sua oportunidade para controlar o petróleo do Irão passará a menos que actuem até à Primavera. Para consumo público, há mitos poderosos. Em consonância com Israel e os lóbis sionistas e de fundamentalistas cristãos em Washington, o bushitas dizem que a sua “estratégia” é acabar com a ameaça nuclear do Irão. Na verdade, o Irão não possui uma única arma nuclear nem alguma vez ameaçou construir uma; a CIA estima que, mesmo que haja vontade política, o Irão é incapaz de construir uma arma nuclear antes de 2017, no mínimo.

 

Ao contrário de Israel e dos Estados Unidos, o Irão tem agido de acordo com as regras do Tratado de Não Proliferação Nuclear, do qual foi um signatário original, e tem permitido inspecções de rotina de acordo com as suas obrigações legais — até que medidas gratuitas e punitivas foram impostas em 2003, a pedido de Washington. Nenhum relatório da Agência Internacional de Energia Atómica alguma vez mencionou o Irão por desviar o seu programa nuclear civil para utilização militar. A AIEA tem dito que durante a maior parte dos últimos três anos os seus inspectores puderam «ir a qualquer lugar e ver qualquer coisa». Eles inspeccionaram as instalações nucleares de Isfahan e Natanz em 10 e 12 de Janeiro e retornarão em 2 e 6 de Fevereiro. O responsável da AIEA, Mohamed El-Baradei, afirma que um ataque ao Irão terá «consequências catastróficas» e apenas encorajará o regime a tornar-se uma potência nuclear.

 

Ao contrário dos seus dois inimigos, os EUA e Israel, o Irão não atacou outros países. A sua última guerra foi em 1980, quando invadido por Saddam Hussein, que foi apoiado e equipado pelos EUA, os quais forneceram armas químicas e biológicas produzidas numa fábrica em Maryland. Ao contrário de Israel, a quinta potência militar do mundo com armas termo-nucleares destinadas a objectivos no Médio Oriente, com um recorde inigualável de desafio a resoluções da ONU e responsável pela mais prolongada ocupação ilegal do mundo, o Irão tem um historial de obediência ao direito internacional e não ocupa qualquer território além do seu próprio.

 

A “ameaça” do Irão é totalmente fabricada, com a ajuda e a conivência dos habituais media aquiescentes que se referem às “ambições nucleares” do Irão, tal como o vocabulário do não existente arsenal de ADM de Saddam se tornou de uso comum. A acompanhar isto está uma demonização que se tornou prática padrão. Como apontou Edward Herman, o presidente Mahmoud Ahmadinejad «fez um óptimo trabalho a facilitar isto»; contudo, um exame atento à sua famosa observação de Outubro de 2005 acerca de Israel revela a sua distorção. Segundo Juan Cole, professor de História Moderna do Médio Oriente, e outros analistas da língua farsi, Ahmadinejad não apelou a que Israel fosse «varrido do mapa». Ele disse: «O regime que ocupa Jerusalém deve desaparecer das páginas do tempo». Isto, afirma Cole, «não implica de todo acção militar ou matar alguém». Ahmadinejad comparou a morte do regime de Jerusalém com a dissolução da União Soviética. O regime iraniano é repressivo, mas o seu poder é difuso e exercido pelos mullahs, com os quais Ahmadinejad está frequentemente em divergência. Um ataque certamente os uniria.

 

A única peça de “evidência sólida” é a ameaça colocada pelos Estados Unidos. Uma formação naval norte­‑americana no Mediterrâneo oriental começou. Isto é quase certamente parte do que o Pentágono chama CONPLAN 8022, que é o bombardeamento aéreo do Irão. Em 2004, foi emitida a Directiva Presidencial de Segurança Nacional 35, intitulada Nuclear Weapons Deployment Authorisation. Ela é classificada, evidentemente, mas a presunção tem sido há muito de que a NSPD 35 autorizou a acumulação e a instalação de armas nucleares “tácticas” no Médio Oriente. Isto não significa que Bush as utilizará contra o Irão, mas pela primeira vez desde os anos mais perigosos da guerra fria, a utilização do que era então chamado armas nucleares “limitadas” está a ser discutida abertamente em Washington. O que eles estão a debater é a perspectiva de outras Hiroshimas e de cinza radioactiva no Médio Oriente e na Ásia Central. Seymour Hersh revelou no ano passado no New Yorker que bombardeiros americanos «tem estado a voar missões simuladas de lançamento de armas nucleares … desde o último Verão».

 

O bem informado Arab Times, do Kuwait, afirma que Bush atacará o Irão antes do final de Abril. Um dos mais destacados estrategas militares da Rússia, o general Leonid Ivashov, afirma que os EUA utilizarão munições nucleares entregues por mísseis de cruzeiro lançados no Mediterrâneo. «A guerra no Iraque», escreveu ele em 24 de Janeiro, «foi apenas um elemento numa série de passos no processo de desestabilização regional. Foi apenas uma fase de aproximação para tratar do Irão e outros países. [Quando o ataque ao Irão começar] Israel certamente ficará sob o ataque de mísseis iranianos. Fazendo-se de vítimas, os israelenses sofrerão algum dano tolerável e então uns ultrajados EUA desestabilizarão finalmente o Irão, fazendo com que pareça uma nobre missão de resposta… A opinião pública já está sob pressão. Haverá uma crescente histeria anti­‑iraniana, fugas, desinformação, etc… Não está claro se o Congresso dos EUA vai autorizar a guerra».

 

Questionado acerca de uma resolução do Senado dos EUA que desaprova o “incremento” de tropas norte­‑americanas no Iraque, o vice-presidente Cheney afirmou: «Não nos travará». Em Novembro último, a maioria do eleitorado americano votou pelo Partido Democrata a fim de controlar o Congresso e travar a guerra no Iraque. Salvo os insípidos discursos de “desaprovação”, isto não aconteceu e é improvável que aconteça. Democratas influentes, tais como a nova líder da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, e os indigitados candidatos presidenciais Hillary Clinton e John Edwards tem-se entretido junto do lóbi israelense. Edwards é encarado no seu partido como um “liberal”. Ele foi um dos membros do contingente norte­‑americano de alto nível na recente conferência israelense em Herzilya, onde falou acerca de «uma ameaça sem precedentes para o mundo e para Israel (sic). No topo destas ameaças está o Irão… Todas as opções estão sobre a mesa a fim de assegurar que o Irão nunca obterá uma arma nuclear». Hillary Clinton disse: «a política estadunidense deve ser inequívoca… Temos de manter todas as opções sobre a mesa». Pelosi e Howard Dean, outro liberal, distinguiram­‑se ao atacarem o antigo presidente Jimmy Carter, que supervisionou o acordo de Camp David entre Israel e o Egipto e teve a ousadia de escrever um livro verdadeiro, acusando Israel de se ter tornado um «estado de apartheid». Disse Pelosi: «Carter não fala pelo Partido Democrata». Ela está certa, infelizmente.

 

Na Grã-Bretanha, foi apresentado à Downing Street um documento intitulado “Respondendo às acusações”, do Prof. Abbas Edalal, do Imperial College, de Londres, em nome de outros que procuram expor a desinformação sobre o Irão. Blair permanece silencioso. Salvo algumas honrosas excepções, o Parlamento permanece vergonhosamente silencioso.

 

Pode isto estar realmente a acontecer outra vez, menos de quatro anos após a invasão do Iraque que deixou um saldo de 650.000 mortos? Eu escrevi praticamente este mesmo artigo no princípio de 2003; lei­a‑se Irão no lugar de Iraque então. E não é notável que a Coreia do Norte não tenha sido atacada? A Coreia do Norte tem armas nucleares. Essa é a mensagem, estrondosa e clara, para os iranianos.

 

Em numerosos inquéritos, tal como aquele conduzido este mês pela BBC World Service, “nós”, a maioria da humanidade, tornámos claro o nosso repúdio por Bush e pelos seus vassalos. Quanto a Blair, o homem está agora politicamente e moralmente nu para todos verem. Assim, quem é que fala, para além do Professor Edalal e dos seus colegas? Jornalistas privilegiados, académicos e artistas, escritores e dramaturgos que por vezes falam acerca da “liberdade de expressão” estão tão silenciosos como um obscuro teatro de West End. O que é que eles esperam? A declaração de um outro Reich de mil anos, ou uma nuvem em cogumelo no Médio Oriente, ou ambos?